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O submarino nuclear soviético K-278 *Komsomolets* está a libertar material radioactivo no fundo do Mar da Noruega

Submarino cinza em águas profundas com robô subaquático amarelo a recolher amostras.

Um levantamento científico concluiu que um submarino nuclear afundado da era da Guerra Fria está a libertar, de forma discreta, material radioactivo nas águas profundas e escuras do fundo do Mar da Noruega.

Trata-se do soviético K-278 Komsomolets, que se afundou em Abril de 1989 na sequência de um incêndio a bordo. No seu interior não se encontrava apenas o reactor nuclear que o propulsionava: transportava também dois torpedos nucleares.

K-278 Komsomolets: o que aconteceu e por que continua a preocupar

O naufrágio do Komsomolets foi uma tragédia que causou a morte da maioria da tripulação e deixou um perigo radioactivo de longa duração a cerca de 1 680 metros (aprox. 5 510 pés) abaixo da superfície, numa zona do Mar da Noruega mergulhada em escuridão permanente.

Desde a década de 1990, a monitorização contínua dos destroços tem indicado fugas radioactivas intermitentes. As primeiras inspecções revelaram danos consideráveis: o casco estava fendido e a água do mar encontrava-se em contacto com os torpedos nucleares.

Em 1994, foi realizado um trabalho importante para vedar o compartimento de torpedos danificado. Desde então, não foram detectados indícios de fuga de plutónio de grau militar no ambiente circundante.

Ainda assim, investigações anuais conduzidas pelo Governo norueguês identificaram isótopos radioactivos de césio na água em redor do submarino.

O levantamento com o veículo operado remotamente Ægir 6000 (2019)

Em 2019, uma equipa de cientistas realizou uma campanha de grande dimensão no local, recorrendo a um veículo operado remotamente (ROV) denominado Ægir 6000. O objectivo foi recolher amostras de água e de organismos vivos nas imediações do Komsomolets, bem como avaliar o estado físico do próprio navio.

Nessa altura já era evidente que existia libertação de radioactividade. Agora, com a análise concluída, o radioecologista marinho Justin Gwynn, da Autoridade Norueguesa de Segurança Radiológica e Nuclear (Centro Fram), e os seus colegas conseguiram medir a fuga, identificar a sua origem e descrever os efeitos no ecossistema do fundo marinho.

Fugas esporádicas: de onde vêm e o que contêm

De acordo com os resultados, a libertação não é contínua: ocorre em episódios irregulares, a partir de pontos específicos ao longo do casco - incluindo um tubo de ventilação e a zona junto ao compartimento do reactor. O ROV registou em vídeo plumas visíveis a escaparem para a água do mar.

As amostras dessas plumas mostraram a presença de isótopos de estrôncio, césio, urânio e plutónio. Muito perto da embarcação, os investigadores indicam que os níveis de estrôncio e césio eram, respectivamente, 400 000 e 800 000 vezes superiores aos valores típicos destes radionuclidos no Mar da Noruega.

Além disso, as concentrações elevadas e as proporções medidas de urânio e plutónio sugerem que o combustível nuclear no interior do reactor está a sofrer corrosão activa.

Apesar disso, bastam poucos metros de afastamento para a contaminação radioactiva descer de forma acentuada, o que aponta para uma dissipação rápida destes isótopos na água circundante.

Os autores referem que as libertações a partir do reactor acontecem há mais de 30 anos, mas que existe pouca evidência de acumulação de radionuclidos no ambiente imediato do submarino, aparentemente porque a radioactividade libertada é rapidamente diluída pela água do mar em volta.

Impacto nos organismos e no sedimento: sinais limitados, mas vigilância necessária

A equipa analisou também esponjas, corais e anémonas que vivem e crescem sobre os destroços. Estes organismos exibiram níveis ligeiramente acima do normal de césio radioactivo, porém sem sinais óbvios de deformações ou de outros danos visíveis. O sedimento envolvente, por sua vez, revelou poucos indícios de contaminação.

Entretanto, a intervenção anterior destinada a vedar o compartimento dos torpedos mantém-se eficaz.

O quadro é inquietante: por um lado, sugere que, até ao momento, o impacto directo do naufrágio terá sido reduzido; por outro, recorda que sabemos muito pouco sobre a vida marinha a estas profundidades e sobre como exposições crónicas podem afectar ecossistemas pouco estudados.

Um risco que aumenta com o tempo no ambiente batipelágico

O Komsomolets repousa nas profundezas gélidas e de elevada pressão do mar batipelágico - um cenário extremamente difícil de alcançar por humanos, onde qualquer tentativa de reparação exige planeamento minucioso e soluções de engenharia altamente especializadas.

Embora seja positivo que as medidas aplicadas no passado continuem a funcionar, os investigadores sublinham que um submarino partido no fundo do mar tende a perder integridade estrutural com o passar do tempo, mantendo em aberto preocupações sobre a evolução futura do local e do material nuclear que permanece a bordo.

Como aspecto adicional, importa considerar que a dinâmica das correntes e a composição química da água em grande profundidade podem influenciar a forma como certos radionuclidos se dispersam e se fixam em partículas, afectando a sua permanência na coluna de água e a eventual deposição em sedimentos - factores críticos para estimar riscos a médio e longo prazo.

Também é relevante acompanhar possíveis vias de transferência na cadeia alimentar local: mesmo quando a água apresenta diluição rápida, alguns elementos podem ser incorporados por organismos filtradores e, indirectamente, circular entre espécies, o que reforça a necessidade de séries temporais de dados biológicos e geoquímicos consistentes.

Próximos passos e importância para outros reactores submersos

Os autores defendem que devem ser feitas investigações adicionais para esclarecer os mecanismos por trás das libertações observadas, os processos de corrosão em curso no reactor e o que isso significa para futuras libertações e para o destino do material nuclear ainda existente no reactor.

Segundo a equipa, o Komsomolets constitui uma oportunidade singular para compreender os riscos e as consequências de libertações provenientes de outros reactores afundados ou descartados no Árctico, bem como para avaliar perigos associados a eventuais acidentes futuros com embarcações de propulsão nuclear e outras tecnologias nucleares usadas no mar. Por essa razão, sublinham, é essencial manter a monitorização contínua do estado e da situação do submarino.

As conclusões foram publicadas na PNAS.

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