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Relatório do ECFR: vitória do Tisza na Hungria foi sobretudo um voto contra Orbán

Mulher a votar numa urna transparente com bandeiras da Hungria e União Europeia ao fundo.

A vitória do Tisza (Respeito e Liberdade, centro-direita) nas legislativas de 12 de abril, na Hungria, traduziu-se sobretudo num voto de afastamento de Viktor Orbán, mais do que numa adesão consistente a Péter Magyar e às suas propostas. Esta é uma das conclusões centrais de um relatório do European Council on Foreign Relations (ECFR), baseado numa sondagem pós-eleitoral e divulgado esta quinta-feira.

O partido liderado por Magyar - que esta semana assume funções como primeiro-ministro - venceu com 55,26% dos votos, superando o Fidesz (Aliança dos Jovens Democratas, direita radical), de Orbán, que ficou pelos 36,72%. De acordo com o relatório, o impulso decisivo resultou de preocupações internas (custo de vida, serviços públicos e combate à corrupção), e não de uma vontade de reorientação geopolítica.

Para os autores do estudo, os investigadores Piotr Buras e Pawel Zerka, a “redefinição” do relacionamento entre Budapeste e Bruxelas dependerá, antes de mais, da capacidade do novo executivo para executar reformas internas num país “moldado quase inteiramente à imagem de um só homem”, após 16 anos seguidos de governação “iliberal” de Orbán.

Mandato amplo, mas menos sólido do que parece

Apesar da margem eleitoral, o mandato de Magyar poderá revelar-se “mais frágil” do que os números sugerem, uma vez que uma parte significativa do eleitorado votou sobretudo “contra” Orbán e não “a favor” do programa do Tisza. Os dados recolhidos após as eleições apontam para um voto de mudança, com uma proporção limitada de eleitores a indicar o programa partidário ou a liderança como razão principal da escolha.

Pensando na sua escolha de quem apoiar nas eleições de 12 de abril, qual foi a principal razão pela qual votou no partido escolhido? Eleitores do Tisza, em %

Em termos concretos, a principal razão invocada pelos eleitores do Tisza foi a vontade de mudança ou de reforma sistémica (37%), à frente do sentimento anti-Fidesz (30%) e muito acima do peso atribuído ao programa e à visão do partido de Magyar (8%) ou à confiança e qualidades do candidato/partido (7%), segundo a sondagem.

Pensando nos resultados das eleições de 12 de abril, qual considera ter sido a principal razão, ou os fatores mais importantes, por detrás da vitória de Péter Magyar e do partido Tisza? Por voto declarado, em %

Quando questionados sobre o que mais explicou a vitória, a insatisfação com o Fidesz e o desejo de mudança surgem no topo como o fator mais importante (37% no total nacional, 50% entre eleitores do Tisza, 18% entre eleitores do Fidesz). Seguem-se a corrupção e a má gestão associadas ao partido de Orbán (17% no total nacional, 25% no Tisza, 8% no Fidesz) e só depois os atributos positivos e o programa do partido de Magyar (15% no total nacional, 21% no Tisza, 11% no Fidesz).

“Para a maioria dos eleitores, as considerações políticas ou de liderança foram secundárias face ao objetivo de afastar Orbán. Agora começa a verdadeira tarefa para Magyar: definir a sua visão para a Hungria e trazer a bordo os seus eleitores”, refere o estudo.

Prioridades: custo de vida, serviços públicos, corrupção

O relatório mostra que as preocupações mais marcantes do eleitorado húngaro se concentram em quatro eixos internos: custo de vida e inflação, serviços públicos (como saúde e educação), corrupção e governação, e crescimento económico e emprego. Aos inquiridos foi permitido escolher até duas respostas para identificar os principais problemas do país.

Quais considera serem os dois problemas mais importantes que a Hungria enfrenta neste momento? Por voto declarado, em %

No total nacional, o custo de vida ocupa o primeiro lugar (37%), seguindo-se os serviços públicos (33%), a corrupção e a governação (26%) e, depois, o crescimento económico e o emprego (24%). Esta ordenação ajuda a perceber por que motivo a política europeia, ainda que relevante, surge mais abaixo: as relações com a União Europeia (UE) aparecem como preocupação secundária (15% no total nacional) quando comparadas com as urgências internas.

O documento sublinha que “reparar o país” - tanto do ponto de vista económico como no domínio do Estado de direito - será um processo difícil, o que pode, no curto prazo, dar alguma margem de manobra política ao novo executivo.

Eleitores esperam reaproximação à UE e desbloqueio de fundos

Mesmo que poucos eleitores coloquem Bruxelas no topo absoluto das prioridades, a sondagem aponta para uma expectativa elevada de melhoria das relações com a UE sob um governo liderado por Magyar.

Segundo os resultados, 79% dos inquiridos antecipam relações melhores e 73% acreditam que o novo primeiro-ministro conseguirá desbloquear fundos europeus congelados, embora muitos reconheçam que será um percurso complexo.

