A indústria automóvel europeia atravessa uma fase particularmente agitada - praticamente todos os grupos estão a corrigir em baixa as suas previsões - e esse contexto tem sido terreno fértil para rumores e leituras especulativas. Entre os temas que mais têm circulado está a hipótese de uma fusão entre a Stellantis e o Grupo Renault.
Antecedentes da possível fusão Stellantis–Grupo Renault
Este tipo de conversa não é recente: já tinha ganhado força no início do ano. Importa lembrar que o Grupo Renault acabou por recuar nos planos de entrada em bolsa da Ampere, a sua divisão de veículos elétricos, muito devido ao abrandamento da procura por elétricos que já se fazia sentir.
Em paralelo, o grupo francês foi reduzindo a participação na Nissan, sua parceira na Aliança, apesar de entretanto ter fechado outras colaborações - por exemplo, com a Geely, para o desenvolvimento e a produção de motores de combustão interna.
Com a incerteza no horizonte, sobretudo no capítulo da eletrificação, começaram a surgir hipóteses de o Grupo Renault se poder juntar a outro grande grupo, procurando sinergias e economias de escala que ajudassem a manter os custos sob controlo.
E quem aparecia como candidato mais evidente? A Stellantis. Na altura, John Elkann, presidente do grupo, apressou-se a travar a narrativa, mas o tema voltou a emergir recentemente.
O que mudou?
Desta vez, é a Stellantis que enfrenta um momento sensível. Os números do primeiro semestre ficaram bastante aquém do esperado e as perspetivas até ao fim de 2024 foram revistas em baixa.
Carlos Tavares, diretor-executivo do grupo, tem estado particularmente exposto. Entre os resultados dececionantes na operação norte-americana da Stellantis, a contração das vendas de elétricos na Europa e a pressão política - com especial destaque para a que chega de Itália -, o executivo português tem sido alvo de atenção constante.
É precisamente este quadro, e em especial a fase delicada da relação com o governo italiano, que explica o reaparecimento dos rumores sobre uma possível fusão com o Grupo Renault.
Quem mais tem alimentado a hipótese é, sobretudo, a imprensa italiana, como refere o jornal First Online: “a ideia da fusão das duas empresas é criar um colosso europeu para enfrentar as armadilhas dos construtores americanos e chineses, derrubar a Toyota (japonesa) do topo do pódio dos fabricantes globais e ultrapassar a Volkswagen no topo dos europeus”.
Alguns órgãos de comunicação italianos avançam ainda mais e apontam para um cenário de grande dimensão a três: Stellantis, Grupo Renault e… Grupo BMW.
Porque é que o Grupo BMW entra na equação
Como é que o Grupo BMW aparece associado a esta possibilidade? De acordo com o jornal italiano Il Sole 24 Ore, no próximo dia 15 de outubro Carlos Tavares, Luca de Meo (diretor-executivo do Grupo Renault) e, possivelmente, Oliver Zipse (diretor-executivo do Grupo BMW) estarão juntos numa cimeira reservada a alguma imprensa.
O Il Sole 24 Ore não indica o que será anunciado ou discutido, mas, naturalmente, a combinação de nomes e a conjuntura acabaram por dar novo fôlego aos rumores de fusão.
Convém também recordar que, neste tema, Luca de Meo tem defendido a criação de uma Airbus dos automóveis, como forma de potenciar sinergias e economias de escala e, assim, reduzir custos.
Colocar água na fervura
Do ponto de vista oficial, apenas uma das partes envolvidas - a Stellantis - reagiu de forma direta, pela voz de Carlos Tavares, classificando a hipótese de fusão como: “pura especulação”.
Além disso, ao contrário de Luca de Meo, Tavares já se manifestou contra a ideia de uma Airbus dos automóveis. O responsável sublinha os riscos desse caminho, como uma homogeneização excessiva entre marcas, modelos e estilo, bem como a eventual descida do nível de inovação, fruto de uma concorrência mais limitada.
Ainda assim, existem outros intervenientes que veriam com bons olhos essa direção, incluindo alguns governos - como o francês, que detém participações tanto no Grupo Renault como na Stellantis.
Se, historicamente, as fusões foram decisivas para assegurar a sobrevivência de vários construtores, também é verdade que implicam processos complexos e dispendiosos, sem esquecer a dificuldade de gerir muitas marcas ao mesmo tempo: entre a Stellantis, o Grupo Renault e o Grupo BMW somam-se 21 marcas no total.
Num cenário desta dimensão, é difícil imaginar que todas resistiriam. Para já, porém, o tema continua no domínio da especulação. Aguardaremos os próximos desenvolvimentos nas semanas seguintes, ainda que este tipo de fusão contrarie o padrão mais recente do setor.
Parcerias em vez de fusões: o caminho mais seguido
A abordagem preferida por estes grupos industriais tem sido, antes, a união de esforços em projetos bem delimitados - como o Grupo BMW fez com a Toyota (por exemplo, em tecnologia de célula de combustível) - ou a criação de empresas conjuntas, como as que a Stellantis estabeleceu com a Leapmotor, ou o Grupo Renault com a Geely (Horse).
Fonte: The Autopian
Comentários
Ainda não há comentários. Seja o primeiro!
Deixar um comentário