O Mazda MX-5 ND mostra que ainda existe espaço para carros descomplicados, leves e pensados apenas para conduzir.
Quando a quarta geração do Mazda MX-5 (ND) apareceu, em 2015, soou quase como uma tomada de posição contra a tendência dominante na indústria automóvel. Numa altura em que quase tudo aumentava - dimensões, massa e potência -, o pequeno descapotável japonês escolheu o caminho inverso: menos peso, menos tamanho e uma experiência de condução focada no que realmente interessa.
Este MX-5 recuperou parte da leveza e da simplicidade que marcaram os primeiros NA e NB, mas sem abdicar da tecnologia e da segurança que hoje se exigem. A reação foi imediata: críticas muito positivas, prémios internacionais e, uma década depois, uma procura estável no mercado de usados. No Pisca Pisca encontrámos unidades a partir de 17 500 euros, embora, consoante a idade e a especificação, possam ultrapassar os 30 mil euros.
Apesar de assentar numa fórmula minimalista, o MX-5 ND foi sendo afinado ao longo de uma carreira longa - e que ainda não terminou. Por trás do mesmo desenho geral existem diferenças relevantes entre ND1, ND2 e ND3, nomes usados para separar as várias atualizações.
É nessas diferenças, nos problemas mais frequentes e no que convém verificar antes de comprar um exemplar usado que este guia se concentra. O foco é o MX-5 com o motor 1.5, já que as versões 2,0 litros são relativamente raras por causa da nossa fiscalidade.
ND1, ND2 e ND3. O que mudou?
A fase inicial, hoje conhecida como ND1, esteve no mercado entre 2015 e 2018. Vinha com o 1.5 Skyactiv-G de 131 cv, caixa manual de seis velocidades e apenas 1000 kg (sem condutor). Havia também um 2,0 litros com 160 cv e, em 2016, surgiu o RF, a variante com teto metálico retrátil em solução tipo targa.
Em 2018 chegou o ND2, quase indistinguível por fora, mas com melhorias importantes. A Mazda trabalhou o isolamento acústico, a suspensão, a ergonomia e os equipamentos de segurança. O interior ganhou um detalhe há muito pedido: ajuste do volante em profundidade (30 mm), o que melhora bastante a posição de condução. Foi também nesta fase que apareceram os faróis LED adaptativos e o Apple CarPlay sem fios.
A evolução prosseguiu nos anos seguintes, destacando-se o KPC (Kinematic Posture Control), introduzido em 2022. Este sistema aplica uma ligeira travagem na roda traseira interior em curva para reduzir o rolamento da carroçaria e tornar a resposta mais precisa. O motor 2,0 litros também foi alvo de uma revisão profunda, passando de 160 cv para 184 cv às 7000 rpm.
O ND3, lançado em 2023 e ainda à venda, trouxe um novo sistema de infoentretenimento, mais assistentes à condução, novos faróis LED e pequenas alterações de afinação. A direção elétrica foi recalibrada e o controlo de estabilidade passou a conceder mais margem antes de intervir eletronicamente.
Exterior e interior
O Mazda MX-5 ND envelheceu de forma particularmente feliz e, com o passar dos anos, contrasta cada vez mais com um mercado dominado por SUV, onde até os utilitários já não são tão compactos como eram.
A parte positiva é que esta geração não herda os conhecidos problemas de corrosão de alguns antecessores, mas isso não dispensa atenção. Existem casos de corrosão superficial nos braços de suspensão, sobretudo em carros que circulam com frequência junto ao mar. Também vale a pena verificar possíveis entradas de água provocadas por drenos da capota entupidos: quando não são limpos com regularidade, podem gerar humidade no habitáculo e infiltrações na zona junto aos bancos.
Num descapotável, a capota deve ser sempre analisada com especial cuidado, porque reparar ou substituir raramente é barato. Nos MX-5 com capota de lona, procure sinais de desgaste e até perfurações, que podem surgir devido ao roçar do tecido nas proteções plásticas dos arcos de segurança.
Por dentro, a filosofia do modelo é evidente: um habitáculo justo, simples e pouco preocupado com a vertente prática. Os espaços de arrumação são limitados e a bagageira também não impressiona, mas, em andamento, esses compromissos tendem a perder importância. O infoentretenimento não é o melhor da categoria, embora o ND3 tenha recebido um sistema novo, alinhado com o de outros Mazda, mais rápido e intuitivo.
A qualidade dos materiais é aceitável para o segmento e para a idade, mas alguns plásticos do túnel central e dos painéis inferiores podem riscar ou mostrar desgaste mais cedo do que o desejável. Em muitos usados é igualmente comum notar marcas de utilização nos apoios laterais dos bancos, em especial no do condutor.
Altura do MX-5 brilhar
Se o lado prático do MX-5 deixa a desejar, bastam poucos quilómetros para isso ficar em segundo plano. Conduzi-lo é um prazer - começando no 1.5 Skyactiv-G.
Num contexto cada vez mais tomado por motores pequenos com turbo, por vezes pouco naturais, o quatro cilindros atmosférico da Mazda distingue-se pela entrega linear, pela resposta imediata e pela vontade de subir de rotação, até certo ponto. Confesso que, em rotações altas - 5000 rpm para cima -, gostava de sentir mais ímpeto, mas para a utilização diária dificilmente se sente falta de mais.
