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Viver finalmente as 24 Horas de Le Mans

Carro de corrida branco e azul em exposição numa sala com capacetes nas prateleiras.

Um objetivo de adolescência: ver as 24 Horas de Le Mans ao vivo

Quando tinha 13 anos, ficava noites inteiras acordado para acompanhar as 24 Horas de Le Mans, com o receio de que, se adormecesse, pudesse perder o instante mais emocionante da corrida. Nessa altura - muito antes de sequer imaginar uma vida no jornalismo - ir a Le Mans e conhecer o circuito de La Sarthe já era um daqueles sonhos que queria “riscar da lista” o mais depressa possível.

O tempo foi passando e, como acontece a tantos planos, esta meta foi sendo empurrada para a frente. Ainda assim, porque mais vale tarde do que nunca, surgiu agora a (tão esperada) oportunidade de o concretizar.

Le Mans fora da pista: menos multidões, outra atmosfera

O ambiente à volta desta mítica prova de resistência francesa revelou-se muito diferente daquele que, na adolescência, eu conhecia através da Eurosport.

Tinha na memória os intermináveis quilómetros de autocaravanas vindas de toda a Europa, as festas de música electrónica que iam mantendo o público acordado durante as longas (e muitas vezes tranquilas…) horas da noite e, claro, as muitas dezenas de milhares de dinamarqueses que, por esses dias, faziam de Le Mans a sua casa. O motivo tem nome próprio: Tom Kristensen, celebrado por uma alcunha que diz tudo sobre o seu peso na história da prova, o “senhor Le Mans”.

Desta vez, com a lotação nas bancadas limitada a cerca de 50 mil espectadores por cada dia do fim de semana, o “recheio” era outro: menos gente, menos azáfama, menos tendas, menos caravanas e menos lojas dedicadas à memorabília automobilística.

Dentro do circuito: o mesmo nervo, a mesma emoção

O contraste estava sobretudo cá fora. No interior do circuito, a sensação era a de sempre: emoção, entrega e uma agitação que nos agarra desde o momento em que é dada a bandeirada de partida - com o famoso relógio Rolex a marcar as 16h00 de sábado (15h00 em Portugal continental) - até ao instante em que o vencedor cruza a linha.

A forma como vivi cada segundo foi igual à que, há 16 anos, me impedia de fechar os olhos enquanto transformava a sala lá de casa numa pequena “Le Mans”.

Com uma diferença decisiva: desta vez eu estava ali, a poucos metros dos protótipos que sempre me habituei a ver através do ecrã. Ao vivo, o som destas máquinas é de arrepiar - e percebe-se rapidamente que, se não for assim, então talvez não sejamos feitos para aquele lugar.

A Alpine, a correr em casa, pintava quase por completo as bancadas com as suas cores. Ainda assim, cedo ficou a sensação de que só uma sequência de erros ou um azar mecânico poderia tirar mais uma vitória à Toyota, que aqui ganhou nas últimas quatro edições (incluindo a deste ano).

Mais do que ganhar: uma festa que ultrapassa a corrida

A certa altura, confesso, já nem me ocupava tanto com quem iria vencer ou terminar em segundo. É verdade que a história costuma guardar os nomes de quem ganha, mas as 24 Horas de Le Mans são muito mais do que uma luta pela vitória.

É um teste para homens e máquinas; uma corrida em que, antes de enfrentarmos o carro do lado, parece que estamos a competir connosco próprios. E, acima de tudo, é um acontecimento que extravasa o que se passa entre as barreiras e as curvas.

É a celebração dos automóveis, de França e dos franceses. E começa logo com a passagem dos Dassault Rafale, que fazem tremer as imediações de La Sarthe e deixam em sentido quem espera pelo arranque. Não exagero ao dizer que foi um dos sons mais marcantes que já ouvi.

É um fim de semana para viver com amigos, para “beber uns copos” e para cruzar caminho com pessoas que, como nós, parecem ter gasolina a correr nas veias. A corrida acaba por ser apenas um bónus. E que bónus.

O futuro de Le Mans e do automobilismo

Já no avião de regresso a casa, numa altura em que as equipas apressavam a desmontagem do circo que todos os anos dá vida a esta região francesa, é que assentei definitivamente no que tinha acontecido. Tinha cumprido um sonho - algo que sempre quis fazer - e algo de que não sabemos bem quantos mais anos iremos poder desfrutar. Pelo menos nestes moldes.

É certo que, em 2023, com a mudança de regulamentos e a entrada de novos e importantes intervenientes, Le Mans deverá, muito provavelmente, tornar-se mais competitiva do que nunca. Mas ninguém consegue afirmar por quantos anos mais teremos esta festa.

Tal como acontece com o futuro do automóvel, também o futuro do automobilismo me parece tudo menos claro. Sinceramente, já não me prendo a uma tecnologia ou a outra; só peço que encontrem forma de não matar uma das festas mais importantes do mundo. Por acaso, também é sobre automóveis - mas é sobre muito mais do que isso.

As 24 Horas de Le Mans mexem com o coração de muita gente, e só agora me apercebi verdadeiramente dessa dimensão. Já nem falo do impacto económico e social na região, porque isso provavelmente daria outro artigo. Mas é algo tão grande que não pode morrer.

Sei bem que a Tríplice Coroa do automobilismo é composta pelas 24 Horas de Le Mans, pelas 500 Milhas de Indianápolis e pelo GP do Mónaco em F1, mas depois deste fim de semana não tenho qualquer hesitação ao escolher a mais importante. E nem preciso de vos dizer qual é a resposta - deixo as fotos abaixo falar por si…

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