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Cuidados ao domicílio em saúde mental: proximidade na psiquiatria com o Centro Social do Vale do Homem

Enfermeira a confortar idosa sorridente sentadas em sofá numa sala de estar iluminada.

Utentes tendem a mostrar resistência no início, mas acabam por criar laços de proximidade com equipas especializadas de cuidados ao domicílio na área da psiquiatria.

Emília tem 47 anos, embora a aparência denuncie um peso maior: as marcas deixadas pela vida, os problemas de saúde mental que a afetam e, ainda assim, o facto de continuar a funcionar como um pilar para o núcleo familiar mais próximo. Partilha casa com a mãe, já idosa, com um irmão a aproximar-se dos 60 anos e com um filho de 20. Entre as rotinas, prepara refeições, mantém a casa, vai diariamente tomar o pequeno-almoço ao café da rua e passa pela padaria para comprar pão. Há, contudo, fases em que a lucidez e a energia se apagam, e é aí que precisa de um "ombro amigo" - o apoio que lhe é assegurado por uma equipa de cuidados domiciliários especializada em saúde mental, que também a ajuda a organizar a medicação e a ganhar autonomia.

"Hoje não me apetece cozinhar, ia agora mesmo encomendar comida. Tive de sair para fazer análises e cheguei tarde", comenta Emília assim que abre a porta ao psicomotricista Rui Silva e à assistente social Zélia Lopes, da equipa de apoio domiciliário de saúde mental do Centro Social do Vale do Homem (CSVH). Dessa vez, não há panelas ao lume. "Normalmente, cheira sempre bem quando cá chego", diz Rui Silva ao JN, antes de iniciar com a utente uma conversa descontraída. Pergunta-lhe como se tem sentido, se tem cumprido a medicação, o que comeu ao pequeno-almoço e se existe alguma novidade. A confiança entre ambos é evidente.

"Ele é bom rapaz, não me posso queixar", afirma Emília, que tem diagnóstico de esquizofrenia e depressão e que vê no psicomotricista um "amigo", tal como sucede com outros profissionais do CSVH que a acompanham há cerca de um ano. Com a enfermeira, por exemplo, fala com frequência. "Muitas vezes é só para saber se ela está bem, porque eu preocupo-me", acrescenta, com uma naturalidade quase ingénua, como se, por momentos, os papéis se tivessem trocado.

Conquistar confiança

A equipa do Centro Social do Vale do Homem integra a Rede Nacional de Cuidados Continuados Integrados em Saúde Mental e começou a trabalhar em agosto de 2021, inicialmente nos concelhos de Vila Verde, Amares e Terras de Bouro. Mais tarde, o âmbito foi alargado à Póvoa de Lanhoso e a Braga. Hoje, a intervenção cobre estes cinco municípios e acompanha perto de 20 pessoas, previamente referenciadas pela unidade local de saúde.

Ao contrário do apoio domiciliário tradicional, geralmente mais direcionado para cuidados básicos e higiene, aqui a intervenção incide sobretudo noutros domínios. O foco está, desde logo, na preservação das competências funcionais e na promoção da autonomia, com respostas ajustadas às necessidades de cada utente. Alguns precisam de suporte para gerir a medicação; outros carecem de orientação em tarefas diárias; e há quem encontre nos profissionais um espaço seguro para partilhar inquietações e angústias. "Muitas vezes, funcionamos como uma espécie de ombro amigo", assegura Rui Silva.

O técnico do CSVH admite que um dos maiores obstáculos passa por ganhar a confiança de quem é acompanhado - até porque existem utentes que nem reconhecem a própria doença. "No primeiro impacto, quando entramos em casa, muitos perguntam o que estamos ali a fazer e para que precisam de nós. Temos de criar uma ponte e mostrar que chegamos para ajudar, que esse é o nosso papel", acrescenta Rui Silva, frisando que este é um processo que não pode ser feito de forma brusca. No caso de Emília, a relação que hoje existe foi sendo "conquistada" ao longo do tempo.

Sobrecarga familiar

Para lá do trabalho direto com a pessoa com doença mental, a equipa apoia também familiares e cuidadores. De acordo com Zélia Lopes, a presença de desgaste e sobrecarga nos contextos familiares repete-se com frequência. "Em cerca de 90% dos casos, encontramos famílias muito fragilizadas. A doença mental acaba por deixar marcas profundas não só na pessoa, mas em todo o agregado familiar", defende a assistente social do projeto, apontando Emília como um retrato dessa realidade. "Apesar da doença, ela é o suporte de tudo", resume.

Combater isolamento social e furar a "bolha"

O isolamento social é uma das dificuldades mais marcantes para quem vive com doença mental. Rui Silva refere que muitos utentes "vivem na bolha deles", algo que se torna ainda mais visível quando os sintomas se agravam. O psicomotricista recorda o caso de uma utente que, numa fase mais depressiva, deixou de sair de casa, situação que obrigou a um acompanhamento mais apertado por parte da equipa. Nessas alturas, o trabalho passa também por estimular pequenas rotinas e objetivos simples do dia a dia, como, por exemplo, ir às compras.

Como funciona

  • Equipa multidisciplinar
    O CSVH reúne profissionais de várias áreas: psicologia, serviço social, enfermagem especializada em saúde mental, psicomotricidade e monitorização.

  • Utentes referenciados
    Ao contrário de outras respostas, não é possível candidatar-se diretamente: é obrigatória uma referenciação prévia através da rede de saúde.

  • Número
    100 visitas mensais, em média, são realizadas pela equipa de apoio domiciliário do CSVH.

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