Os 131 cv (ND1) ou 132 cv (ND2, ND3) não parecem muito expressivos no papel, mas com apenas 1000 kg (capota de lona) a realidade é outra. O MX-5 nunca viveu de arrancadas brutais: vive da ligação entre condutor, chassis, direção e caixa manual. E aqui a transmissão merece um destaque próprio. Continua a estar entre as melhores caixas manuais da indústria: cursos curtos, grande precisão e uma sensação mecânica muito satisfatória.
A dinâmica acompanha. A tração traseira, um diferencial bem afinado e o baixo peso fazem com que uma estrada secundária se transforme numa experiência especial, sem ser preciso recorrer a velocidades disparatadas.
Os ND1 tinham tendência a adornar em excesso, mas os ND2 com o sistema KPC passaram a controlar melhor os movimentos da carroçaria. E isso faz com que qualquer deslocação seja mais especial do que seria ao volante de grande parte dos carros da nossa praça.
Os consumos também reforçam a lógica da compra. Em utilização normal, é relativamente simples manter médias nos seis litros. No Spritmonitor, com dados reais, os MX-5 1.5 apresentam um consumo médio de 6,18 l/100 km.
Mecânica robusta
Historicamente, os MX-5 têm fama de grande fiabilidade e o ND não foge à regra. Ainda assim, há aspetos que merecem verificação.
Nos ND1 surgiram relatos de problemas na caixa manual, em particular desgaste prematuro de sincronizadores e falhas internas quando há utilização mais agressiva ou quando os carros são usados com frequência em pista. A Mazda foi introduzindo várias revisões internas na transmissão ao longo dos anos, pelo que os ND2 são, em geral, vistos como mais sólidos neste ponto.
Alguns proprietários referem também desgaste precoce da bateria e ruídos parasitas vindos da capota quando se circula em pisos degradados.
A boa notícia é que testes de fiabilidade de várias entidades e a experiência partilhada em fóruns especializados apontam para um padrão consistente: o MX-5 ND tende a envelhecer melhor do que muitos desportivos equivalentes, sobretudo quando é mantido fiel à filosofia com que foi desenhado. Isto é, leve, simples e sem alterações exageradas - os MX-5 raramente ficam totalmente originais, mas isso não é, por si só, motivo para recuar num potencial negócio.
Quanto tenho de pagar por um Mazda MX-5 1.5 ND?
Os valores do MX-5 ND têm-se mantido surpreendentemente firmes nos últimos anos. A procura continua forte e a oferta não é vasta, sobretudo em versões 1,5 litros com caixa manual e histórico conhecido.
Os primeiros ND1 costumam começar nos 18 000 euros, embora possam surgir unidades com muitos quilómetros abaixo desse patamar. Já os ND2 tendem a posicionar-se entre os 23 000 e os 28 000 euros, consoante estado, quilometragem e equipamento - veja os exemplares disponíveis no Pisca Pisca.
Os ND3 são ainda demasiado recentes para serem verdadeiras oportunidades no mercado de usados, mantendo valores muito próximos dos modelos novos.
De forma curiosa, o MX-5 é um dos poucos desportivos modernos que aparenta resistir relativamente bem à desvalorização, em grande parte porque a indústria praticamente deixou de oferecer alternativas com a mesma abordagem.
Os custos não são elevados
A manutenção do MX-5 ND é, no geral, acessível para um desportivo. O 1.5 Skyactiv-G evita soluções complexas e os consumíveis não têm custos particularmente elevados.
As revisões regulares costumam andar em valores semelhantes aos de um utilitário, e os pneus também ajudam: medidas relativamente comuns (195/50 R16 ou 205/45 R17) significam despesas inferiores ao que é habitual neste tipo de carro.
Quanto a campanhas de recolha, existiram ações relacionadas com módulos eletrónicos, sistemas de assistência à travagem e, em alguns mercados, problemas no mecanismo da capota. Consulte o relatório da MotorCV para mais detalhes sobre as operações de recolha.
Onde a fatura pode crescer é na carroçaria. Alguns painéis exteriores são específicos e relativamente caros, seja pela complexidade das formas, seja por serem em alumínio (capô e guarda-lamas dianteiros). Capotas danificadas ou mecanismos elétricos também podem representar despesas elevadas.
Por isso, mais do que procurar quilometragem baixa, compensa encontrar um exemplar original, sem modificações e com manutenção bem documentada.
Este seria o MX-5 que escolheríamos
Se tivéssemos de apontar uma versão concreta desta geração do Mazda MX-5, escolheríamos o 1.5 ND2. Preserva o carácter leve e comunicativo, mas já tira partido das melhorias introduzidas pela Mazda.
A caixa manual mostrou-se mais resistente, o refinamento global é ligeiramente superior e há um pormenor que muda tudo: o volante passou finalmente a ajustar também em profundidade. Para condutores mais altos, pode ser o fator decisivo.
Existem muitas versões com diferentes níveis de equipamento - os MX-5 com bancos aquecidos, por exemplo, tendem a ser mais valorizados -, além de edições especiais e limitadas, como as Anniversary, que geram interesse adicional quando se olha para o MX-5 como um possível investimento.
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