Negociações sob mediação do ministro do Trabalho
A Samsung Electronics, na Coreia do Sul, e o sindicato voltaram esta quarta-feira à mesa das negociações, desta vez com a intervenção do ministro do Trabalho, depois de anteriores esforços para travar uma greve não terem produzido resultados.
A paralisação estava marcada para começar na quinta-feira, na sequência do impasse nas conversações sobre o bónus de desempenho, alimentando receios de que pudesse haver impacto na produção de semicondutores essenciais.
Prevista para arrancar na quinta-feira, a ação deverá exceder de forma significativa a greve de 2024, que envolveu cerca de seis mil trabalhadores na maior produtora mundial de "chips". Em causa está a partilha de lucros por parte de um ator central na cadeia global de abastecimento de semicondutores, cujos chips de memória são amplamente usados em sistemas de inteligência artificial (IA) e noutros equipamentos eletrónicos.
Exigências do sindicato e resposta da administração da Samsung Electronics
Do lado dos trabalhadores, a principal reivindicação passa por acabar com o teto atualmente em vigor para o bónus de desempenho - definido em até 50% do salário anual - e substituí-lo por um modelo que afete 15% do lucro operacional ao pagamento de incentivos.
"Por volta das 22 horas do dia 19 de maio, o sindicato aceitou a proposta de mediação apresentada pela Comissão Nacional de Relações Laborais; no entanto, a administração manifestou a sua recusa", afirmou hoje o sindicato em comunicado, acrescentando que "dará início legalmente a uma greve geral amanhã, conforme previsto".
De acordo com o advogado do sindicato, cerca de 50.500 trabalhadores deverão abandonar as linhas de produção por 18 dias a partir de quinta-feira, após o falhanço das negociações com a direção.
A administração da Samsung sustenta que as conversações não avançaram porque "ceder às exigências excessivas do sindicato poderia comprometer os princípios fundamentais da gestão da empresa", sublinhando ainda que "em circunstância alguma deve ocorrer uma greve".
Pressão política e risco para a economia de exportação
Nas últimas 12 meses, as ações da tecnológica valorizaram quase 750%, impulsionadas pelo "boom" da IA, e em maio a empresa viu a sua capitalização bolsista ultrapassar um bilião de dólares (cerca de 862 mil milhões de euros) pela primeira vez.
No seio do Governo sul-coreano, aumentam as preocupações de que uma greve longa possa ter efeitos negativos numa economia fortemente dependente das exportações, tendo em conta que os chips de memória representam cerca de 35 % das exportações.
A Presidência da Coreia do Sul afirmou sentir "profundo pesar" com o insucesso das negociações e apelou a ambas as partes para continuarem a procurar um entendimento, atendendo às "potenciais repercussões da greve na economia coreana".
Alguns especialistas alertam que até uma interrupção parcial da atividade da Samsung poderá ser danosa - embora o sindicato refira que já houve, no passado, paragens de produção por razões ligadas a manutenção e a inspeções de equipamento.
O Governo pode recorrer a poderes de mediação de emergência - uma medida que pode suspender greves ou outras ações sindicais e acionar a mediação, se estas forem entendidas como uma ameaça para a economia nacional.
Impacto limitado
Para Tom Hsu, analista da TrendForce, empresa de investigação com sede em Taipé, o efeito potencial da greve tende a ser reduzido.
"Devido ao elevado nível de automatização nas instalações de produção inicial, a TrendForce prevê que a produção de DRAM e NAND Flash da Samsung se mantenha a plena capacidade", disse à AFP.
"Qualquer impacto potencial da greve deverá limitar-se aos segmentos de negócio não relacionados com memórias", acrescentou.
Entretanto, um tribunal de Suwon emitiu esta semana uma injunção a favor da Samsung Electronics, determinando que o pessoal e as operações se mantenham em níveis normais durante qualquer paralisação.
Kim Sung-hee, diretor do Instituto dos Trabalhadores para a Política Industrial e Laboral, considerou que, apesar de poder haver prejuízos, "é improvável que estes sejam irreversíveis". A greve não significa que "desencadearia automaticamente uma crise económica", afirmou à AFP.
"Boom" da inteligência artificial
A Samsung está entre os maiores fabricantes de chips de memória aplicados em múltiplas utilizações - desde a inteligência artificial a eletrónica de consumo, como telemóveis -, o que sustenta a hipótese de a greve anunciada poder originar perturbações e perdas significativas.
A empresa indicou este ano que avançou para a produção em massa de chips de memória de alta largura de banda de última geração, os HBM4, considerados cruciais para aumentar a capacidade dos grandes centros de dados necessários ao desenvolvimento da IA.
Este diferendo ocorre num período de forte expansão da IA, que tem beneficiado os grupos tecnológicos sul-coreanos, refletindo-se no crescimento interno e no desempenho do mercado bolsista.
Tanto a Samsung como a rival nacional SK hynix reportaram lucros recorde no primeiro trimestre, impulsionados pela procura mundial de chips de IA.
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