Pela primeira vez de que há registo, robôs humanoides armados estão a ser utilizados num cenário de combate real. A startup norte‑americana Foundation enviou para a Ucrânia, em fevereiro de 2026, duas unidades Phantom Mk‑I. A empresa diz que uma versão mais avançada deverá chegar ao terreno em abril.
A informação foi avançada pela revista Time e caiu como uma bomba: desde fevereiro de 2026, dois robôs humanoides armados operam na linha da frente ucraniana. O fabricante é a Foundation, uma startup sediada na Califórnia e criada por Mike LeBlanc, ex‑fuzileiro (Marine) com mais de 300 missões de combate no Iraque e no Afeganistão.
Robôs humanoides armados Phantom: o que é o Phantom Mk‑I
O modelo atualmente destacado chama‑se Phantom Mk‑I. Com corpo em aço negro, viseira escurecida e cerca de duas dezenas de motores, foi desenhado a pensar no campo de batalha. É capaz de manusear revólveres, pistolas semiautomáticas, caçadeiras e M‑16.
Para já, as duas unidades enviadas para a Ucrânia estão limitadas a tarefas de reconhecimento na primeira linha - embora seja difícil ignorar o que este tipo de tecnologia poderá significar a seguir.
LeBlanc defende a decisão com um argumento direto: “É um imperativo moral”. Na sua perspetiva, colocar máquinas em risco em vez de soldados não é um desvio, mas sim uma evolução necessária. Esta lógica encaixa na ambição ucraniana de tornar as forças armadas progressivamente mais robotizadas. O novo ministro da Defesa em Kiev tem apelado publicamente a uma “digitalização” do aparelho militar, com “mais robôs” para “menos perdas”.
Ainda muito longe do Terminator
No papel, o Phantom Mk‑I impressiona; no terreno, a realidade é mais modesta. A velocidade máxima fica nos 1,7 m/s, ou seja, pouco mais de 6 km/h. A autonomia situa‑se entre duas e quatro horas em utilização intensiva. E há um problema crítico: a chuva e a lama são inimigos sérios, aumentando o risco de curtos‑circuitos quando o tempo piora - algo frequente numa grande parte do ano na Ucrânia.
Existem ainda limitações associadas à IA a bordo. Os modelos podem sofrer de enviesamentos algorítmicos e até “alucinações”. Em termos simples, o robô pode tomar decisões erradas com base em perceções incorretas. Num contexto civil, este tipo de falha já é preocupante; num campo de batalha, pode tornar‑se catastrófica.
Há também uma dimensão pouco discutida: a cibersegurança. Em ambientes de guerra eletrónica, qualquer plataforma conectada - mesmo que de forma limitada - pode ser alvo de interferência, tentativas de intrusão ou sabotagem. A robustez do hardware conta, mas a cadeia de atualizações, autenticação e controlo é igualmente determinante quando se colocam armas nas mãos de um sistema autónomo ou semi‑autónomo.
Um novo modelo em abril de 2026: Phantom Mk‑II
Para responder a estas falhas, a Foundation anunciou o Phantom Mk‑II para abril de 2026. Entre as melhorias prometidas estão estanquidade total, uma bateria de maior capacidade e uma carga útil elevada para 80 kg. Isso abre a porta a missões de maior exigência logística - reabastecimento e evacuação de feridos - além do reconhecimento.
Na prática, mesmo que o discurso público se foque em reduzir baixas, a adoção de plataformas humanoides no terreno implica uma nova cadeia de suporte: peças sobresselentes, manutenção em condições adversas, formação de equipas para operar e recuperar unidades danificadas e procedimentos claros sobre quem autoriza, valida e interrompe uma ação quando a situação muda em segundos.
Ambições industriais, contratos militares e o fator político
A estratégia comercial da Foundation é ambiciosa: 30 000 unidades por ano, com um preço‑alvo inferior a 20 000 dólares por unidade (cerca de 18 000 €, dependendo do câmbio). A startup já soma 24 milhões de dólares em contratos de investigação com o Exército, a Marinha e a Força Aérea dos Estados Unidos.
Estão também previstos testes com o Corpo de Fuzileiros Navais (operações de abertura de brechas envolvendo explosivos) e com o Departamento de Segurança Interna (vigilância da fronteira sul dos EUA).
Entre investidores e conselheiros estratégicos da Foundation surge Eric Trump, o segundo filho de Donald Trump. Isto volta a alimentar polémicas sobre possíveis conflitos de interesse e sobre a proximidade entre o presidente norte‑americano e empresas das quais ele - ou pessoas próximas - possam beneficiar.
A caixa de Pandora está aberta
Para lá das controvérsias políticas, o destacamento do Phantom Mk‑I reabre debates que a comunidade internacional ainda não conseguiu fechar. Não existe uma convenção internacional especificamente dedicada a robôs humanoides armados. O precedente ucraniano pode, assim, normalizar o seu uso muito antes de existirem enquadramentos jurídicos consolidados.
Vários especialistas sublinham um risco estrutural: se um Estado puder conduzir operações de grande escala sem baixas humanas do lado atacante, o limiar para iniciar conflitos pode baixar de forma significativa.
Outra preocupação é a proliferação. Quase toda a tecnologia militar acaba por se massificar. O que hoje custa 20 000 dólares pode ser produzido em série, por exemplo na China, dentro de cinco anos e tornar‑se acessível a grupos armados não estatais, cartéis ou milícias. Com isso, a barreira tecnológica que ajuda os Estados a manter o monopólio da violência legítima tende a erosionar‑se.
Mike LeBlanc, por sua vez, já descreve a guerra do futuro como uma “batalha de dróides”: um confronto económico em que se contariam máquinas destruídas em vez de vidas perdidas. É improvável que James Cameron tenha antecipado que o seu Terminator pudesse, um dia, deixar de ser apenas ficção.
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