O escritor franco-argelino Kamel Daoud sustenta que a “traição” pode, em certas circunstâncias, ser um requisito para a liberdade. A ideia atravessa o ensaio Por vezes é preciso trair e parte da sua vivência num ambiente político e cultural marcado pela pressão sobre vozes dissidentes.
“Por vezes é preciso trair”: Kamel Daoud e a “traição” como gesto de liberdade
Editado pela Guerra e Paz, o livro nasce, segundo o autor, como resposta direta às acusações de que tem sido alvo na Argélia. Em entrevista à agência Lusa, durante uma passagem por Lisboa para participar na cerimónia de escolha do Choix Goncourt Portugal, Daoud descreveu um país onde “existe uma conceção muito fechada do nacionalismo”, que tende a rotular como traição tudo o que se desvie de uma identidade única.
“É esse o insulto que me chamam muitas vezes: judeu ou traidor. Tentei então responder explicando que não podemos imaginar o futuro, não se pode mudar as coisas, se não se trair o imobilismo, as convenções e a própria época. E, assim, às pessoas que diziam que eu era um traidor, eu disse-lhes que sim, que traía a imobilidade. Acredito que é uma necessidade moral, que é uma necessidade filosófica, não podemos inventar o amanhã se não trairmos o hoje”.
Para Daoud, a História avança graças a quem se afasta da unanimidade e quebra a lógica dominante; como resume, “os traidores de hoje são os heróis de amanhã”.
Num país onde persiste um “culto do grupo”, o escritor identifica uma contradição de fundo: “Sonhamos com a libertação coletiva, mas rejeitamos a liberdade individual”.
Neste quadro, afastar-se da unanimidade ou do “nós” coletivo torna-se “uma necessidade pessoal, mas também moral”.
Daoud sublinha ainda a utilidade política da figura do traidor, defendendo que “as ditaduras, nomeadamente a argelina, precisam da figura do traidor para consolidar a ortodoxia”.
“Se não há Judas, não há cristianismo. Do ponto de vista político, é Judas que é importante, não Jesus. Por isso, são muitas vezes os escritores que são acusados de traição”, afirmou, considerando que, muitas vezes, são os escritores a ocupar esse lugar por desafiarem o consenso e se abrirem ao universal.
Língua, identidade e poder na Argélia
Um tema que regressa com frequência na sua reflexão é o da língua. Na Argélia, explica, a escolha linguística pode transformar-se num instrumento de acusação política - e ele próprio é acusado de traição por escrever em francês.
O autor rejeita essa associação e apresenta a língua como um espaço de liberdade, não como um território de pertença exclusiva, comparando-a ao amor: tal como “quando se ama alguém, não se coloca como condição que tenha de falar a mesma língua para se poder amar”.
No seu caso, acrescenta, o francês é também uma língua argelina, marcada pela história do país e pela sua experiência pessoal de aprendizagem, ligada à leitura e à literatura.
“Contra aqueles que imaginam que uma língua serve para se encerrar na glória, oponho as minhas três línguas como outras tantas janelas. Aos meus filhos, repito: "Uma casa com tantas janelas é sempre mais iluminada"”, lê-se numa passagem do livro.
Para Kamel Daoud, o debate linguístico na Argélia é inseparável de relações de poder e de tentativas de impor uma única visão de identidade.
“Há pessoas que dizem que é preciso falar árabe porque querem ter poder. É uma questão de poder”, disse, embora se reconheça, antes de mais, como escritor de língua francesa, mais do que como escritor exclusivamente argelino ou francês.
A mesma atitude crítica surge na forma como pensa o passado colonial: na sua perspetiva, um país que permanece preso ao antigo colonizador não alcança uma liberdade plena.
“A independência está aqui, a liberdade constrói-se aqui” - aponta para a cabeça -, “um país que fala constantemente do país que o colonizou não é um país independente, é um país dependente”, afirmou, defendendo uma construção da liberdade centrada no presente e no indivíduo.
“Quando eu morrer, a comunidade não morrerá comigo”, sublinha.
Memória, leis e o lugar da literatura
A memória constitui outro eixo de Por vezes é preciso trair. No ensaio, Daoud recusa uma conceção fixa da memória coletiva e critica aquilo que descreve como uma institucionalização crescente da memória na Argélia.
A certa altura, lê-se que “a memória não é uma casa, mas um caminho. Atravessamo-la para questionar, não para permanecer”.
