Alunos do Ensino Profissional estão a ficar “por sua conta” no que toca a aprender a lidar com dinheiro, graças ao trabalho desenvolvido pela Fundação António Cupertino de Miranda, no Porto.
Chamado “Por tua conta”, o projeto da Fundação António Cupertino de Miranda, no Porto, dá ferramentas a estudantes do Ensino Profissional para organizarem as suas finanças e compreenderem conceitos ligados à literacia financeira. A iniciativa nasceu há cinco anos e já envolveu 11 mil alunos.
Entre turmas de Auxiliar de Saúde e de Cozinha e Pastelaria, as especialidades podem não ter nada em comum, mas o futuro próximo é semelhante: a entrada no mercado de trabalho e um salário mensal. A dúvida é a mesma para todos: como gerir o dinheiro que entra na conta? É precisamente isso que o programa de literacia financeira “Por tua conta” procura ensinar.
“Comecei a pôr, por exemplo, aquilo que gasto numa tabela no Excel. E, por acaso, tem ajudado muito. Já consigo perceber onde é que gastava mais e menos dinheiro”, conta Francisca Sousa, aluna do 12.º ano da Escola Leonardo Coimbra Filho, no Porto. O exemplo ilustra competências que os alunos vão adquirindo com o projeto que a Fundação António Cupertino de Miranda lançou há cinco anos.
Apesar de estar hoje orientado para o Ensino Profissional, o percurso desta aposta começou há cerca de 16 anos, através do programa “No poupar é que está o ganho”, pensado para estudantes do ensino regular.
“Os alunos do Ensino Profissional são, normalmente, alunos que preferem uma abordagem mais prática e muitos deles querem entrar no mercado de trabalho o mais cedo possível. Por isso, achámos que fazia sentido um programa que fosse construído com uma metodologia mais prática e em que partíssemos de situações do dia a dia para uma abordagem dos conceitos teóricos”, explica Inês Cupertino de Miranda Abreu, administradora da Fundação António Cupertino de Miranda.
79 escolas
Na Escola Leonardo Coimbra Filho, no Porto, aprende-se a fazer contas e a pensar em poupança - mas não é caso único. Neste ano letivo, o projeto chegou a 79 escolas, distribuídas por 31 municípios de norte a sul do país, e atingiu mais de 3800 estudantes. Somando todas as edições desde o início, o programa já envolveu 11.300 alunos. Só no Porto, apoia mais de mil alunos em 18 escolas.
“Isto é bastante importante, acho que devia ser uma disciplina. Aqui aprendi, por exemplo, o que é o Imposto sobre o Rendimento de Pessoas Singulares (IRS), que nem sequer sabia o que significava. Também gostei muito de aprender o que dizer e o que não dizer numa entrevista de emprego”, afirma Gonçalo Santos, de 18 anos, que quer seguir Enfermagem.
Inês Cupertino de Miranda Abreu: "Percebemos que havia um défice enorme de literacia financeira, ou seja, as pessoas não tinham conhecimento sobre o dinheiro e não sabiam tomar boas decisões com o dinheiro que tinham"
Na escola, o tema é trabalhado numa aula da professora Rosa Silva, docente de Tecnologias da Informação e Comunicação. Ainda assim, o programa foi concebido para ser integrado em qualquer disciplina, recorrendo a filmes de animação, exercícios práticos e até a um “quiz online”.
“Quando estamos a ensinar esta parte de literacia financeira sente-se que há um maior interesse por ser uma coisa mais prática. Eles sentem-se mais descontraídos, por ser uma coisa extra, e acabamos por conseguir passar conteúdos da disciplina quase de forma implícita. E acaba por ser muito útil”, refere a professora.
Alcançar objetivos
Tiago Pereira já está a contactar com a realidade do trabalho e, com o que recebe no final do mês, começou a definir um plano para cumprir metas pessoais. “Quero comprar um carro e já comecei a meter algum dinheiro de parte”, diz. Aos 18 anos, admite que antes de começar a trabalhar “não tinha sequer noção do dinheiro” e que agora pondera melhor cada compra. “Agora custa”, remata.
Rosa Silva: "O próprio título do projeto é uma espécie de abanão: em breve vais estar por tua conta o que é que vais fazer? O nosso dever é alertá-los e prepará-los o melhor possível"
Segundo Inês Cupertino de Miranda Abreu, os efeitos notam-se nas escolhas e também dentro de casa. “Os alunos começam a querer poupar e a perceber que se tiverem um objetivo é possível atingi-lo, fazendo determinadas escolhas. Um outro impacto que para nós é muito gratificante é nas relações familiares: a partir do momento que eles começam a perceber que a família tem um orçamento, que há necessidade de primeiro pagarmos a água, a luz, a renda, os transportes... Percebem que só depois podemos ter algumas coisas que são supérfluas, mas que também nos dão prazer e que também são importantes”, descreve.
Diogo Rodrigues, de 17 anos, segue a mesma linha: já considera poupar para, um dia, ter casa própria ou comprar um carro. Sempre que recebe dinheiro, seja no Natal ou no aniversário, coloca uma parte numa conta poupança. A mãe influenciou esse hábito, mas, depois de conhecer estratégias apresentadas no programa, diz sentir-se mais motivado para gerir o que vai acumulando.
Saber mais
Museu
Todos os projetos dão aos alunos a hipótese de visitarem o Museu do Papel Moeda. A Fundação criou também a opção de visita online.
Formação
Os professores inscritos podem frequentar uma ação de formação acreditada, com capacitação digital para melhor utilização da plataforma educativa e com abordagem a todos os módulos programáticos do Referencial de Educação Financeira.
Preparar adultos para a reforma e as fraudes
Além do trabalho com alunos, a Fundação António Cupertino de Miranda dinamiza o programa “Eu e a minha reforma”, dirigido a pessoas mais velhas, com o objetivo de promover inclusão financeira e digital e de reforçar competências para aceder e utilizar serviços financeiros e digitais. A iniciativa apoia os adultos na preparação da reforma, na construção de um plano financeiro que ajude a poupar e na adoção de hábitos de precaução contra fraudes, entre outros exemplos. A implementação é feita através de parcerias com os municípios.
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