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Tempestade Kristin: cinco meses depois, árvores caídas e mato mantêm-se nos meios rurais

Homem com roupa de trabalho na estrada bloqueada por uma árvore caída e motosserra no chão.

Árvores tombadas e vegetação densa continuam visíveis em várias zonas do interior, cinco meses depois da passagem da tempestade Kristin.

Tempestade Kristin: cinco meses depois, limpeza ainda por concluir

Na madrugada de 28 de janeiro, a tempestade Kristin deixou um rasto de destruição em vários pontos do país. Em muitos locais, persistem árvores caídas e mato acumulado, o que agrava o risco de incêndio. Esta terça-feira, 30 de junho, marca o prazo limite para terminar as limpezas nos 90 concelhos onde foi decretada calamidade pública.

Indignação na Cumieira (Espite, Ourém)

"Não há dinheiro para recuperar as casas, quanto mais para limpar os terrenos". A frase de Cecília Pereira, de 39 anos, traduz o descontentamento da ex-bombeira natural de Espite, em Ourém, que foi visitar o pai. Até partir uma perna, há nove meses, ele tratava do quintal, mas a lesão deixou-o sem capacidade para manter o terreno em condições.

A aldeia da Cumieira, na freguesia de Espite, é apresentada como um exemplo de território duramente atingido pela tempestade, onde continuam a ver-se muitas árvores no chão e mato por retirar.

"A Cumieira foi uma zona muito afetada pela tempestade. Nem todos têm seguros e os ordenados e as reformas são baixos", explica Cecília Pereira, que vive na Caranguejeira, no concelho de Leiria. "O Estado disse que ia dar dez mil euros a cada pessoa, mas algumas receberam quatro mil, outras dois mil e houve quem não recebesse nada. Como é que se consegue reconstruir as casas e limpar os terrenos?", questiona. Acrescenta ainda: "São precisos mais de mil euros para pagar o telhado da casa do meu pai, que tem mais de 20 terrenos baldios".

Com muitos emigrantes e uma população envelhecida - apesar da existência de alguns casais mais novos -, Cecília recorda o incêndio de 2022 na Cumieira: "ardeu tudo". E descreve a urgência com que o fogo pode chegar: "Quando ele vem, temos de o segurar e salvar as casas". "O problema é que vem com cada vez mais intensidade", lamenta. "Nesse ano, o fogo chegou cá em cinco minutos, mas o quintal não ardeu. Se o meu pai tivesse saúde, continuava a ser cuidado", sublinha, explicando que nenhum dos filhos consegue ajudar. "O problema maior é a rega".

Mão do diabo

"É claro que temos medo do fogo, mas não há meios para o evitar", garante Cecília Pereira. Na sua leitura, "É a mão do diabo que o ateia, ajudada pelos ventos, pelas temperaturas, pelo clima e pela tempestade", numa crítica que inclui o que considera serem diferentes exigências para cidadãos e entidades públicas. "Os proprietários dos terrenos têm de os limpar, mas o Estado não limpa os dele nem as juntas de freguesia as bermas", acusa.

Terrenos vizinhos por limpar e soluções improvisadas

Perto da casa do pai de Cecília vive Gustavo Bento, de 75 anos. Diz ter feito o que a lei obriga, mas mostra preocupação porque, a cerca de 50 metros da sua habitação, existem terrenos com eucaliptos derrubados pela tempestade (desde janeiro) e com mato por cortar (desde 2022). Esses espaços pertencem a dois irmãos emigrantes em França, que nem sempre regressam a Portugal durante o verão. Apesar de já ter alertado a junta de freguesia, Gustavo considera que, se houver novo incêndio este ano, conseguirá proteger-se recorrendo a uma mangueira.

"Tenho uma bomba para puxar a água e, se ficar sem luz, tenho um motor a gasolina", explica. E aponta ainda outro terreno, com "nove mil e tal metros", que estava bem limpo em 2022, mas onde, contrariando o que ouviu, "arderam oito sobreiros e, este ano, foram derrubados pelo vento" - uma situação que documenta no telemóvel. "Já estão cortados. Estou só à espera de que o tratorista vá buscar a lenha. Metade vai para a lareira do meu rapaz e a outra metade fica para nós".

Em Albergaria dos Doze, no concelho de Pombal, João Henriques da Silva, de 80 anos, está também à espera que lhe voltem a limpar o terreno em frente à casa - pela segunda vez - e o de uma vizinha. Face ao aumento do risco de incêndio, revela inquietação com a falta de limpeza nas bermas, com cabos elétricos pendurados sobre a estrada e com uma casa nas traseiras da sua, devoluta há mais de 20 anos, pertencente a emigrantes no Canadá e em França. "Se pega ali fogo, a minha casa fica desgraçada".


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