O tratamento padrão para um joelho com artrose - uma injecção de cortisona - funciona, no essencial, da mesma forma que há meio século. Reduz a inflamação durante alguns meses e, depois, a cartilagem da articulação continua a desgastar-se como aconteceria de qualquer maneira.
Um novo estudo identificou uma proteína dentro das próprias células da cartilagem onde ninguém esperava encontrá-la. Se essa proteína for bloqueada com um fármaco que já está disponível nas farmácias, administrado dentro de um gel que mantém o medicamento na articulação durante semanas, parece ocorrer algo pouco habitual.
Porque é que a cartilagem se degrada
A osteoartrose costuma ser descrita como simples “desgaste”, mas essa expressão esconde um intenso braço-de-ferro biológico. No interior de uma articulação, as células da cartilagem - os condrócitos - passam o tempo a fazer duas tarefas em simultâneo: produzir cartilagem e remover tecido gasto.
Num joelho saudável, estas duas funções mantêm-se em equilíbrio. Na doença, a balança inclina-se para a destruição e a cartilagem afina mais depressa do que o organismo a consegue repor. Com o tempo, é osso contra osso.
Esse desgaste lento está entre as principais causas de incapacidade a nível mundial; um estudo contabilizou mais de meio milhar de milhões de pessoas afectadas.
Para muitos doentes, o caminho continua a terminar numa prótese do joelho, porque não existe qualquer medicamento aprovado que trave a progressão do dano.
A descoberta na cartilagem
A procura de uma solução concentrou-se numa proteína chamada Nav1.7, que se encontra à superfície das células e as ajuda a transmitir sinais eléctricos.
Durante anos, os investigadores acreditaram que ela estava quase exclusivamente nos neurónios que conduzem a dor até ao cérebro.
Depois, esse mesmo canal apareceu num local inesperado - dentro das próprias células da cartilagem.
Numa articulação saudável, o sinal mantém-se silencioso. Numa articulação com artrose, torna-se hiperactivo e parece empurrar os condrócitos para a degradação da cartilagem que, em teoria, deveriam proteger.
A descoberta surgiu no laboratório de Chuan-Ju Liu, Ph.D., professor no Departamento de Ortopedia e Reabilitação da Escola de Medicina de Yale.
“Precisamos de terapêuticas que não se limitem a mascarar a dor, mas que alterem de facto a forma como a doença evolui”, afirmou Liu.
Reaproveitar um medicamento antigo
Em vez de criar uma nova molécula, a equipa avaliou fármacos que já bloqueiam canais de sódio. Um destacou-se: a lacosamida, usada há anos no tratamento da epilepsia.
O efeito surgiu com doses surpreendentemente baixas e com um perfil de segurança mais limpo do que o de medicamentos mais antigos da mesma classe.
O reaproveitamento tem uma vantagem óbvia. Um fármaco já aprovado para uso humano evita anos de testes de segurança, e a lacosamida traz consigo décadas de utilização em pessoas.
A decisão apoiou-se num estudo anterior do mesmo laboratório, que foi o primeiro a detectar o canal nas células da cartilagem. Um medicamento relacionado já tinha sugerido capacidade para proteger articulações, mas a lacosamida atingiu o alvo com menos quantidade de fármaco.
Encontrar a dose certa
O que apanhou a equipa de surpresa foi o comportamento do medicamento. Mais não significou melhor.
Numa dose baixa e muito específica, a lacosamida levou as células da cartilagem a produzir novas proteínas e, ao mesmo tempo, travou a degradação. Com dose a mais ou a menos, o benefício diminuía.
Uma janela terapêutica tão estreita é invulgar e indica aos investigadores que a química da articulação está finamente equilibrada. O objectivo é recuperar esse equilíbrio, não saturar o tecido.
A dose reduzida tem ainda uma vantagem prática. Menos fármaco tende a traduzir-se em menos efeitos adversos, e um tratamento eficaz em níveis muito baixos é mais simples de administrar com segurança ao longo de muitos meses.
Proteínas que ajudam na recuperação
Ao investigar de que modo o fármaco protege a articulação, a equipa identificou duas proteínas - HSP70 e midkina - que parecem aumentar em resposta à lacosamida. Ambas funcionam como “zeladores” dentro do tecido.
A HSP70 ajuda células sob stress a recuperar e favorece a reparação dos tecidos. A midkina mantém a inflamação sob controlo e protege a articulação de mais degradação, pelo que o alcance do fármaco vai além de células individuais.
Estes sinais criam um contexto em que a cartilagem consegue aguentar-se. Até que ponto isto se transfere de culturas em laboratório e de animais para articulações humanas ainda está a ser esclarecido.
Resolver o “joelho com fugas”
Mesmo um fármaco promissor precisa de permanecer no local certo. Tomada em comprimido, a lacosamida distribui-se por todo o corpo e pode provocar efeitos indesejáveis longe do joelho.
Injecutá-la directamente na articulação parece mais simples, excepto por um problema: o joelho esvazia rapidamente. Liu descreve-o como um balde com fugas que elimina o líquido injectado em poucas horas. O medicamento desaparece antes de conseguir fazer grande coisa.
A solução foi um hidrogel feito a partir de colagénio tipo II, uma proteína presente na cartilagem. Mantém-se líquido numa seringa fria e, com a temperatura do corpo, transforma-se num tampão macio, libertando o fármaco lentamente ao longo de semanas.
Em testes com animais, isso fez diferença. Uma única injecção a cada quatro semanas preveniu a perda de cartilagem melhor do que um comprimido diário.
“Isto transforma um comprimido diário num tratamento local e duradouro, que se mantém activo durante um mês ou mais”, explicou Liu.
Um caminho mais rápido para avançar
Como a lacosamida já está disponível nas farmácias, a sua avaliação na osteoartrose pode avançar mais depressa do que a criação de um medicamento totalmente novo. Grande parte do trabalho de segurança já está feita.
Há motivos para optimismo para lá do laboratório. A lacosamida já aliviou dor em pessoas com doenças nervosas raras associadas a defeitos no Nav1.7, e um ensaio avaliou-a em doentes com essas mutações.
O que este trabalho demonstra é concreto. Em animais, uma injecção mensal superou um comprimido diário na protecção da cartilagem, e o mesmo fármaco que reduz a dor também orientou as células articulares para a reparação.
Para os doentes, isto poderá significar, um dia, menos cirurgias e uma injecção ocasional a substituir um comprimido diário, sem recurso a opióides.
Actualmente, não existe qualquer medicamento que, ao mesmo tempo, alivie a dor da osteoartrose e proteja a articulação - e os resultados desta investigação apontam directamente para essa lacuna.
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