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Modelos climáticos tornam mais previsível a subida do nível do mar vinda da Antártida até meados do século

Homem a analisar mapa e gráficos holográficos numa sala com vista para a cidade e o mar ao entardecer.

A subida do nível do mar influencia tudo, desde paredões e barreiras costeiras até mapas de inundação e, em última instância, a decisão sobre onde comunidades inteiras poderão um dia ter de se deslocar.

Ainda assim, uma parte essencial desta equação tem sido teimosamente difícil de antecipar: até que ponto o derretimento do gelo na Antártida fará subir os oceanos.

Agora, investigadores concluíram que as próximas décadas são muito mais previsíveis do que o final do século.

Para chegar a esta conclusão, a equipa comparou modelos climáticos com a perda de gelo que a Antártida está efectivamente a registar hoje. Esse confronto revelou uma janela robusta que pode dar muito mais segurança a quem planeia e decide, ao estimar a subida do nível do mar que enfrentará até meados do século.

Testar a perda de gelo actual

O estudo foi conduzido por uma equipa liderada pela Dra. Felicity McCormack, glaciologista na Monash University, na Austrália. O grupo procurou clarificar uma questão que se mantinha persistente e imprecisa.

O objectivo era obter um valor em que se pudesse confiar para a contribuição do gelo antártico para o nível do mar ao longo dos próximos 30 a 50 anos. A resposta acabou por depender de uma verificação directa do desempenho dos próprios modelos.

Em termos práticos, quando um modelo consegue reproduzir a perda de gelo que a Antártida evidencia em 2025, torna-se possível usar esse mesmo modelo para projectar, de forma fiável, a contribuição para a subida do nível do mar nas décadas seguintes.

“Prever com rigor quanto e com que rapidez os níveis globais do mar irão subir oferece informação vital para o planeamento costeiro futuro e para as políticas públicas”, afirmou McCormack.

Surge uma imagem mais nítida

Já se sabia que a Antártida está a perder gelo e existiam estimativas gerais sobre onde o cenário poderia estar em 2100.

O problema estava no curto e médio prazo. Antes deste trabalho, faltava uma estimativa sólida para as perdas de gelo antártico nas próximas décadas.

E é precisamente esse período que mais pesa nas decisões do mundo real. As cidades definem onde e quanto elevar defesas costeiras, enquanto países de baixa altitude ponderam se terão de relocalizar comunidades, com base no que esses anos provavelmente trarão.

A nova análise usa as medições actuais como âncora. O procedimento é simples: introduz-se num modelo a perda de gelo observada hoje, verifica-se se o modelo a reproduz correctamente e, se o fizer, a sua projecção para o futuro próximo passa a merecer uma confiança substancial.

Em contraste, trabalhos anteriores apoiavam-se mais em projecções longínquas, onde as estimativas variam muito de modelo para modelo.

Porque é que o padrão funciona

A força desta conclusão está na sua abrangência.

A equipa aplicou o teste a um grande conjunto de modelos de mantos de gelo, incluindo projecções mais conservadoras e também cenários mais sombrios, de baixa probabilidade, mas suficientemente graves para manter os responsáveis pelo planeamento em alerta.

Cada modelo parte de pressupostos distintos sobre a física subjacente.

Usam equações e condições iniciais próprias e, além disso, cada um trata à sua maneira a zona complexa de transição onde o gelo encontra o oceano.

Apesar dessas diferenças, o padrão manteve-se: uma boa correspondência com as perdas actuais continuou a significar uma previsão consistente até meados do século. Isso sugere que a relação reflecte características do próprio sistema de gelo, e não uma particularidade de um modelo específico.

Onde o gelo se torna imprevisível

Esta confiança, porém, tem prazo e é um prazo claro. À medida que se aproxima o final do século, a ligação estável entre o que se observa hoje e o que acontece amanhã começa a desfazer-se, porque processos lentos - mas capazes de acelerar subitamente a perda de gelo - tornam-se mais prováveis.

Um desses mecanismos envolve gelo assente sobre rocha-mãe abaixo do nível do mar. Nestas zonas, o terreno tende muitas vezes a inclinar-se para baixo em direcção ao interior; assim, quando a margem do gelo recua, pode continuar a retirar-se por si só, impulsionando perdas muito superiores àquelas que as tendências de curto prazo fariam supor.

A infiltração de água oceânica mais quente por baixo do gelo pode empurrar um glaciar para este tipo de declínio, e um estudo recente mapeou como um limiar deste género pode estabelecer-se.

Nas próximas décadas, estes processos quase não se fazem sentir. Já mais perto do fim do século, passam a dominar.

O cenário mais extremo

Por trás destas conclusões há números difíceis de ignorar. O painel climático mundial afirmou que uma subida superior a 2 metros até 2100 não pode ser excluída se as emissões se mantiverem elevadas e se o Manto de Gelo da Antártida colapsar em grande escala.

Uma subida desta dimensão teria efeitos profundos no quotidiano: colocaria um quarto das casas da Austrália em risco de inundação, submergiria territórios insulares por todo o Pacífico e afastaria centenas de milhões de pessoas das zonas costeiras.

No cenário mais severo, o mesmo painel avisou que o ritmo de subida do nível do mar devido apenas ao degelo antártico poderia quase duplicar em 30 anos. É esse tipo de aceleração que estas conclusões procuram ajudar a antecipar.

Construir antes de a água subir

O reverso da incerteza a longo prazo é que existe uma margem de tempo útil. As previsões do nível do mar para as próximas três décadas são invulgarmente firmes e coincidem com a janela em que a adaptação tem de ser desenhada - agora, e não mais tarde.

Steven Chown, professor que dirige o programa de investigação que suporta o estudo, interpreta esta previsibilidade como um argumento para avançar já.

O facto de ser mais previsível não reduz o risco no horizonte mais distante. Contudo, dá aos governos uma janela definida para actuar com confiança.

Para os países do Pacífico, em particular, estes números de curto prazo são essenciais para ponderar relocalizações e investimentos em infra-estruturas.

Isso altera também o tipo de exigência que os técnicos podem colocar: as autoridades costeiras podem apoiar-se em projecções de curto prazo provenientes de modelos que foram validados com a perda de gelo observada no mundo real.

Dois futuros para a Antártida

O que este campo de investigação ganhou foi uma linha de separação que antes não existia. A contribuição da Antártida para a subida do nível do mar passa agora a organizar-se em dois capítulos distintos.

Os modelos actuais conseguem prever com confiança as mudanças no curto e médio prazo. Já a fase posterior, moldada por processos de perda de gelo descontrolada, continua envolta em grande incerteza.

A perspectiva para o final do século torna-se, assim, um desafio à parte. Medições mais precisas e melhor modelação desses processos de aceleração poderiam reduzir a incerteza que ainda permanece.

Trabalhos relacionados também sugerem que o futuro mais distante poderá vir a ser mais delimitado do que hoje parece.

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