Seguro recebe famílias de Beatriz Bartilotti e Gonçalo Reis Dias
O Presidente da República, António José Seguro, vai reunir-se com os familiares de Beatriz Bartilotti e de Gonçalo Reis Dias, os dois portugueses detidos por forças israelitas após a interceção de embarcações de uma flotilha humanitária que se dirigia à Faixa de Gaza. As famílias tinham pedido audiências tanto ao ministro dos Negócios Estrangeiros, Paulo Rangel, como ao chefe de Estado.
De acordo com as famílias, que falaram com o Expresso, apenas Seguro respondeu ao pedido. O encontro está marcado para esta quarta-feira, pelas 15h.
Entretanto, a organização da flotilha indica que o barco deverá chegar ao porto israelita de Ashdod durante a manhã. O Gabinete de Emergência Consular transmitiu também aos familiares que a embarcação ainda não tinha atracado. Está previsto que representantes diplomáticos portugueses estejam no local para os receber.
Falta de respostas do MNE e contactos com a emergência consular
Sofia Miranda, companheira de Gonçalo Reis Dias - médico de 30 anos, residente no Porto - relatou ao Expresso, na terça-feira, que tem sido particularmente difícil permanecer tanto tempo (esta quarta-feira, pelas 9h, serão 48 horas) sem informação relevante sobre a detenção. Na segunda-feira, enviou várias mensagens por email, “tanto para a embaixada portuguesa em Telavive como para o Ministério dos Negócios Estrangeiros”, mas não obteve qualquer resposta.
Na terça-feira, um dia depois da detenção dos dois portugueses e de outros ativistas que seguiam na flotilha humanitária, Sofia Miranda voltou a contactar o número de emergência consular por iniciativa própria. “Atenderam-me, mas disseram-me que não tinham mais informações. No entanto, disponibilizaram-se para se manterem em contacto connosco”, contou ao Expresso.
A médica, que está a especializar-se em Psiquiatria no Hospital de Leiria, voltou a apelar às entidades competentes, uma vez que desconhece onde se encontra o médico e ativista do Porto, bem como o seu estado de saúde e segurança. “Entretanto, soube que o Gabinete de Emergência Consular ligou para a mãe e para o pai do Gonçalo, a dar a informação de que [os integrantes da flotilha detidos] iriam ser transportados para o porto de Ashdod [sul de Israel], mas não tinham mais detalhes”, referiu, lamentando não lhe terem indicado se o Gonçalo “estava bem”.
Beatriz e Gonçalo fazem parte da Freedom Flotilla Coalition, que, em conjunto com a Global Summud, procurava organizar a maior flotilha de sempre rumo à Faixa de Gaza, com o objetivo de furar o bloqueio ao enclave. A organização comunicou às famílias das pessoas detidas que advogados da iniciativa “estarão no porto de Ashdod a receber os vários ativistas”.
Israel nega uso de munições contra flotilha
A operação militar desencadeada esta segunda-feira, para deter barcos que tinham zarpado da Turquia, resultou na detenção de um britânico, dois espanhóis e dos dois portugueses que estavam a bordo. A intervenção ocorreu em águas próximas de Chipre.
Depois de ter confirmado ao Expresso que os ativistas foram detidos em águas internacionais, o Ministério dos Negócios Estrangeiros (MNE) afirmou, na segunda-feira, que acompanha o caso e que as embaixadas portuguesas em Telavive, Nicósia e Ancara estão prontas para garantir todo o apoio consular aos cidadãos nacionais.
Face aos rumores de que teriam sido disparadas munições reais durante a interceção das embarcações da Flotilla Global Sumud, o Governo israelita declarou que essa informação é falsa e que ninguém ficou ferido. O porta-voz do Ministério dos Negócios Estrangeiros de Israel, Oren Marmorstein, garantiu que “foram utilizados meios não letais contra a embarcação, e não contra os manifestantes, como forma de aviso”.
A flotilha tinha afirmado que várias embarcações foram atingidas durante as operações de interceção, alegadamente por forças israelitas, embora não tenha ficado clarificado que tipo de munições foi utilizado. Também na segunda-feira, Paulo Rangel, ministro dos Negócios Estrangeiros, convocou o embaixador israelita em Lisboa para protestar contra a detenção dos dois médicos portugueses, “em violação do direito internacional”, disse à agência Lusa.
Em Itália, o ministro dos Negócios Estrangeiros, Antonio Tajani, pediu uma investigação urgente sobre “o uso da força pelas autoridades israelitas”, na sequência de denúncias de ativistas italianos relativas ao uso de balas de borracha contra as embarcações.
As Forças Armadas de Israel concluíram, na terça-feira, a interceção dos últimos barcos da flotilha humanitária. As operações prolongaram-se por dois dias e abrangeram cerca de 50 embarcações que tentavam alcançar a Faixa de Gaza, com mais de 400 ativistas a bordo. O primeiro-ministro israelita, Benjamin Netanyahu, elogiou, na segunda-feira, o “trabalho excecional” da Marinha do seu país nestas operações.
“Continuam incontactáveis”
A detenção, por Israel, dos dois portugueses levou a Ordem dos Médicos (OM) a divulgar um comunicado a expressar preocupação. O bastonário, Carlos Cortes, manteve contactos com o MNE e, segundo o comunicado, foi informado de que os dois médicos estão “sob custódia das autoridades israelitas, devendo posteriormente ser repatriados para Portugal”.
A OM acrescentou que está a acompanhar o caso de forma permanente, em articulação com o MNE e com o Ministério da Saúde, a quem “solicitou a devida observância da legislação internacional, ao abrigo da Convenção de Genebra e das normas da Associação Médica Mundial, no sentido de acionar todos os mecanismos diplomáticos necessários ao regresso seguro dos dois cidadãos, assim como da garantia plena da integridade física e psicológica dos dois portugueses”.
Tanto Sofia Miranda como Francisca Bartilotti, irmã de Beatriz - médica de 30 anos - disseram ao Expresso que não obtiveram resposta do MNE ao pedido de reunião com Paulo Rangel. Reiteram o apelo para que sejam rapidamente informadas sobre o estado em que os familiares se encontram.
Francisca contou, na terça-feira, que as novidades têm chegado de forma muito limitada: “Hoje, o meu pai foi contactado pelo secretário-geral dos Serviços Consulares. Não tinham mais informações, além de que eles estão a ser transferidos para o porto de Ashdod e que, depois, o objetivo é que se faça o repatriamento imediato.”
Sem confirmação sobre o estado de saúde de Beatriz e Gonçalo, Francisca Bartilotti sublinhou: “Eles continuam incontactáveis. Não fazemos ideia de como estão, se estão bem, a que maus tratos estão a ser sujeitos”.
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