As taxas de fertilidade masculina têm vindo a cair a pique ao longo do último meio século. Uma análise de 1992 já descrevia uma diminuição consistente da contagem e da qualidade do esperma desde a década de 1940. Um estudo mais recente concluiu que as taxas de infertilidade masculina aumentaram quase 80% entre 1990 e 2019.
As causas por trás desta tendência continuam por esclarecer, embora a culpa seja muitas vezes atribuída à obesidade, a uma alimentação pouco saudável e a toxinas ambientais.
Doenças infecciosas, como a gonorreia ou a clamídia, são frequentemente desvalorizadas enquanto fatores que interferem com a fertilidade nos homens. No entanto, o conjunto de evidências tem vindo a crescer no sentido de que um parasita unicelular muito comum, o Toxoplasma gondii, também pode ter um papel: um estudo de abril de 2025 mostrou, pela primeira vez, que "os espermatozoides humanos perdem a cabeça ao contacto direto" com o parasita.
Sou microbiologista e o meu laboratório estuda o Toxoplasma. Este novo trabalho reforça resultados emergentes que salientam a importância de prevenir esta infeção parasitária.
As muitas formas de contrair toxoplasmose
Gatos infetados eliminam ovos de Toxoplasma nas fezes, que acabam na caixa de areia, no jardim ou noutros locais do ambiente, onde podem ser apanhados por pessoas ou por outros animais. A água, o marisco e frutas e legumes não lavados também podem transportar ovos infeciosos do parasita.
Para além dos ovos, quistos nos tecidos presentes na carne de animais de sangue quente também conseguem transmitir toxoplasmose se não forem destruídos ao cozinhar a temperaturas adequadas.
Embora a maioria dos hospedeiros consiga controlar a infeção inicial com poucos sintomas - ou até sem sintomas -, o Toxoplasma permanece no organismo para toda a vida sob a forma de quistos dormentes no cérebro, no coração e no tecido muscular. Estes quistos podem reativar-se e provocar novos episódios de doença grave, danificando sistemas de órgãos essenciais.
Entre 30% e 50% da população mundial está permanentemente infetada com Toxoplasma, precisamente devido às múltiplas vias de transmissão do parasita.
O Toxoplasma pode atingir os órgãos reprodutores masculinos
Depois de ocorrer a infeção, o Toxoplasma dissemina-se para praticamente todos os órgãos e para o músculo esquelético. A indicação de que o Toxoplasma também poderia atingir órgãos reprodutores masculinos humanos surgiu pela primeira vez no auge da pandemia de SIDA, na década de 1980, quando alguns doentes apresentaram a infeção parasitária nos testículos.
Embora os doentes imunocomprometidos sejam os que correm maior risco de toxoplasmose testicular, esta também pode surgir em pessoas que, de resto, são saudáveis. Estudos de imagiologia em ratos infetados confirmam que, em poucos dias após a infeção, os parasitas se deslocam rapidamente para os testículos, além de atingirem o cérebro e os olhos.
Em 2017, eu e colegas verificámos que o Toxoplasma também consegue formar quistos na próstata de ratos. Investigadores observaram ainda estes parasitas no ejaculado de vários animais, incluindo no sémen humano, o que levanta a possibilidade de transmissão sexual.
O facto de se saber que o Toxoplasma pode alojar-se em órgãos reprodutores masculinos levou à análise da fertilidade em homens infetados. Um pequeno estudo de 2021, em Praga, com 163 homens infetados com Toxoplasma, concluiu que mais de 86% apresentavam anomalias no sémen.
Um estudo de 2002, na China, apurou que casais inférteis têm maior probabilidade de ter infeção por Toxoplasma do que casais férteis - 34.83% versus 12.11%. Outro estudo, em 2005, também na China, constatou que homens estéreis testam positivo para Toxoplasma com maior frequência do que homens férteis.
Ainda assim, nem todos os estudos encontram uma associação entre toxoplasmose e qualidade do esperma.
O Toxoplasma pode danificar diretamente os espermatozoides humanos
A toxoplasmose em animais reproduz, em grande medida, o que acontece na infeção em humanos, permitindo aos investigadores abordar questões que não são fáceis de estudar diretamente em pessoas.
Em ratos, ratazanas e carneiros infetados com Toxoplasma, a função testicular e a produção de espermatozoides diminuem de forma acentuada. Em ratos infetados, a contagem de espermatozoides é significativamente mais baixa e existe uma maior proporção de espermatozoides com formas anormais.
No estudo de abril de 2025, investigadores da Alemanha, Uruguai e Chile observaram que o Toxoplasma consegue chegar aos testículos e ao epidídimo - o canal onde os espermatozoides amadurecem e ficam armazenados - dois dias após a infeção em ratos. Este resultado levou a equipa a testar, num tubo de ensaio, o que sucede quando o parasita entra em contacto direto com espermatozoides humanos.
Após apenas cinco minutos de exposição ao parasita, 22.4% das células espermáticas ficaram decapitadas. A proporção de espermatozoides sem cabeça aumentou quanto mais tempo interagiram com os parasitas. Os espermatozoides que mantinham a cabeça apareciam frequentemente torcidos e deformados. Alguns apresentavam orifícios na cabeça, o que sugere que os parasitas estariam a tentar invadi-los tal como invadem outros tipos de células nos órgãos que infiltram.
Para além do contacto direto, o Toxoplasma poderá também prejudicar o esperma por promover inflamação crónica. Condições inflamatórias no trato reprodutor masculino são prejudiciais para a produção e para a função dos espermatozoides.
Os investigadores especulam que os efeitos nocivos que o Toxoplasma pode ter sobre o esperma poderão estar a contribuir para grandes declínios globais da fertilidade masculina nas últimas décadas.
Prevenir a toxoplasmose
As evidências de que o Toxoplasma pode infiltrar órgãos reprodutores masculinos em animais são fortes, mas ainda não é claro se isso se traduz em problemas de saúde nas pessoas. A toxoplasmose testicular demonstra que os parasitas conseguem invadir testículos humanos, mas a doença sintomática é muito rara. Os estudos realizados até agora que apontam defeitos no esperma de homens infetados são demasiado pequenos para permitir conclusões firmes neste momento.
Além disso, alguns relatos sugerem que, em países de elevado rendimento, as taxas de toxoplasmose não têm aumentado nas últimas décadas, enquanto a infertilidade masculina subia - pelo que é provável que este seja apenas um elemento de um problema mais amplo.
Independentemente do potencial impacto deste parasita na fertilidade, faz sentido evitar o Toxoplasma. Uma infeção adquirida pela primeira vez durante a gravidez pode provocar aborto espontâneo ou malformações congénitas, e pode ser fatal em pessoas imunocomprometidas. Nos Estados Unidos, o Toxoplasma é também a principal causa de morte por doença transmitida por alimentos.
Cuidar adequadamente do seu gato, limpar a caixa de areia sem demora e lavar bem as mãos a seguir pode ajudar a reduzir a exposição ao Toxoplasma. Também é possível proteger-se ao lavar frutas e legumes, cozinhar a carne a temperaturas adequadas antes de a consumir e evitar marisco cru, água não tratada e leite cru.
Bill Sullivan, Professor de Microbiologia e Imunologia, Universidade de Indiana
Este artigo é republicado de The Conversation ao abrigo de uma licença Creative Commons. Leia o artigo original.
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