Quando as cidades monitorizam o calor, o que costuma aparecer nos relatórios é uma média. Para quantificar os espaços verdes, os decisores somam os hectares. E, para medir a prosperidade, os economistas olham para a área metropolitana como um todo.
Esses indicadores descrevem algo real, mas também escondem a desigualdade térmica urbana e o acesso desigual que tendem a agravar-se à medida que a cidade cresce.
Uma nova análise por satélite de mais de 11.000 cidades concluiu que as médias camuflam um padrão - regido por uma regra matemática precisa - que nunca tinha sido cartografado nesta escala.
A armadilha das cidades maiores
Para perceber como a “matemática” das grandes cidades funciona por dentro, o Dr. Conghong Huang, da Nanjing Agricultural University (NAU), e colegas reuniram dados de satélite de mais de 11.000 cidades em todo o mundo.
A pergunta era simples: à medida que a população aumenta, os quarteirões mais quentes e os mais arborizados aproximam-se do resto da cidade ou afastam-se ainda mais?
O resultado surpreendeu até quem estuda sistemas urbanos profissionalmente. Sempre que uma cidade duplicava a população, a distância entre os bairros mais expostos e os mais protegidos aumentava cerca de 8% a 9%.
E não se tratava de um fenómeno isolado: a mesma lógica apareceu, em simultâneo, em três recursos distintos.
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Em cada um dos mais de 11.000 centros urbanos, a equipa atribuiu valores a todos os bairros. Imagens térmicas, dados de luz nocturna e mapas de vegetação foram obtidos a partir de sistemas públicos de satélite.
Para tornar as comparações entre cidades justas, recorreu-se ao coeficiente de Gini - a mesma escala de zero a um que os economistas usam há um século para medir quão desigual é uma distribuição.
Cada cidade ficou com três valores de Gini: um para o calor, outro para o espaço verde e outro para a actividade económica. Quando esses valores foram colocados num gráfico em função da população, os pontos alinharam-se numa linha recta nítida.
Um padrão previsível
Essa linha recta corresponde ao que os físicos designam por lei de escala. A mesma regra liga o tamanho de uma cidade à desigualdade, quer se observe uma cidade de 100.000 habitantes, quer uma megacidade de 20 milhões.
As cidades pequenas posicionam-se mais abaixo na curva. As grandes surgem mais acima - de forma previsível.
Trabalhos anteriores já tinham mostrado que riqueza, patentes e criminalidade crescem mais depressa do que a população: as cidades maiores “valem mais do que o seu peso” nesses indicadores.
O que faltava demonstrar, até este estudo, era que a desigualdade interna obedece à mesma regra, com a mesma precisão, ao longo de milhares de cidades em todos os continentes habitados.
Desigualdade térmica urbana
A relação mais marcada foi a do calor. As zonas mais quentes tendem a concentrar-se junto de asfalto, baixa cobertura arbórea e conjuntos densos de telhados baixos.
Nas cidades maiores, esses bolsões de calor ficaram ainda mais distantes dos quarteirões mais frescos e mais verdes - uma diferença térmica maior, registada a partir da órbita.
As cidades áridas apresentaram os contrastes mais acentuados. Em clima quente e seco, a ausência de uma árvore ou um parque de estacionamento sem sombra pode fazer com que um quarteirão fique vários graus Fahrenheit (alguns graus Celsius) acima do quarteirão ao lado.
Estudos anteriores, centrados nos EUA, já tinham assinalado este padrão em cidades específicas. Esta análise mostra-o a escalar globalmente, seguindo a mesma curva.
Onde o verde termina
O espaço verde contou a segunda história. Com o crescimento urbano, parques, árvores de rua e jardins não se distribuíram de forma uniforme; em vez disso, concentraram-se em bairros mais abastados. Os quarteirões mais densos e mais pobres foram os primeiros a perdê-los.
Os ecólogos descrevem este fenómeno como o efeito de luxo - a tendência para bairros mais ricos sustentarem mais vegetação. À medida que o valor do solo sobe e a densidade aumenta, a cobertura verde recua para as zonas que conseguem suportar o custo de a manter.
Nos países de baixo rendimento, esse “aglomerar” foi ainda mais forte. Duplicar a população de uma cidade num país pobre gerou um salto de desigualdade mais acentuado do que a mesma duplicação numa cidade de um país rico.
O dinheiro concentra-se mais
A intensidade das luzes nocturnas - frequentemente usada como indicador indirecto de actividade económica - exibiu o mesmo padrão.
As cidades maiores concentraram as áreas iluminadas: escritórios, centros comerciais e corredores de comércio muito movimentados, deixando mais escuridão nas periferias.
Mais uma vez, a concentração foi mais intensa nas nações de baixo rendimento.
As três desigualdades avançaram em conjunto. Um quarteirão sem árvores tendia também a ser mais quente e mais pobre. Já os quarteirões vizinhos com melhores condições mantinham-se mais frescos e mais verdes. O resultado foi uma desvantagem acumulada, visível do espaço.
O que os urbanistas enfrentam
Em muitos países, a política urbana tem assentado numa suposição optimista: quando uma cidade cresce e enriquece, as desigualdades internas deveriam atenuar-se por si. Os dados indicam o inverso. Elas agravam-se, de forma previsível, a um ritmo conhecido.
Isto retira uma desculpa e cria um objectivo. Um técnico de planeamento em Lagos, Phoenix ou Dhaka passa a ter uma referência - a curva global - para comparar a sua cidade.
Equipas de saúde pública podem cruzar os quarteirões mais quentes com os que têm menor cobertura arbórea antes da próxima onda de calor. E os investimentos em parques podem ser orientados para onde a evidência indica maior impacto - e não apenas para onde é mais fácil construir.
Um novo plano urbano
A novidade está na dimensão do retrato. A regra dos 8% a 9% manteve-se entre climas e continentes, das nações mais pobres às mais ricas.
A desigualdade dentro das cidades não é apenas um efeito secundário de má gestão em alguns locais azarados. Está embutida no modo como o crescimento urbano funciona - a menos que algo deliberado intervenha.
Huang e a equipa terminam com uma ideia directa: cidades mais equitativas não surgem por acaso. Têm de ser construídas assim, de propósito, contra a curva.
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