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Microbioma intestinal dos bebés pode influenciar o desenvolvimento do cérebro, o autismo e a TDAH

Bebé com ilustração dos intestinos e bactérias, sentado ao colo da mãe num quarto iluminado.

Um bebé nasce e, à partida, parece que muito já ficou decidido. Muitos de nós partem do princípio de que o essencial - o temperamento, a forma como o cérebro fica “programado”, as probabilidades de condições como o autismo - é, em grande medida, determinado pelo ADN com que a criança chega ao mundo.

Mas o primeiro ano de vida torna essa ideia mais complexa, de forma discreta. Um novo trabalho científico indica que as bactérias que um bebé vai acumulando nesses meses ajudam a orientar o desenvolvimento cerebral e que algumas delas podem atenuar riscos que, à nascença, pareciam inamovíveis.

Uma conversa escondida

Há muito que os cientistas reconhecem que cérebro e intestino comunicam entre si, mas o que acontece nos primeiros anos dessa troca permaneceu pouco claro. Uma equipa liderada pela gastroenterologista Siew Chien Ng, da Universidade Chinesa de Hong Kong (CUHK), quis perceber melhor essa “conversa” desde o início.

O foco incidiu em dois sistemas que raramente são analisados em conjunto. Por um lado, o microbioma intestinal - a comunidade dinâmica de bactérias que se instala após o nascimento. Por outro, um conjunto de marcas químicas no ADN do bebé, como se fossem interruptores que aumentam ou reduzem a actividade dos genes.

Cada um destes factores já tinha sido associado, separadamente, à saúde a longo prazo. O que ainda não estava mapeado era a forma como interagem nos primeiros meses de vida e se esse vaivém pode empurrar a criança para trajectórias associadas a problemas como o autismo ou dificuldades de atenção.

Acompanhar o primeiro ano

Para investigar, a equipa recolheu sangue do cordão umbilical de 571 recém-nascidos e analisou, ao longo do ADN, essas marcas químicas. Depois, monitorizou as bactérias do intestino de cada bebé, com amostras recolhidas aos 2, 6 e 12 meses.

Os pais também contribuíram com amostras durante o terceiro trimestre da gravidez, abrangendo quase mil famílias. Quando as crianças fizeram três anos, os pais preencheram um questionário comportamental concebido para detectar sinais precoces de autismo e de problemas de atenção.

Trabalhos em animais e estudos anteriores já tinham sugerido que microrganismos intestinais podem influenciar um cérebro em desenvolvimento. No entanto, grande parte dessa evidência vinha de amostras pequenas. Seguir toda a cadeia de acontecimentos - do nascimento aos três anos - com este número de famílias era algo que ainda não tinha sido feito.

O que orienta o intestino

Factores do quotidiano mostraram-se determinantes para definir que micróbios “pegavam”. O modo de parto, se o bebé foi amamentado, se tomou antibióticos cedo, se havia irmãos mais velhos em casa - tudo isto deixou sinais na comunidade bacteriana em formação.

As marcas químicas presentes à nascença pareciam responder a um conjunto de influências em parte diferente. O tipo de parto, a duração da gravidez, a existência de irmãos mais velhos e as alergias maternas deixaram padrões próprios.

De forma inesperada, as bactérias intestinais dos próprios pais não deixaram uma impressão nítida nessas marcas de nascimento. Ainda assim, as marcas pareciam condicionar o que vinha a seguir: ajudavam a determinar que micróbios prosperavam no intestino do bebé ao longo do primeiro ano.

Uma impressão digital da cesariana

O próprio nascimento foi uma das fontes de sinal mais claras. Bebés nascidos por cesariana apresentavam marcas químicas distintas em genes ligados à defesa imunitária e ao desenvolvimento cerebral, diferenciando-os dos bebés nascidos por via vaginal.

A cesariana também altera os micróbios que um recém-nascido adquire. Parte importante da passagem habitual associada ao parto vaginal simplesmente não acontece. E esse “vazio”, segundo investigação anterior, pode manter-se. Neste contexto, os micróbios do pai pareciam suprir uma parte dessa lacuna.

As marcas não se limitaram a reflectir a forma como o bebé nasceu. As crianças com maior marcação em genes ligados ao sistema imunitário - os que ajudam o organismo a identificar invasores - tendiam a apresentar uma diversidade mais reduzida de bactérias intestinais ao completar o primeiro ano.

Bactérias que contrariam o risco

Aos três anos, algumas marcas de nascimento alinhavam-se com o comportamento. Crianças com maior marcação em genes envolvidos na construção e ligação do cérebro obtiveram pontuações mais elevadas em indicadores precoces de autismo e de TDAH (ADHD), um efeito que parecia ocorrer, em parte, através do intestino.

Foi aqui que surgiu o resultado mais marcante. Entre as crianças cujas marcas apontavam para um risco mais elevado de autismo, aquelas que adquiriram, durante a infância, um micróbio intestinal chamado Lachnospira pectinoschiza tinham menor probabilidade de mostrar sinais aos três anos.

Uma segunda espécie, Parabacteroides distasonis, pareceu desempenhar um papel semelhante no caso de problemas de atenção. Em crianças com marcas associadas a um risco mais alto de TDAH (ADHD), a presença desta bactéria instalada no primeiro ano esteve ligada a menor probabilidade de manifestar esses sinais.

Até agora, não tinha sido demonstrado este tipo de “efeito de compensação” em crianças saudáveis acompanhadas desde o nascimento. As bactérias não apagaram o ponto de partida biológico. Ainda assim, pareciam suavizar o caminho. Um risco que parecia fixo revelou-se, de repente, mais negociável.

“Os alicerces da saúde cerebral são estabelecidos muito cedo, até antes do nascimento”, afirmou Hein Min Tun, investigador de saúde pública na universidade e co-autor sénior. Descreveu o fenómeno como um diálogo entre a biologia do bebé e os seus micróbios.

Intestinos, cérebros e bebés

A principal mensagem do estudo é que o desenvolvimento do cérebro não fica totalmente determinado à nascença. As marcas genéticas iniciais podem aumentar ou reduzir probabilidades, mas os micróbios que chegam depois também conseguem inclinar o desfecho.

Apesar disso, ainda serão necessários estudos laboratoriais, já que, por enquanto, a equipa identificou associações - não uma prova definitiva de que os microrganismos conduzem, de facto, mudanças no cérebro. Os autores tratam estes achados como uma peça pequena dentro de um puzzle muito maior.

Mesmo assim, a possibilidade prática é clara. Se certas bactérias benéficas conseguirem amortecer um risco com que a criança já nasce, poderá chegar o dia em que os médicos apoiem o intestino do bebé com probióticos específicos ou alimentos escolhidos, e uma revisão mais ampla aponta na mesma direcção. A equipa já está a continuar a acompanhar estas mesmas crianças, para observar como esta história evolui.

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