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Ao longo do dia de hoje, a Armada Argentina assinalou, em Buenos Aires, o Bicentenário do Combate Naval dos Poços - o confronto em que o Almirante Guillermo Brown se destacou pela sua leitura táctica ao derrotar uma força do Império do Brasil muito superior em número, que mantinha a cidade sob bloqueio. O episódio, ocorrido a 11 de junho de 1826, foi determinante para um país que dava os primeiros passos fora do domínio colonial espanhol e para uma instituição que, agora, celebra lado a lado com a população, com um variado dispositivo de navios e aeronaves.
O que aconteceu no Combate Naval dos Poços?
Para enquadrar, ainda que de forma breve, a importância desta efeméride na Argentina, é preciso recuar a 1825. O Império do Brasil, antecessor da República dos Estados Unidos do Brasil e então com presença consolidada no território uruguaio, decidiu enviar uma esquadra poderosa para o Rio da Prata, sob o comando do vice-almirante Rodrigo José Ferreira Lobo. Com trinta e um navios, a frota brasileira instituiu um bloqueio a Buenos Aires em dezembro desse ano, procurando forçar a capitulação da capital. Para justificar a medida, alegava que as Províncias Unidas tinham apoiado a expedição dos chamados Trinta e Três Orientais, que pretendia libertar o país vizinho do controlo imperial.
A resposta argentina e a desvantagem numérica
Já em janeiro de 1826, começou a desenhar-se a reacção argentina com a convocação do referido marinheiro de origem irlandesa, homenageado como o principal prócer naval do país. Nascido como William Brown em Foxford, no condado de Mayo, o então major-coronel recebeu o comando de uma força reduzida: uma esquadra com apenas dez navios e pouco mais de cem canhões. Juan Bautista Azopardo assumiu funções como segundo no comando.
À partida, o cenário era francamente desanimador, dada a disparidade numérica face ao adversário - circunstância que acrescenta, sem margem para dúvidas, um valor ainda maior à façanha da esquadra argentina e do seu comandante.
A estratégia de Guillermo Brown no fundeadouro dos Poços
À frente desta força limitada, Brown decidiu estabelecer a defesa no fundeadouro dos Poços, uma área escolhida propositadamente por colocar os navios brasileiros de maior calado numa posição desfavorável, entre outros motivos pela reduzida profundidade de água. Demonstrando engenho estratégico, o irlandês “mais argentino de todos” optou por dispor os seus navios transversalmente ao canal de acesso, apostando que, assim, a frota inimiga perderia a vantagem numérica e seria obrigada a combater de frente, navio a navio.
O combate à vista de Buenos Aires
Com as posições definidas, o comandante argentino dirigiu-se aos marinheiros e soldados prontos a dar a vida pela Pátria, com palavras que permaneceram na memória colectiva até hoje: “Marinheiros e soldados da República: vedes essa grande montanha flutuante? São os 31 navios inimigos! Mas não creiais que o vosso general abriga o menor receio, pois não duvida do vosso valor e espera que imiteis a 25 de Maio, que será afundada antes de se render. Camaradas: confiança na vitória, disciplina e três vivas à Pátria!” Pouco depois, deu a ordem: “Fogo rasante, que o povo nos contempla!”. E não era mera figura de estilo: o embate entre as duas nações desenrolou-se à vista de uma cidade cujos terraços estavam repletos de testemunhas. Buenos Aires inteira acompanharia a coragem de Brown e dos seus homens.
A bordo da fragata “25 de Maio”, Brown manteve-se na primeira linha, suportando o principal foco do assédio brasileiro na nau que funcionava como capitânia da esquadra argentina. Isto era particularmente relevante porque, entre os dez navios referidos, predominavam canhoneiras pouco preparadas para um combate desta escala - algumas com apenas um canhão a bordo. Durante longas horas, a frota de Ferreira Lobo tentou romper a linha defensiva e, após várias tentativas, procurou também manobrar para a envolver. Não conseguiu.
Contra o que muitos esperariam, a resistência argentina acabou por produzir resultados. Depois de sucessivos insucessos em derrotar uma força inferior em número, a frota brasileira, já desgastada, começou a retirar-se. Numa derradeira demonstração de audácia, Brown ordenou a perseguição, para os hostilizar com os últimos disparos do combate. Por estes feitos - que, ainda assim, relatou depois num tom sóbrio - o pai da Armada Argentina foi recebido como herói pela população portenha e até pelo próprio presidente Bernardino Rivadavia. Entre a multidão, uma jovem chamada Carmen Somellera entregou-lhe uma coroa de louros, em reconhecimento por uma vitória conquistada contra o destino.
As celebrações de hoje em imagens
A Zona Militar teve a oportunidade de acompanhar, durante a manhã de hoje, a recriação histórica levada a cabo pela Armada Argentina. O momento ficou marcado pela presença de público que se aproximou para celebrar o Bicentenário da Batalha dos Poços junto da instituição, bem como para ver de perto os diversos meios expostos no evento. De seguida, partilhamos algumas das imagens mais marcantes que registámos.
A Zona Militar agradece à Armada Argentina por nos permitir participar nestas comemorações, orgulhosos, uma vez mais, de quem nos representa como nação e do legado de heróis que a instituição guarda na sua história.
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