Saltar para o conteúdo

Parque das Serras do Porto: 230 quilómetros de percursos pedestres assinalados

Homem com mochila e bastões de caminhada numa trilha rochosa contemplando montanhas verdes ao fundo.

O Parque das Serras do Porto soma 230 quilómetros de percursos pedestres assinalados. Há trilhos para diferentes idades e níveis de preparação - dos mais exigentes aos mais acessíveis - e todos os dias atraem centenas de pessoas, em grupo, a solo ou em visitas guiadas, pelos caminhos verdes desta bolsa de natureza que se eleva à vista do Porto, atravessando os concelhos de Valongo, Gondomar e Paredes.

Nas imediações do rio Sousa, na Senhora do Salto, em Paredes, Juliano Ferreira - de chapéu de aba larga para se resguardar do sol e botas de caminheiro - interrompe a marcha para fotografar uma pequena derrocada no trilho. "É também uma parte boa de fazer estes percursos. Vamos vendo pequenas situações que é preciso corrigir, porque o terreno é dinâmico e vivo, e damos nota às equipas", explica o secretário técnico do Parque das Serras do Porto, no final de mais uma caminhada do projeto Arejar.

Criado em 2022, o programa já organizou perto de 50 caminhadas ao longo dos cerca de 230 quilómetros de percursos identificados nos seis mil hectares do Parque das Serras do Porto. A partir deste ano, o Arejar leva caminheiros a contactar com a reserva verde junto ao Porto para um arejo ao fim do dia, "pôr do sol", e também promove iniciativas pensadas para a aurora da vida: a hora do conto, com trilhos guiados por histórias preparadas para os mais novos.

Para quem está a começar no arejo - seja através do Arejar ou por iniciativa própria - Juliano Ferreira sugere o PR1, em Valongo, na zona dos rios Simão e Sousa, com passagem pela aldeia de Couce. "Num pequeno percurso, vê-se a diversidade da serra", assegura. "É um trilho natural que passa por uma aldeia pitoresca, por área mais densa e também pelo anticlinal", uma estrutura rochosa formada há milhões de anos, quando a Terra se ia moldando em explosões de fogo.

"Outro percurso, onde o mar andou, o de Midões, tem um conjunto de lagoas da altura da exploração romana, de água azul, e é uma área em que também estamos a intervir", refere. Já o percurso da Senhora do Salto "é mais duro, mas depende um bocadinho de cada pessoa daquilo que pretende, porque já tem mais inclinações mais acentuadas", acrescenta.

Da lenda à libertação do stress e da ansiedade

José Nunes avança serra acima, com passo leve sobre pedra solta, sem deixar transparecer cansaço. "Sinto-me muito bem", diz. Aos 67 anos, começou a dedicar-se às caminhadas quando os filhos içaram a bandeira da independência. "Temos mais tempo livre agora", justifica. Há cerca de 15 anos a pôr as botas a caminho em várias geografias, iniciou-se a acompanhar as atividades do grupo Alto Relevo, de Valongo, e hoje caminha com um grupo de amigos mais rodado na vida. "Somos as tartarugas", devagar se vai longe.

"È muito bom fazer este passeios em abril e maio", comenta José. Encantado com as cores da primavera, tira do bolso uma folha A4, marcada pelas dobras do tempo, com a Lenda da Senhora do Salto, local onde começou o passeio: o relato de um cavaleiro que, em fuga dos mouros, pediu auxílio a Nossa Senhora ao deparar-se com o rio revolto no desfiladeiro rochoso. Por graça divina, narra a história, montada e cavaleiro saltaram para as águas turbulentas, pousaram numa rocha - ficando ali as marcas das ferraduras - e continuaram a aventura na outra margem.

A montada de Paulo Soares tem muitos cavalos e duas rodas. Apaixonado por motas, decidiu, há dois anos, entrar pelos percursos pedestres abertos nas serras. Detém-se perante uma bolsa de água translúcida num pequeno açude do rio Sousa. "É uma praia engraçada. Até dava para tomar banho", observa. Para Cláudia Silva, amiga que o acompanha, estes passeios são a oportunidade de abrandar. "Andamos sempre a correr, trabalhamos muito e acabamos por não usufrir, por não ter qualidade de vida. Isto ajuda à ansiedade e a libertar o stress da semana", acrescenta, lembrando que já se inscreveu para fazer voluntariado no Parque das Serras - uma das formas encontradas para aproximar as pessoas deste reservatório natural.

