Um exame aos ovários pode revelar uma imagem semelhante a pérolas dispersas e, durante décadas, essa aparência acabou por dar nome à doença. A expressão síndrome do ovário poliquístico (PCOS) indicava às doentes onde procurar o problema. Agora, uma mudança de nome para a PCOS afirma que o rótulo anterior estava errado.
Afinal, aquelas “pérolas” não são quistos. São folículos - pequenos sacos onde se encontram óvulos imaturos. Depois de 14 anos de trabalho, um grupo internacional atribuiu à condição uma designação que procura refletir aquilo que ela realmente é.
Um nome sob fogo
Durante muito tempo, a designação incomodou quem trata esta condição. Aponta o dedo aos ovários quando a perturbação é mais abrangente. E assenta na ideia de quistos que, em muitas doentes, nem sequer existem.
Helena Teede esteve entre as principais vozes a defender a alteração. É endocrinologista e dirige o Monash Centre for Health Research and Implementation, na Monash University, na Austrália.
Segundo Teede, o que as ecografias mostram não são formações patológicas que provoquem a doença, mas folículos comuns. A palavra “quisto” dá a entender que algo correu mal, quando muitas vezes o ovário está apenas a desempenhar uma função normal.
Não existe “no increase in abnormal cysts on the ovary,” disse Teede. Durante anos, os efeitos mais amplos da condição passaram despercebidos.
Para lá dos ovários
Por trás do nome está um problema hormonal que vai muito além da reprodução. Muitas doentes desenvolvem resistência à insulina - uma situação em que as células do corpo deixam de responder adequadamente à insulina e a glicemia sobe.
Com o tempo, isso aumenta a probabilidade de diabetes tipo 2, concluiu um estudo com mulheres jovens. Outros sinais tornam-se visíveis na pele e no espelho.
As doentes podem lidar com acne persistente, crescimento de pelo indesejado e rarefação onde não o querem, além de menstruações irregulares e dificuldades em engravidar. Nada disto encaixa bem num nome centrado apenas nos ovários.
A condição também pesa na saúde mental. As mulheres que a têm apresentam taxas mais elevadas de depressão e ansiedade do que as que não têm. Parte pode estar ligada aos sintomas e parte a anos de sensação de desvalorização.
Um novo nome que não induz em erro
A mudança de nome da PCOS exigiu mais de uma década de discussão. Uma equipa internacional chegou a consenso em torno de PMOS, sigla de síndrome ovárica metabólica poliendócrina.
A nova designação é extensa, mas consegue aquilo que a antiga não conseguia: elimina a referência enganadora a quistos e indica o que, de facto, impulsiona a doença - as hormonas e o metabolismo.
Durante anos, investigadores criticaram o termo antigo, mas faltava acordo quanto a uma alternativa. O entendimento não nasceu de um único grupo fechado.
Participaram mais de 50 organizações médicas e de doentes. Juntaram-se ainda mais de 20.000 respostas a inquéritos de pessoas que vivem com a condição e de clínicos que as acompanham.
Inquéritos estruturados e sessões presenciais testaram diferentes propostas de nome até uma resistir em vários países e especialidades. A escolha resultou de consenso, não de imposição.
Porque é que tantos diagnósticos falham
Em medicina, os nomes têm consequências, e este deixou pessoas de fora. Uma revisão indica que até sete em cada dez pessoas afetadas nunca chegam a ser diagnosticadas.
Um rótulo centrado nos ovários pode ocultar sinais que, de outra forma, um médico procuraria relacionar. E quando o diagnóstico finalmente surge, o acompanhamento tende a fragmentar-se.
Uma mulher pode consultar um médico por menstruações irregulares, outro por acne e um terceiro por açúcar no sangue. E ninguém acompanha o quadro completo.
Um nome mais claro não resolve isto de um dia para o outro, mas os defensores esperam que ajude a empurrar o sistema para cuidados coordenados. Se as doentes perceberem que se trata de uma condição do corpo inteiro - e não de uma particularidade dos ovários - menos casos poderão passar despercebidos.
Nem todos concordam
Há quem duvide de que a mudança seja útil. Alguns clínicos questionam se um novo nome é o que as doentes mais precisam, quando os problemas de fundo são diagnósticos irregulares e pouco financiamento para investigação.
Pesa também a força do hábito. As siglas antigas aparecem em manuais, registos clínicos e sistemas de faturação. Reescrever décadas de uso exigirá anos e custos.
Os apoiantes respondem que o nome anterior fazia mal e que nenhuma implementação é indolor. O plano avançará por etapas ao longo de três anos, com atualização de orientações, formação e dos códigos de doença usados pelos médicos.
O que muda agora
Pela primeira vez, a área passa a ter uma designação acordada em conjunto. Foi construída com contributos de doentes e evidência clínica, e não determinada por um único grupo.
Os “quistos” em que o rótulo antigo insistia nunca foram o verdadeiro motor da doença. Se o novo nome cumprir o seu papel, uma adolescente com acne persistente e menstruações irregulares poderá ser avaliada mais cedo quanto à glicemia.
O impacto na saúde mental - bem documentado num artigo - poderá ser encarado com maior seriedade. E as doentes poderão também encontrar menos olhares de dúvida quando explicam a sua condição.
Para as cerca de 170 milhões de mulheres que vivem com esta condição, a mudança é, por agora, em grande parte invisível. Ainda assim, dá margem para que a investigação se concentre diretamente nas raízes hormonais e metabólicas.
Da próxima vez que um médico usar o nome, as palavras deverão descrever o que se passa no corpo - e não uma característica que nunca foi o problema.
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