No Festival de Cinema de Cannes, na Croisette, Cate Blanchett trouxe novamente para a linha da frente um tema incómodo para Hollywood: relações de poder, desigualdade de género e a cultura de trabalho nos bastidores. A atriz australiana, de 57 anos, considerou que o movimento #MeToo "perdeu força depressa", apesar de ter destapado uma realidade profunda e generalizada.
Cate Blanchett na Croisette: poder e desigualdade de género em Cannes
A declaração surgiu numa conversa no festival, moderada pelo jornalista Didier Allouch, e rapidamente se tornou um dos momentos mais falados em Cannes, pela forma direta como Blanchett avaliou o estado atual da indústria e o rasto deixado por uma campanha que marcou a última década do cinema.
"Se não identificamos o problema, não o conseguimos resolver"
Para Blanchett, o #MeToo teve relevância estrutural ao dar visibilidade ao que durante anos ficou por dizer. Na sua perspetiva, o movimento expôs "uma camada sistémica de abuso, não apenas nesta indústria, mas em todas as indústrias".
No centro da sua intervenção esteve também a necessidade de nomear o que está errado, como forma de abrir caminho a soluções: "Se não identificamos um problema, não o conseguimos resolver".
Ao falar daquilo que observa nos platôs de filmagem, a atriz descreveu um desequilíbrio que, segundo ela, continua a repetir-se. Disse que, em muitos trabalhos, faz mentalmente uma contagem informal das equipas e que o padrão é recorrente: "há 10 mulheres e 75 homens todas as manhãs".
A intérprete de "Blue Jasmine" frisou que esta diferença não é apenas um número: influencia o ambiente, o tipo de linguagem e a dinâmica com que os projetos avançam. "Eu gosto dos homens, mas o que acontece é que as piadas tornam-se sempre as mesmas. Tens de te preparar um pouco, e eu já estou habituada, mas torna-se entediante para toda a gente quando entras num ambiente de trabalho homogéneo. Acho que isso tem um efeito no trabalho", afirmou.
Uma voz consistente na defesa da mudança
O #MeToo ganhou dimensão global em 2017, após as acusações contra o produtor Harvey Weinstein, desencadeando um fluxo internacional de denúncias de assédio e abuso sexual em múltiplas áreas da sociedade. Desde então, várias figuras conhecidas enfrentaram consequências a nível profissional e judicial.
A marcha simbólica de 82 mulheres em 2018
Blanchett tem-se mantido entre as vozes mais persistentes neste debate. Em 2018, quando presidiu ao júri do Festival de Cannes, participou numa marcha simbólica de 82 mulheres no evento, com o objetivo de sublinhar a desigualdade histórica na presença feminina na indústria cinematográfica.
Mais de sete anos depois, regressa ao tema num registo de alerta e análise crítica: reconhece o impacto inicial do movimento, mas insiste que a mudança estrutural ficou por cumprir e que a desigualdade de género por trás das câmaras continua evidente e difícil de ignorar.
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