Na vida das marcas automóveis, há escolhas que custam a fazer - sobretudo quando implicam transformar por completo um modelo que tem sido uma verdadeira máquina de receitas, como o Porsche Macan (600 000 unidades vendidas desde a primeira geração em 2014 e sempre com margens saudáveis de lucros).
Há dois anos, quando o diretor executivo da Porsche, Oliver Blume, anunciou que a marca deixaria de ter motores Diesel, sentiu-se algum desconforto junto da rede de concessionários. A razão era simples: grande parte dos clientes europeus preferia os SUV Diesel da Porsche, mesmo com a China a manter-se como o maior mercado do Macan.
Entretanto, regressou o risco de gerar descontentamento interno e também entre muitos clientes, caso se confirmasse que o sucessor do Macan seria apenas proposto numa variante 100% elétrica - cenário que levou a um ajuste de rumo. Assim, o Macan atual continuará no portefólio da Porsche até meados da presente década (2025), com pequenos retoques no desenho exterior e uma nova geração de sistema operativo no habitáculo, para se manter competitivo em termos comerciais.
Muda mais por dentro do que por fora
No exterior, a transformação é contida: há ligeiras alterações na frente do SUV médio (em negro), um novo difusor na traseira e a adoção de faróis LED com funcionamento dinâmico de série nas três versões.
Já no interior, as novidades são bem mais profundas, com a estreia de uma geração renovada do sistema de infoentretenimento. Quase todos os botões foram substituídos por comandos táteis no novo ecrã central de 10,9", acompanhado por um novo sistema operativo. A consola central passa ainda a integrar um novo seletor de transmissão (sempre a automática PDK, de sete velocidades, com dupla embraiagem).
Também o volante multifuncional, de aspeto mais desportivo, é novidade (“cedido” pelo novo 911). Ainda assim, a Porsche optou por não ir até ao fim nesta atualização, ao manter a instrumentação analógica à frente do condutor.
Motores ganham rendimento
Do ponto de vista mecânico, surgem melhorias relevantes. O quatro cilindros de 2.0 l (o preferido no mercado chinês) ganha 20 cv e mais 30 Nm, chegando a 265 cv e 400 Nm. Estes números permitem reduzir a aceleração de 0 a 100 km/h para 6,2s e elevar a velocidade máxima para 232 km/h (face aos 6,7s e 225 km/h do modelo anterior).
Um nível acima, o Macan S recebe um aumento de potência ainda mais expressivo (26 cv), fixando-se nos 380 cv e mantendo os 480 Nm. Com isso, corta 0,7s no 0 a 100 km/h (de 5,3s para 4,6s) e aumenta a velocidade de ponta de 254 km/h para 259 km/h.
Por fim, o Macan GTS acrescenta 60 cv, passando de 380 cv para 440 cv, assumindo o papel deixado em aberto com o desaparecimento do Macan Turbo. Nesta configuração, o GTS cumpre os 0 a 100 km/h em 4,3s (antes 4,9s) e segue até aos 272 km/h (261 km/h anteriormente).
Ainda assim, tal como já acontecia com o Macan Turbo, o novo Macan GTS continuará a ter dificuldade em discutir números com rivais como o BMW X3 M/X4 M, o Mercedes-AMG GLC 63 ou mesmo o Alfa Romeo Stelvio Quadrifoglio, que se posicionam sempre acima dos 500 cv de potência máxima.
A variante de topo inclui suspensão pneumática de série, baixando a altura ao solo em 10 mm e aumentando a rigidez (10% no eixo dianteiro e 15% no traseiro). Em toda a gama Macan, a tração é integral e, com exceção da versão de entrada, existe controlo variável do amortecimento em cada roda (PASM). No caso do Macan GTS, é ainda possível reforçar a vertente desportiva e a eficácia com o Pacote Sport, que inclui jantes de 21" com pneus mais desportivos, sistema de vetorização de binário Porsche Plus e pacote Sport Chrono.
Elétrico em desenvolvimento
Em outubro, a geração melhorada do Macan chegará à estrada, enquanto decorrem em paralelo os ensaios dinâmicos do futuro modelo, totalmente elétrico.
Depois das primeiras fases de desenvolvimento em ambiente fechado, no circuito de testes de Weissach, em junho tiveram início as primeiras sessões em estradas públicas, com os SUV devidamente camuflados: “o momento de início dos testes em ambiente real é um dos mais importantes em todo o desenvolvimento”, garante Steiner. Aos incontáveis quilómetros realizados por simulação em computador, o Macan 100% elétrico somará cerca de três milhões de quilómetros reais quando for lançado no mercado, em 2023.
O desenvolvimento assenta, há já bastante tempo, na nova plataforma elétrica PPE. “Começámos há cerca de quatro anos com os estudos aerodinâmicos em computador”, revela Thomas Wiegand, chefe de desenvolvimento de aerodinâmica. Como em qualquer veículo elétrico, a aerodinâmica tem um peso particular, já que mesmo pequenas melhorias no escoamento do ar podem traduzir-se em ganhos importantes.
E não foi apenas a aerodinâmica - ou os primeiros milhares de quilómetros - que avançaram no mundo virtual. Também o novo quadro de instrumentos e o ecrã central foram concebidos de forma totalmente digital e só depois instalados nos primeiros painéis de bordo. “A simulação permite-nos avaliar os ecrãs, os processos operativos e a resposta geral do sistema mesmo antes de o posto de condução estar pronto e de o colocarmos nas mãos de um engenheiro de testes no veículo”, explica Fabian Klausmann, do departamento de Experiência de Condução da Porsche.
Por seu lado, Steiner sublinha que “tal como o Taycan, o Macan elétrico terá prestações tipicamente Porsche graças à sua arquitetura de 800 V, o que quer dizer uma autonomia adequada para viagens longas, carregamentos rápidos de alto desempenho e performances dinâmicas de nível muito alto”. E deixa ainda a promessa de que este será o modelo mais desportivo do seu segmento, ao contrário do que sucede hoje na gama a gasolina face a uma concorrência alemã muito bem apetrechada.
A propulsão elétrica - da bateria ao motor - exige um conceito avançado de arrefecimento e de gestão térmica, bem distinto do utilizado nos automóveis com motores de combustão. Enquanto estes operam idealmente entre os 90 ºC e os 120 ºC, na propulsão elétrica os principais componentes (eletrónica, bateria, etc) “gostam” de intervalos mais moderados, entre os 20 ºC e os 70 ºC (dependendo do componente).
Autores: Joaquim Oliveira/Press-Inform.
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