A banca das “camisas de marca” na Feira da Tocha
Há uns anos, na Feira da Tocha, cruzei-me com uma banca que apregoava “camisas de marca”. Custavam €5 cada e, talvez, €10 por três. Aproxima-se uma senhora e pergunta se uma camisa específica era mesmo da Hugo Boss. O vendedor responde com uma honestidade que desarma: “Acha? Acha que sim? Parece-lhe que, se fosse, era esse o preço? Se quiser camisas de marca, vá ao shopping. Lá as camisas estão penduradas numa cruzeta e tem espelho para ver como fica e tudo. Se quer barato, compra aqui e não se preocupe com o número, que, se não servir, a gente troca.”
Ele tinha razão: na feira, ninguém compra por engano. Quando muito, o que se tenta é enganar terceiros - fazer de conta que se veste algo de uma marca mais cara.
Foi este episódio que me voltou à cabeça ao ver as reações de tantos comentadores perante as mais recentes aleivosias do Chega e do PCP. Em certo sentido, Chega e PCP acabam por ser mais transparentes do que muitos dos que, comentário após comentário, fingem não compreender o que estes partidos são.
O Chega, as linhas vermelhas e as pensões
Comecemos pelo Chega. Entre comentadores de direita - refiro-me, em particular, aos que rejeitam as chamadas linhas vermelhas - houve grande alvoroço quando surgiu a exigência de baixar a idade de reforma. “Assim, não pode ser! Que proposta irresponsável. Assim não há entendimentos possíveis. Revelaram a sua verdadeira natureza: são socialistas, que horror!” João Miguel Tavares condensa o ponto no título de uma crónica no “Público”: ‘Fizeste borrada da grossa com as pensões, Andrezito’.
Quem defende ‘geringonças’, sejam à esquerda ou à direita, é o comprador da falsa camisa de marca, que a vai exibir para o trabalho e depois se faz chocado quando desbota com a primeira lavagem
A sério? Querem mesmo que alguém acredite que não sabiam que faz parte da natureza de Ventura andar, histericamente, a lançar propostas e exigências inconscientes, umas atrás das outras? Não vou alinhar aqui uma lista de promessas disparatadas e irresponsáveis do Chega, nem enumerar as propostas extremistas. Fico-me pelo tema em causa: pensões.
O Chega inscreve no programa a convergência das pensões mínimas com o salário mínimo. Isto é mais demagógico (porque incentiva a que as pessoas não descontem para a Segurança Social, corroendo a lógica contributiva), mais populista (porque abrange de imediato muito mais gente) e mais irresponsável (porque é muitíssimo mais caro) do que baixar a idade de reforma para 65 anos.
Não faz sentido ser contra as linhas vermelhas com quem defende isto e, ao mesmo tempo, fazer-se muito chocado porque Ventura quer baixar a idade da reforma. É o mesmo que comprar “camisas de marca” a um vendedor ambulante por €1 e depois fingir surpresa ao descobrir que a etiqueta é mentira.
O PCP: ditaduras, União Soviética e dissidência
Com o PCP sucede rigorosamente o mesmo. Também aqui a franqueza é quase brutal. O partido defende ditaduras, como a de Cuba; no Parlamento, ainda há dias, exaltou os avanços laborais na antiga União Soviética e lamentou o seu fim; mas, depois, há quem, à esquerda, se apresente como muito escandalizado por o PCP defender ditaduras como a da Rússia.
Com a morte de Carlos Brito, assistimos a mais um exercício de falsa sinalização de virtude. O PCP sempre tratou os seus dissidentes de forma miserável. Na prática, os comunistas convivem tão bem com a apostasia como os religiosos mais fanáticos. Sempre foi assim e sempre será: está-lhes no ADN. E toda a gente o sabe. O PCP nem sequer o esconde. A infame reação do PCP à morte de Carlos Brito é apenas mais um exemplo do tratamento reservado aos apóstatas.
A indignação da esquerda e a lógica da ‘geringonça’
Os comentários furiosos de muitos esquerdistas não passam de má consciência: a consciência de que defenderam que um Governo se apoiasse no PCP (a malograda ‘geringonça’), enquanto fingiam que se tratava de um partido fofinho, muito dedicado aos trabalhadores. Porque sabem perfeitamente que é um partido extremista e antidemocrático, que convém normalizar quando dá jeito. Os ataques ao PCP funcionam, assim, como uma maneira de fingir que não sabiam o que ele é.
No fundo, PCP e Chega comportam-se como o vendedor ambulante: são cristalinos no que querem e no que defendem. O Chega nem se dá ao trabalho de disfarçar que propõe tudo e o seu contrário para captar votos, mostrando cada vez menos pudor em exibir simpatias pelo antigo regime. Chega ao ponto de chamar miserável à revolução que derrubou a ditadura. Já só falta organizar uma festa para celebrar os 100 anos do golpe militar do 28 de Maio. Também vão ficar muito chocados se isso acontecer?
Já o PCP defende qualquer ditadura desde que se afirme comunista ou seja sua herdeira, como a russa ou a angolana. E, claro, trata a dissidência como pecado mortal. Quem insiste em ‘geringonças’, seja à esquerda ou à direita, é o comprador da falsa camisa de marca: leva-a para exibir no trabalho e depois faz-se chocado quando desbota na primeira lavagem.
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