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A contestação ao aumento do Imposto Único de Circulação (IUC) no Orçamento do Estado para 2024

Carro elétrico desportivo azul estacionado dentro de uma garagem moderna com vidros grandes.

As notícias sobre constrangimentos na saúde, na justiça e na educação têm-se acumulado. Ainda assim, nenhum desses temas conseguiu arrastar tantos portugueses para a rua como a proposta de aumento do Imposto Único de Circulação (IUC) incluída no Orçamento do Estado para 2024.

O acréscimo do IUC será, por si só, o maior problema do país? Dificilmente. Apesar disso, foi este o tópico que voltou a pôr a sociedade civil em movimento como há muito não acontecia, sem associações, sindicatos ou partidos políticos a puxar pelos cordelinhos.

Entretanto, é natural que o Governo esteja a tentar perceber como é que algo apresentado como apenas “dois euros por mês”, parafraseando o Ministro das Finanças, Fernando Medina, conseguiu desencadear uma mobilização desta dimensão. A explicação não cabe numa única razão, mas depois desta manifestação já se conseguem identificar alguns pontos-chave.

Porque é que o aumento do IUC gerou tanta indignação

1) Um sentimento de injustiça

O primeiro fator é a perceção de injustiça. Muitos milhares de proprietários de motociclos e automóveis entendem que lhes foram defraudadas expectativas. Como se ouvia na rotunda do Marquês - cenário de tantas festas do futebol -, “não se mudam as regras a meio do jogo”.

2) A ideia de propriedade e o peso simbólico do carro

O segundo fator é o sentimento de propriedade. Sem desvalorizar o impacto concreto do aumento do IUC - que, em determinados casos, ultrapassa os 400% -, há um reflexo imediato que o povo resume bem: ninguém gosta que mexam naquilo que sente como seu.

Este lado simbólico tem peso e ajuda a perceber por que motivo “dois euros por mês”, de repente, conseguem mobilizar o país, mesmo num contexto em que outros bens e serviços têm subido ainda mais.

3) Para muitos, o automóvel é trabalho e acesso ao «elevador social»

Em terceiro lugar - e, provavelmente, o ponto decisivo -, não se trata apenas de um automóvel: para muita gente é uma ferramenta de trabalho. E, para muitos portugueses, é até mais do que isso; é o meio que torna possível trabalhar.

Num país em que as distâncias nem sempre se contam apenas em quilómetros, o carro funciona como peça essencial desta máquina complexa a que chamamos «elevador social». Há quem sinta que atacar o automóvel é atacar o seu «ganha pão».

O que pode mudar: IUC e incentivos ao abate

Dito isto, não é claro qual será o efeito prático desta manifestação - em particular, se o aumento do IUC, tal como está desenhado, avançará. Ainda existe margem temporal para recuar ou alterar.

E se a preocupação ambiental for, de facto, uma prioridade, então faz sentido reavaliar também os modelos de incentivo ao abate. Alargar essa medida a um conjunto mais abrangente de viaturas - novas ou usadas, independentemente de serem elétricas ou não - pode ser precisamente a notícia que muitos portugueses gostariam de ouvir.

Fernando Medina e a «pedra no sapato» da mobilidade

Vale a pena lembrar que Fernando Medina já foi «traído» pelo tema das ciclovias em Lisboa (um debate que lhe custou a vitória na corrida à Câmara Municipal) e agora foi «apanhado» de surpresa pelo IUC. A mobilidade tem sido, para o atual Ministro das Finanças, uma verdadeira «pedra no sapato».

Por isso, manter a medida como está ou rever a posição sobre o IUC torna-se o dilema central a que o Governo e Fernando Medina terão de responder nos próximos dias.


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