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Rússia afirma ter destruído um CP-30 argentino na Ucrânia, mas sistema nunca foi exportado

Pessoa a analisar imagens e informações de lançadores de foguetes em dois ecrãs num ambiente de trabalho.
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A alegação do Ministério da Defesa da Rússia de que as suas forças teriam destruído na Ucrânia um lança-foguetes múltiplo CP-30 de origem argentina não corresponde ao estado real deste sistema de armas: trata-se de um meio que nunca foi exportado e que opera de forma exclusiva no Exército Argentino. A referência surgiu a 10 de Junho de 2026 no comunicado diário da chamada “operação militar especial”, sem quaisquer imagens ou prova material, o que coloca a afirmação algures entre um erro de identificação por parte da inteligência russa e uma notícia falsa.

O que afirmou o comunicado russo

Segundo a nota divulgada pelo Ministério da Defesa da Rússia no seu canal oficial de Telegram em inglês, o Grupo de Forças “Tsentr” terá conduzido ataques contra unidades ucranianas nas imediações de várias localidades da República Popular de Donetsk e da região de Dnipropetrovsk. Na lista de material alegadamente destruído, o texto indica - além de tropas, viaturas blindadas e um sistema de artilharia autopropulsada Bogdana de 152 mm - “um sistema de lança-foguetes múltiplo CP-30 de fabrico argentino”.

O mesmo boletim diário mencionou, noutros segmentos atribuídos aos grupos “Sever” e “Zapad”, a suposta destruição de duas estações de radar RADA RPS-42 de fabrico israelita, num elenco de equipamentos de origem estrangeira que, de acordo com a comunicação russa, estariam a operar do lado ucraniano. A inclusão do CP-30 é particularmente sensível porque, de forma implícita, sugere que a República Argentina teria fornecido armamento a Kyiv.

Um sistema que nunca saiu do país

O elemento central que contraria a alegação é simples: o CP-30 nunca foi exportado. É um desenvolvimento de fabrico integralmente nacional, cuja utilização está limitada, de modo exclusivo, ao Exército Argentino. A produção foi reduzida - o primeiro lote, entregue em Dezembro de 2012, contou com apenas quatro exemplares, e o plano original de 20 unidades não chegou a concretizar-se -, pelo que o universo total de plataformas existentes é pequeno e plenamente identificável.

Nesta linha, fontes consultadas pela Zona Militar puderam confirmar que as peças CP-30 em dotação permanecem na sua unidade de assento no componente de artilharia de lançadores múltiplos, sem registo de baixas, perdas ou qualquer transferência. Também não existem registos públicos de uma cedência argentina de material de artilharia de foguetes à Ucrânia, país ao qual Buenos Aires não forneceu armamento desta categoria.

Assim, a afirmação divulgada sem suporte visual apenas admite duas interpretações: uma identificação incorrecta, por parte da inteligência russa, da plataforma efectivamente atingida - hipótese plausível, dada a semelhança exterior entre lançadores montados em camião - ou, em alternativa, a inclusão de informação falsa no comunicado oficial.

Sobre o lança-foguetes múltiplo CP-30

O CP-30 é um sistema de saturação superfície-superfície desenvolvido pelo Instituto de Investigaciones Científicas y Técnicas para la Defensa (CITEDEF) e produzido pela Dirección General de Fabricaciones Militares (DGFM). As principais características são:

  • Tipo: lança-foguetes múltiplo (MLRS) de saturação superfície-superfície.
  • Calibre: 127 mm, com 27 tubos distribuídos por três módulos independentes de nove tubos cada.
  • Plataforma: camião todo-o-terreno 6×6 (Iveco Trakker).
  • Alcance: na ordem dos 30 a 33 quilómetros.
  • Munição: foguetes CP-30 de 127 mm; também foguetes Pampero de 105 mm (através de sabots) e SAPBA de 127 mm.
  • Cadência de fogo: capacidade de disparar a salva completa de 27 foguetes em menos de 15 segundos.
  • Direcção de tiro: computador balístico, posicionador por satélite e sistema automático de nivelamento e entrada em bateria.
  • Guarnição: 3 militares.
  • Em serviço: Exército Argentino desde 2012, na unidade de artilharia de lançadores múltiplos.
  • Exportação: nenhuma; uso exclusivo do Exército Argentino.

O sistema integra o inventário de artilharia de foguetes da força, conforme reflectiu o levantamento de meios terrestres do Exército Argentino elaborado pela Zona Militar para 2025-2026, e foi apresentado em exercícios recentes em território nacional, incluindo o Exercício Escola de Fogo em Salinas del Bebedero, onde foi exibido um CP-30 com melhorias incorporadas. O percurso do programa - com uma produção que nunca chegou a equipar uma unidade completa - foi igualmente analisado por este meio.

Os comunicados diários e a informação não verificada

Os relatórios diários do Ministério da Defesa da Rússia incluem, de forma sistemática, extensas listagens de baixas e de material ucraniano alegadamente destruído, cujos números e pormenores raramente vêm acompanhados de prova visual e, na sua maioria, são de difícil verificação independente. A introdução de equipamentos de origem estrangeira - como o CP-30 argentino ou os radares israelitas citados no mesmo boletim - enquadra-se nessa prática comunicacional, em que a confirmação material do que é declarado tende a estar ausente.

No caso do CP-30, a inexistência total de imagens ou registos audiovisuais do suposto sistema destruído, somada à impossibilidade técnica de um meio nunca exportado estar a operar na Ucrânia, reforça a leitura de que se trata de informação sem fundamento. A hipótese mais plausível é a de uma confusão com lança-foguetes de outras origens presentes no teatro de operações, vários deles com configuração exterior semelhante sobre chassis de camião.

Até ao momento, o Ministério da Defesa da Rússia não apresentou qualquer evidência que sustente a alegação nem rectificou o comunicado, mantendo uma versão que, face aos factos verificáveis, oscila entre erro de inteligência e desinformação. A Zona Militar continuará a acompanhar o caso e a acrescentar as precisões que venham a surgir em torno desta informação.

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