Recordando que, na Argélia, foi instituído um dia de memória e que foi aprovada uma lei que impede que se fale da Guerra da Independência e da colonização fora da narrativa oficial, o autor lamenta que quem o faça se arrisque a “uma pena de cinco a dez anos de prisão”.
“Os dois grandes traumas da Argélia estão bloqueados. Agora não posso escrever um romance sobre a guerra civil, fui condenado à prisão. E já não posso escrever um romance sobre a guerra de descolonização porque vou ser condenado à prisão”, afirmou.
Neste cenário, alerta para o efeito dessas políticas sobre as próximas gerações: “Se dissermos a uma criança argelina que a sua vida só vale se repetir os gestos dos antepassados, estamos a privá-la da sua vida”.
É aí que a literatura aparece como território de resistência, porque “quando não se é livre, inventa-se histórias” e, em contextos autoritários, a ficção pode tornar-se um dos poucos lugares onde a verdade se mantém.
Perseguição, exílio e a ameaça global à liberdade de expressão
É neste enquadramento que Daoud introduz uma leitura mais dura sobre o impacto político do que escreve e sobre a receção pública da sua obra, falando de tristeza em relação ao país e à forma como os escritores são tratados.
Entre outros episódios, o escritor já foi alvo de uma “fatwa”, de apelos à violência e de uma condenação judicial a três anos de prisão, relacionada com o seu romance mais recente, Houris, por abordar a guerra civil argelina, além de mandados de detenção internacionais e de censura.
Apesar de ameaças e polémicas, recusa que o ensaio seja apenas reativo: diz escrever por necessidade interior, sem ocultar, contudo, o peso pessoal do que vive e a leitura política que faz da situação.
“Estou um pouco triste pelo meu país natal, estou mesmo triste. Porque não são os argelinos que me estão a atacar. Estou a ser atacado pelo regime, estou a ser atacado por alguns intelectuais, estou a ser atacado pelo islamismo”, afirma.
“Estou triste porque, no dia 21 de abril, quando soube que tinha sido condenado a três anos de prisão por causa de um romance, fiquei triste pelo meu país, por outras palavras, condenam estes escritores e os assassinos andam por aí. Eles têm dinheiro. Ninguém lhes toca. Ninguém lhes diz "mataste 200 crianças". Quem é que o fez? Após dez anos de guerra, só há um culpado, é um romance. É espantoso”.
Daoud classifica como “ridícula” a perseguição a escritores por regimes políticos, em qualquer país, e realça a distância entre a gravidade das acusações e o simples ato de escrever.
“Há algo de ridículo na perseguição implacável de um escritor por uma ditadura, seja na Argélia, aqui ou noutro lugar. É ridículo. É realmente ridículo. Por vezes acordo à noite e penso: "O que é que eu fiz?' Só escrevi um romance. [Uma pessoa] pode comprá-lo. Se não o comprar, não o compra", considera, confessando que essa realidade o afeta na medida em que impossibilita o seu regresso: “É doloroso. Não posso voltar para lá. Isso é muito doloroso para mim. Este é o meu país. Não lhes pertence”.
Ainda assim, reconhece que a liberdade de expressão “está hoje seriamente ameaçada, para toda a gente”.
“Penso que as sociedades, em todo o mundo, têm medo. E que os políticos se aproveitam desse medo para o transformar em autoridade”, oferecendo segurança em troca de liberdade, e acrescenta que “todos jogarão com os medos da sociedade para os acentuar”.
“Os populistas e os ditadores são todos iguais. O que eles oferecem sempre é "dá-me a tua liberdade, que eu dou-te segurança". E se o fizeres, perdes. Perde-se a liberdade e a segurança. Esta é a regra básica. A escala é diferente aqui, nos Estados Unidos, na Argélia, no Irão, etc., mas é sempre a mesma mecânica, medo "versus" segurança”.
No fim, Kamel Daoud regressa ao ponto de partida - a palavra “traição” - para insistir que, embora por vezes necessária, não é isso que o define.
“O meu adversário não é o centro da minha vida”, afirma, explicando que o que o orienta é uma “balança” interior: a “própria consciência, o afeto familiar e a paixão” pela escrita.
Para o autor, existe uma “traição necessária que é a das convenções”, isto é, abandonar regras herdadas que deixaram de fazer sentido; e existe também uma lealdade indispensável, que é “à nossa própria consciência”, às relações próximas e ao futuro.
“Quando vejo uma lei vantajosa para os mortos e desvantajosa para as crianças, é uma lei inútil”, conclui, defendendo que o critério último da ação deve ser sempre a vida que ainda está por construir.
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