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Banca portuguesa: margem financeira perde força e comissões ganham peso com a descida das taxas do BCE

Homem a analisar gráficos financeiros no computador enquanto conta moedas numa mesa junto à janela.

A fase em que a banca portuguesa viu os lucros crescerem quase só à boleia da subida das taxas de juro começa a mostrar sinais claros de desgaste. No primeiro trimestre do ano, os principais bancos privados a operar em Portugal voltaram a somar resultados positivos - quase €799 milhões na operação doméstica -, mas com uma alteração nítida na origem das receitas: a margem financeira pesa menos e as comissões cobradas aos clientes ganham terreno.

Santander, BPI, Novo Banco e BCP mantêm níveis elevados de rendibilidade, ainda assim os dados sugerem que o período excecional em que a diferença entre os juros cobrados no crédito e os juros pagos nos depósitos funcionava como principal motor dos ganhos já passou. Em termos práticos, a normalização da política monetária começou finalmente a refletir-se nas contas.

Margem financeira na banca portuguesa: o impacto da descida da Euribor em 2025

A redução das taxas diretoras do Banco Central Europeu (BCE) ao longo de 2025 fez-se sentir sobretudo através do ajustamento do crédito indexado à Euribor. Foi um efeito inevitável, apesar de os bancos terem conseguido aumentar o crédito em vários segmentos, os depósitos e até a base de clientes.

Até março, a margem financeira da atividade em Portugal (BPI e BCP têm negócio lá fora) evoluiu negativamente na maioria dos casos. No conjunto, Santander, BPI e Novo Banco registaram uma quebra de cerca de €22 milhões face ao período homólogo: as receitas de juros desceram de €856 milhões para €834 milhões, refletindo sobretudo taxas médias mais baixas do que há um ano, apesar do crescimento dos volumes de crédito.

Santander, BPI, Novo Banco e BCP: evolução da margem financeira banco a banco

Numa leitura individual, no Santander os ganhos com juros recuaram 3,5%, para quase €342 milhões. No BPI, a descida foi de 3%, para €216 milhões. Já no Novo Banco, a redução foi mais moderada, de 1%, para cerca de €276 milhões.

O BCP destacou-se por seguir um caminho diferente: a margem financeira subiu quase 10%, para cerca de €358 milhões. Esse avanço compensou a perda observada nos restantes bancos e permitiu que o total agregado se mantivesse praticamente estável, em torno de €1,2 mil milhões.

Contas, cartões e soluções de pagamento tornam-se fontes de receita cada vez mais importantes

Mesmo assim, os bancos defendem que a trajetória de queda já perdeu intensidade face ao trimestre anterior. Entre maior concorrência no crédito, aumento de volumes e alguma contenção na remuneração dos depósitos, a margem terá estabilizado em termos trimestrais. Na apresentação de resultados, João Pedro Oliveira e Costa, presidente executivo do BPI, admitiu que a margem financeira continua a “deslizar”, mas a um ritmo inferior ao dos trimestres anteriores.

No BCP, o cenário foi distinto. O presidente executivo do banco, Miguel Maya, salientou que, num contexto particularmente complexo, o banco conseguiu aumentar lucros e margem, sendo - entre os quatro bancos (ver caixa) - o único a registar subida nas receitas com juros.

BCE, incerteza e o equilíbrio delicado das taxas de juro

Este ajustamento ocorre num ambiente de maior prudência. A normalização dos juros parecia praticamente assegurada para 2026, mas o conflito no Médio Oriente voltou a pressionar os preços da energia, a inflação e os mercados financeiros, reintroduzindo incerteza. Na reunião de 30 de abril, o BCE optou por manter as taxas diretoras inalteradas, reforçando uma abordagem cautelosa, dependente dos dados e decidida reunião a reunião.

Apesar desta pausa, os mercados continuam a apontar para a possibilidade de um novo aumento das taxas já em junho - o que poderia até contrariar a tendência negativa da margem financeira. Para a banca, porém, o equilíbrio é sensível: taxas mais baixas aliviam famílias e empresas endividadas, mas comprimem a margem financeira; taxas mais altas aumentam a receita, mas significam um cenário de inflação elevada e maiores riscos de incumprimento.

Entretanto, enquanto os juros perdem ímpeto, as comissões seguem em sentido inverso. Até março, as receitas dos quatro bancos chegaram aos €454 milhões, mais €25 milhões, ou 6%, do que há um ano. O avanço foi suportado sobretudo pela banca do dia a dia (contas, cartões e meios de pagamento) e, em alguns casos, pela gestão de ativos e pelos seguros. Em três bancos, o aumento das comissões acabou por absorver parte da quebra registada na margem financeira.

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