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Pai aos 50, por Joel Neto: Quando o filho quer a mamã

Pai sentado no chão de uma sala a brincar com filho e filha em ambiente familiar e descontraído.

"Pai aos 50", a crónica semanal de Joel Neto

Durante uma fase, para o Artur, o pai era tudo: Sol, Lua e constelações incluídas. O resto, pouco importava - bastava eu estar por perto para parecer impossível existir tristeza no mundo.

Quando eu era o Sol, a Lua e as estrelas para o Artur

E esse pai era eu, para meu enorme contentamento. Era eu quem o despertava e o adormecia. Era eu quem o levava à escola e o ia buscar. Era eu quem ficava internado com ele. E, quando por alguma razão não era, ele fazia questão de dizer que preferia que fosse - com aquela crueldade inocente que continua a ser a melhor definição de Deus que conheço.

A Marta podia, por momentos, ficar um pouco magoada, mas logo a seguir voltava a perguntar, na mesma:

  • Quem vai dar banho ao Artur?

E ele, num pequeno teatro encantador, apontava para mim com culpa fingida, de olhos enormes e luminosos:

  • O papá.

Ela fazia-o por mim, claro. É a mulher que tenho (deixem-me gabar-me disso): sente-se feliz por me ver feliz, sobretudo quando me vê a ser pai. O Artur, porém, fazia-o por ele próprio. Foi menino do papá desde o primeiro dia. Não sei o que isso diz sobre mim enquanto educador - ainda por cima sabendo eu, tão bem, que a Marta também nisso é melhor (muito melhor). Mas também não posso afirmar que o tenha impedido.

Às vezes lembrava-me daqueles filhos já crescidos, ainda rendidos à admiração do pai - um pai entretanto morto - e eles, com a vida por inaugurar, quase satisfeitos por permanecerem na sombra de um modelo inalcançável. Pensava: são os piores pais, egocêntricos e conservadores; arrepiava-me só de imaginar. E tinha de me recordar de que não existem apenas diferentes géneros de paternidade: existe também diferente competência na maneira de exercer cada um deles.

Depois do nascimento da Salomé: "Quero a mamã"

Mas hoje o meu filho acordou e disse:

  • Quero a mamã.

Tentei insistir:

  • A mamã está a descansar. A Salomé ainda pede maminha durante a noite.

E ele respondeu:

  • Mas eu quero.

Temos tentado trabalhar isto: "mas eu quero", tal como "mas eu não quero", não é argumento. A verdade, porém, é que desde que a Salomé nasceu deixei de ser, para o Artur, o Sol, a Lua e as estrelas. Uma grande parte do seu ânimo foi sendo reprogramada para disputar a atenção da mãe.

Ele nunca transformou a irmã no alvo do problema: passa o dia inteiro a cobri-la de beijos. Mas, durante a noite, muda-se para a nossa cama. Quer que seja a mamã a ir buscá-lo à escola - "mais cedo", sublinha. E, de manhã, ao abrir os olhos, a primeira frase que diz é:

  • Quero a mamã.

Fases da infância e pequenas provas de felicidade

Por isso, sim: há diferentes géneros de paternidade e há diferentes graus de competência na aplicação de cada um deles. Mas há também, na infância, uma sequência vertiginosa de etapas, uma a seguir à outra. E, apesar de tudo, está tudo bem, porque o que importa é a realização deles.

A felicidade, já agora, foram os beijinhos que ele ainda agora veio aqui dar-me, em silêncio e sem motivo, enquanto eu lutava com este texto.


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