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Vera Iaconelli e a psicanálise: um relato analítico na Penguin

Mulher sentada a escrever num caderno aberto numa mesa com livros e óculos perto de uma janela iluminada.

Um género pouco cultivado entre nós

O panorama editorial de língua inglesa está cheio de livros sobre psicoterapia e psicanálise - muitas vezes, testemunhos de terapeutas e psicanalistas acerca das próprias experiências em análise. Em Portugal, esse filão nunca se consolidou; acabámos por ficar mais pela autoajuda e afins, deixando de lado textos sólidos sobre o trabalho de desfazer nós no inconsciente e tentar construir algo consistente com os fios que daí vêm à superfície.

Vera Iaconelli na Penguin: dar forma a uma história possível

O livro da psicanalista brasileira Vera Iaconelli vem preencher essa lacuna e, ao mesmo tempo, reforçar a colecção de não-ficção literária da Penguin. Ao longo do texto, a autora atravessa diferentes processos analíticos por que passou, compondo sobretudo um relato que procura organizar uma narrativa possível - sem nunca perder de vista os alçapões e armadilhas que este tipo de percurso implica: “Precisamos de uma narrativa sobre nós mesmos - só não podemos nos fiar demais nela”.

Processo em construção, teoria e família

Registar um processo analítico corre frequentemente o risco de não sair do território da história pessoal, tornando-se uma espécie de terapia escrita que interessa a quem a escreve e a pouco mais. No caso de Iaconelli, esse perigo fica sempre longe: o texto assume-se como um edifício em permanente obra, mesmo quando isso obriga a deitar abaixo o que parecia já estar de pé, mantendo o foco no próprio movimento que abre fissuras, cria passagens e desenha saídas de emergência.

As referências teóricas estão lá - com Lacan em primeiro plano e o incontornável Freud -, apresentadas de forma clara e com justificação. E há também a descida a esse abismo recorrente que é a família: “(...) todos teremos que nos haver com o passado de onde emergimos.” Ainda assim, o que Iaconelli partilha não se confunde com exibicionismo. O que chega ao leitor é antes uma dádiva em forma de história de outra pessoa onde, apesar das singularidades e diferenças inevitáveis, se reconhecem raízes comuns - uma identificação que confirma que nem o inferno é privado, nem o paraíso é exclusivo.

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