O descongelamento desses fundos seria um primeiro grande “feito” do novo governo e um sinal de reorientação europeia, num país em que “três quartos” apoiam a pertença à UE e onde existe mesmo uma maioria favorável à adesão à Zona Euro.

Ucrânia, a grande clivagem entre Budapeste e Bruxelas

É no dossiê ucraniano que o estudo identifica os sinais mais claros de atrito com os parceiros europeus. Por um lado, a sondagem indica que muitos húngaros contam com uma melhoria das relações com Kiev e admitem a aprovação de apoio financeiro europeu para a Ucrânia - vista por alguns como condição mínima para o descongelamento de fundos da UE.

Por outro lado, a disponibilidade para avançar com passos mais exigentes é reduzida: o relatório do ECFR conclui que 54% se opõem a desbloquear as negociações de adesão da Ucrânia à UE e que uma maioria nacional (53%) rejeita, “em princípio”, que a Ucrânia venha a tornar-se membro da União.

O documento recorda ainda que, durante a campanha, Magyar prometeu um referendo vinculativo quando a adesão passar a ser uma perspetiva real, mas alerta para as consequências dessa via: seria “lavar as mãos dessa decisão com consequências” e “muito provavelmente aceitar um ‘não’ húngaro”.

Energia russa: maioria resiste a cortar importações

O segundo foco sensível está na dependência energética: 52% dos inquiridos dizem-se contra a interrupção das importações de energia russa e apenas 30% apoiam essa opção.

O estudo assinala também uma alteração relevante entre os apoiantes do Tisza: antes das eleições, dois terços defendiam deixar de comprar combustíveis russos, mas, após as legislativas, essa “orientação clara” enfraqueceu, com menos de metade a apoiar o abandono e 38% a posicionarem-se contra.

Os autores avisam que esta evolução pode gerar novas tensões com a UE e com capitais europeias, que poderão ler a prudência energética como falta de empenho em reduzir dependências e em preservar a unidade europeia face a Moscovo.

Orbán opôs-se frontalmente ao plano REPowerEU, que visa eliminar gradualmente as importações russas de combustíveis fósseis na UE até ao final do próximo ano. O estudo sublinha que não é evidente qual será a posição de Magyar neste tema.

Base mais “progressista” do que imagem do líder sugere

Embora Magyar seja muitas vezes descrito como uma figura “de direita”, o ECFR identifica entre os seus eleitores uma abertura significativa a temas associados a uma agenda mais progressista, incluindo clima e direitos LGBTQ+.

Uma “maioria esmagadora” dos eleitores do Tisza - e também do público em geral - apoia uma política climática ambiciosa, o que poderá ‘empurrar’ o novo governo para as renováveis e para a energia limpa como forma de reduzir a dependência de combustíveis fósseis vindos “do Leste”.

Na mesma linha, o relatório sustenta que os eleitores do Tisza querem um governo que proteja direitos LGBTQ+ e que essa orientação pode reforçar a margem política para reformas em linha com exigências europeias.

A “aposta de elevado risco” da UE

Pawel Zerka, principal responsável pelas sondagens no ECFR, defende que a “vitória esmagadora” de Magyar correspondeu a um voto por “mudança interna”, não por uma “viragem geopolítica”. “Embora os húngaros estejam prontos para virar a página de anos de corrupção e isolamento, traçaram linhas vermelhas claras em torno da independência energética e da segurança nacional do país – realidades que terão de ser respeitadas pelos líderes em Bruxelas. Para Magyar e a sua nova administração do Tisza, o grande desafio dos próximos meses será provar que conseguem alcançar uma reaproximação duradoura com a UE sem perder o mandato interno que os levou ao poder”, acrescenta.

Também o diretor do gabinete do ECFR em Varsóvia, Piotr Buras, salienta que “a UE está envolvida numa aposta de elevado risco com a nova liderança na Hungria”. E especifica: “Se forçar a mão, empurrando Magyar para viragens dramáticas em política externa, arrisca-se a destruir a legitimidade de um líder cujo mandato principal é resolver os problemas da Hungria a partir de dentro. Ao exigir demasiado e demasiado depressa, a UE poderá, inadvertidamente, comprometer o trabalho de um reformador que quer trazer Budapeste de volta ao mainstream europeu. Por outro lado, levantar o veto da Hungria ao empréstimo de 90 mil milhões de euros e abrir o primeiro cluster nas negociações de adesão com a Ucrânia é o mínimo que a UE deverá esperar de Magyar.”

Os autores avisam ainda que, caso o novo primeiro-ministro falhe nas reformas internas prometidas, o entusiasmo inicial poderá dar lugar à frustração, abrindo espaço ao regresso de Orbán e do Fidesz. Por isso, conclui o relatório, “a UE precisará de calibrar a sua abordagem cuidadosamente”.

FICHA TÉCNICA: Sondagem em linha realizada na Hungria pela Stratega Research e Mandate Research entre 17 e 27 de abril de 2026, numa amostra de 1001 cidadãos adultos.

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