A indústria automóvel europeia enfrenta uma fase exigente desde que entraram em vigor as novas metas de emissões de dióxido de carbono (CO₂) definidas pela União Europeia, aplicadas a partir do início do ano passado. Com regras mais apertadas, os construtores têm vindo a pedir medidas adicionais de apoio para acelerar a adaptação.
Em meados de 2025, o método de cálculo foi ajustado: em vez de uma verificação anual, o cumprimento passou a ser avaliado pela média de três anos - 2025, 2026 e 2027. Apesar desta alteração aliviar a pressão de curto prazo, o setor continua a defender que são necessárias ferramentas complementares para garantir uma transição viável.
Conformidade com as metas de emissões de CO₂ (2025–2027), segundo a T&E
Uma análise recente da T&E (Transportes & Ambiente) indica que o cenário poderá ser menos gravoso do que tem sido descrito por parte da indústria. De acordo com as projeções da organização, a maioria dos grandes grupos automóveis deverá cumprir as metas definidas para 2025–2027, quer de forma autónoma, quer através de agrupamentos de emissões (mecanismos em que várias marcas somam resultados para cumprir o objetivo conjunto).
No detalhe, a T&E aponta que:
- Grupo BMW: apresenta o quadro mais confortável. Depois de já ter atingido os objetivos no ano passado, deverá chegar a 2027 com cerca de 14 g/km abaixo do limite aplicável.
- Grupo Volkswagen: tende a ficar muito próximo do valor-alvo, posicionando-se praticamente no limiar do cumprimento, com emissões quase alinhadas com o objetivo em 2027.
- Mercedes-Benz: surge como a principal exceção. A marca poderá situar-se cerca de 10 g/km acima da meta por quilómetro. No entanto, ao integrar um agrupamento de emissões com a Volvo, o resultado combinado permitir-lhe-á descer para cerca de 8 g/km abaixo do limite, reduzindo o risco de penalizações.
A curto prazo, a pressão regulatória tem também impulsionado decisões industriais: acelerar a eletrificação de gamas, rever estratégias de híbridos e otimizar modelos de maior volume, onde pequenas melhorias de eficiência têm impacto significativo na média global de emissões.
Em paralelo, a previsibilidade das regras torna-se determinante para o planeamento. Para além das metas em si, contam a capacidade produtiva, o acesso a matérias-primas para baterias e o ritmo de adoção pelo consumidor - fatores que podem variar entre países e influenciar o desempenho médio dos grupos ao longo do período 2025–2027.
E se as metas fossem avaliadas já em 2025?
Caso o sistema de apuramento se tivesse mantido anual, como inicialmente estava previsto, vários construtores teriam maiores dificuldades em alcançar os objetivos - mesmo recorrendo a agrupamentos de emissões. Entre os grupos que, nesse cenário, não conseguiriam cumprir estariam:
- Grupo Renault
- Grupo Volkswagen
- Stellantis
- Mercedes-Benz
A consequência seria a aplicação de multas substanciais: por cada grama de CO₂ acima da meta, os construtores pagariam 95 euros por automóvel vendido. Em 2024, a ACEA (Associação dos Construtores Europeus de Automóveis) estimou que, se nada fosse alterado, as penalizações poderiam atingir 15 mil milhões de euros.
Ainda assim, a Stellantis teria uma via de mitigação: ao integrar um agrupamento de emissões com a Toyota e a Tesla, conseguiria evitar penalizações, ficando abaixo do limite - embora com uma margem muito curta.
O que diz a associação e onde, segundo a T&E, falharam as previsões
Segundo a T&E, a narrativa de um “apocalipse financeiro” estaria longe de corresponder ao cenário mais provável. A organização sustenta que parte das projeções da indústria assentou numa suposição frágil: a de que, em 2025, as emissões não melhorariam face ao primeiro semestre de 2024.
Partindo do pressuposto de que as metas seriam aplicadas em 2025 tal como inicialmente previsto, a T&E calcula que a fatura real das multas rondaria dois mil milhões de euros, repartidos entre o Grupo Volkswagen e o Grupo Renault. Para a organização, este valor representa apenas uma pequena fração face aos 15 mil milhões avançados anteriormente pela ACEA.
Comentários
Ainda não há comentários. Seja o primeiro!
Deixar um comentário