Os SUV parecem ter ocupado quase todo o espaço no mercado, mas o ELO, o mais recente protótipo da Citroën, vai contra a corrente ao recuperar a antiga fórmula do monovolume (ou MPV) compacto - e ao reinterpretá-la para o século XXI.
Com 4,10 m de comprimento - tanto quanto um C3 -, exibe proporções típicas de MPV e pode chegar a oferecer seis lugares distribuídos por duas filas. É impossível não lembrar o FIAT Multipla dos anos 90, um exercício tão inteligente quanto controverso: seis lugares em menos de quatro metros e um desenho que continua a dividir opiniões. É, no mínimo, curioso que, dentro do grupo Stellantis, seja precisamente a Citroën a voltar a apostar nesta ideia.
A diferença essencial entre o ELO e o Multipla está no tempo em que surgem: aqui, a base é uma plataforma 100% elétrica e o habitáculo foi concebido como um “microapartamento” com rodas, mais próximo de um pequeno espaço doméstico do que de um automóvel convencional.
Pequeno por fora, enorme por dentro
É pouco provável que o Citroën ELO chegue tal e qual à produção, mas funciona como um laboratório móvel para soluções que poderão aparecer em futuros modelos da marca.
O motor elétrico está instalado no eixo traseiro, o que liberta volume na frente e permite uma carroçaria curta, com as rodas encostadas aos extremos e uma altura generosa (1,70 m). O resultado é um aproveitamento exterior/interior que a Citroën não hesita em classificar como “imbatível” no universo dos monovolumes compactos.
A disposição dos bancos também marca a diferença. De origem, o Citroën ELO surge com quatro lugares e, ao contrário do Multipla, coloca o condutor ao centro, numa posição avançada e rodeada por amplas superfícies envidraçadas - quase como conduzir dentro de um aquário panorâmico.
Na zona traseira, três lugares com a mesma largura asseguram espaço real para adultos, e os bancos laterais escondem ainda dois assentos extra que podem ser abertos, perfazendo seis lugares no total, sem comprometer a capacidade da bagageira.
Sem túnel central e com piso totalmente plano, circular no interior torna-se simples, quase como num pequeno estúdio sobre rodas. As quatro portas abrem em sentidos opostos e, graças à ausência de pilar central, criam uma abertura lateral enorme de 1,92 m. É uma solução pouco comum - tal como o Multipla foi no seu tempo.
DESCANSO, LAZER, TRABALHO: um carro para o dia inteiro
Com o ELO, a Citroën não pretendeu limitar-se a criar um veículo para transportar pessoas. A proposta passa por organizar o tempo de quem o utiliza, resumindo o conceito em três palavras: DESCANSO, LAZER e TRABALHO, as diferentes “vidas” deste protótipo. É também destas três palavras que nasce o nome: dEscanso, Lazer, trabalO.
No modo DESCANSO, o habitáculo torna-se um refúgio compacto. Dois colchões dobráveis, guardados em compartimentos dedicados na bagageira, podem ser insuflados com o compressor integrado e montados no interior, formando uma cama para duas pessoas.
As luzes interiores traseiras assumem a função de candeeiros de mesa de cabeceira e existem até bases de montagem (inspiradas nas pranchas de paddle da Decathlon, uma das parceiras no desenvolvimento deste protótipo) para fixar um projetor e ver um filme num ecrã retrátil.
Em modo LAZER, o Citroën ELO transforma-se numa base para atividades ao ar livre. Os três bancos traseiros são amovíveis e convertem-se em cadeiras para piqueniques improvisados; há pontos de fixação para montar toldos em ambos os lados; e o sistema V2L permite alimentar equipamentos como um grelhador elétrico ou uma coluna de som. O compressor, por sua vez, também serve para encher pranchas, boias ou pneus de bicicleta.
Já no modo TRABALHO, o banco do condutor roda 360° e passa a funcionar como cadeira de escritório. Uma mesa escondida debaixo do assento central da segunda fila sai para apoiar o portátil, enquanto a projeção de informação no para-brisas passa a exibir agendas, chamadas e videoconferências.
O raciocínio é direto: se o carro passa 95% do tempo parado, então faz sentido que consiga servir para mais do que apenas ocupar espaço.
Materiais à prova de vida real
O Citroën ELO serve igualmente como plataforma de ensaio para materiais mais sustentáveis e fáceis de cuidar. A Citroën trabalhou com a Decathlon e com a Goodyear no desenvolvimento de revestimentos resistentes, laváveis e preparados para uma utilização “de campo”: desde feltros reciclados do anterior protótipo Oli - que tivemos oportunidade de conduzir - reaproveitados como caixas de arrumação, até plásticos reforçados e tecidos que não se incomodam com lama, areia ou água salgada.
Os para-choques e as proteções dos guarda-lamas recorrem a polipropileno expandido, o mesmo material usado nos capacetes de bicicleta da Decathlon: leve, reciclável e adequado para aguentar pequenos toques urbanos.
Quanto aos pneus, criados pela Goodyear, são “inteligentes”: acompanham a pressão e o desgaste em tempo real e usam um LED integrado na jante para alertar caso algo não esteja correto.
Quando chega?
Ao contrário de muitos carros de exposição, que no fundo são modelos de produção com adereços mais chamativos, o Citroën ELO é um verdadeiro protótipo conceptual, ao ressuscitar a ideia de MPV compacto. Por isso, tal como aconteceu com o Oli, vale a pena encará-lo como um concentrado de soluções que poderão surgir nos próximos modelos da marca francesa.
A primeira apresentação pública do ELO está marcada para o Salão de Bruxelas, a 9 de janeiro, e surpreende precisamente por ser a Citroën a recuperar esta fórmula de carro compacto, prático e… muito diferente - com potencial para gerar tanta polémica como o seu antepassado italiano. Ainda assim, é refrescante perceber que pode existir um futuro em que nem tudo tenha de ser SUV ou derivados.
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