Inscrições para o passeio esgotam depressa

Os pássaros enchem o ar com chilreios que parecem canções de amor numa língua só deles. Onde antes predominavam os eucaliptos, hoje a serra pinta-se de púrpura e amarelo, com a urze e a carqueja que, durante anos, as carquejeiras levavam à cabeça, descalças, para alimentar os fornos das padarias do Porto. Agora, diz-se entre os caminhantes, a carqueja vai para arrozes e assados. O comentário circula no grupo de cerca de 20 pessoas que participou na caminhada que assinalou, a 18 de abril, os 10 anos da Associação de Municípios que esteve na origem da criação do Parque.

Águeda Rocha não tinha conhecimento do aniversário, mas ficou a saber das caminhadas durante uma cerimónia formal, na inauguração da sede do Parque, em Valongo, no ano passado. "Desde aí, tentamos vir e já fizemos algumas caminhadas", conta, ao lado da filha, Mariana. "Tem sido o meu apoio", acrescenta a mãe, falando por ambas. Gostariam de ter participado em mais, mas as inscrições "são difíceis", porque esgotam rapidamente. Em regra abrem à segunda-feira e desaparecem em poucos dias. "Vivemos numa aldeia e às vezes a informação não chega depressa", desabafa.

Paulo Soares defende que "era importante estudar formas de trazer públicos diferentes as estas atividades", para evitar o risco de serem sempre os mesmos calcanhares a seguir em frente. Águeda - nome escolhido pela madrinha como graça da santa venerada em Recarei - mora em Aguiar de Sousa, uma das aldeias implantadas no Parque das Serras do Porto. "É bom vir, para conhecer melhor a nossa terra. É muito bonito", afirma.

Um "recreio com um potencial gigante"

Natural de Jancido, no concelho de Gondomar, Juliano Teixeira também cresceu no Parque, lugar mágico das brincadeiras de criança e, ao mesmo tempo, centro desportivo para corridas, caminhadas e escalada - atividade que ainda hoje leva muita gente às rochas do anticlinal de Valongo. Como secretário técnico do Parque das Serras, aproveita os passeios para recolher conhecimento e partilhar informação sobre obras e intervenções em curso. Entre os temas, sublinha a importância dos acordos com proprietários para substituir o eucalipto por árvores autóctones.

"A primeira urgência é conservar aquilo que temos de bom e depois é fazer o restauro daquilo que temos de menos bom. A questão das plantas invasoras é um desafio enorme, assim como a monocultura do eucalipto", disse Juliano Ferreira. "Todos os nossos projetos incidem sobre isso mesmo", acrescentou.

Ao destacar o envolvimento com a comunidade desde "a génese do parque", ainda antes da formalização, Juliano Ferreira nota que é um espaço com "sempre uma procura muito grande, porque as pessoas sentem que é um bocadinho delas", e explica o que é o Parque das Serras do Porto. "É uma infraestrutura verde e azul aqui mesmo ao lado de nossas casas. É quase o nosso jardim, o nosso recreio e tem um potencial gigante e, acima de tudo, permite melhorar a qualidade de vida da população", disse o secretário técnico do Parque.

"Não precisamos de nos deslocar. A natureza está aqui ao lado", reforça Juliano Ferreira. "O Parque das Serras tem uma panóplia gigante de interesses, desde as aldeias, os rios e os habitats e espécies protegidas", das aves aos morcegos, passando por felinos como a gineta - que poucos conseguem ver -, pela raposa e por uma borboleta rara. Reconhece a pressão sobre os principais cursos de água, acompanhados com análises regulares desde 2019, e aconselha "linhas de água puras", riachos e ribeiras onde ainda é possível tomar banho. "Temos um território gigante, com património arqueológico, geológico, biológico e material que as pessoas podem usufruir. E também participar, se quiserem ter um papel mais ativo numa panóplia grande de atividades, sempre aos fins de semana, como vários programas de voluntariado ou sessões de formação", acrescentou.

Comentários

Ainda não há comentários. Seja o primeiro!

Deixar um comentário