Os lugares-comuns podem denunciar falta de imaginação de quem os repete, mas convém lembrar que só viraram chavões porque, muitas vezes, acertam no alvo. Não vale a pena ter pudor em usá-los. É por isso que regressamos à metáfora do automobilista que segue na autoestrada, convencido de que vai bem, e se irrita ao ver “toda a gente” a circular em contramão.
Quando a teimosia parece virtude (e afinal não é)
Todos já passámos por situações em que perdemos a paciência com alguém que, mesmo com as melhores intenções, insiste em escolhas danosas e despreza os avisos que lhe fazem. E aqui cabe outro cliché: de bem-intencionados está o inferno cheio - até porque a teimosia tende a turvar o juízo. Em suma, remar contra a maré nem sempre é um gesto nobre de resistência; pode ser apenas a prova de uma alienação obstinada. Conduzir na faixa errada é coisa que D. Quixote faria, com a mesma fúria com que investia contra moinhos de vento.
Futebol: Roberto Martínez e Cristiano Ronaldo - quem segue fora de mão?
Trazendo a conversa do abstracto para aquilo que nos junta (e nos separa), o futebol, fica a dúvida: quem é que está a ir no sentido errado, Roberto Martínez ou Cristiano Ronaldo? Ou estarão ambos em contramão, embalados por “notícias das arábias”, onde os valores morais perdem terreno para os valores pecuniários? Enfim, essa ideia de conspiração tanto serve para explicar quase tudo como acaba por não explicar nada.
Depois do jogo entre Portugal e a República Democrática do Congo, a minha limitada capacidade de análise fica reduzida ao que o jornal britânico "The Independent" conseguiu resumir com precisão, apontando ao melhor futebolista português de sempre: "Dez homens e uma estátua".
O peso do capitão e a margem do treinador
Há momentos em que parece ser o jogador a mandar, e não o treinador; e, se assim for, é possível que o seleccionador não disponha da autoridade que Fernando Santos teve, há quatro anos, quando colocou o capitão no banco. O essencial, até prova em contrário, é vermos o próprio Cristiano Ronaldo resistir a uma decisão séria: aceitar que ainda pode ser útil à selecção, mas não como se tivesse 30 anos - como titular indiscutível, a cumprir 90 minutos.
Talvez continue a avançar em sentido contrário sem se dar conta, porque, para ele, é ele quem define o sentido das coisas. Tem recordes, tem um aeroporto com o seu nome, tem o dinheiro deste mundo e do outro, tem uma casa nova tão grande que quase deixa de parecer uma casa. Estará sempre do lado certo; quem o critica será, na narrativa, invejoso ou ingrato.
Dele não cantará Chico Buarque: "Morreu na contramão atrapalhando o tráfego".
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