As metas de emissões definidas pela União Europeia (UE) para o ciclo de 2025-2027 estão a intensificar a pressão sobre todos os construtores automóveis - e a Nissan não foge à regra. Para evitar multas por incumprimento, a marca japonesa optou por uma solução que se tem tornado cada vez mais comum no sector: formar agrupamentos de emissões com outro fabricante.
Metas de emissões da UE e o risco de multas
Em março, a UE comunicou uma alteração ao método de cálculo das emissões de CO₂ (ciclo WLTP), concedendo aos construtores um horizonte de três anos para cumprir os objectivos. Assim, em vez de a média de 93,6 g/km de CO₂ (WLTP) ter de ser alcançada até ao final do ano, passa a contar a média conjunta de 2025, 2026 e 2027.
Ainda assim, o patamar continua a colocar vários fabricantes em risco de falhar os limites. O tema é explicado no episódio n.º 71 do Auto Rádio.
Caso não cumpram, as marcas ficam sujeitas a pagar 95 euros por cada automóvel e por cada grama de CO₂ acima do limite estabelecido pela UE. Não surpreende, por isso, que aumente o número de construtores a procurar acordos para diluir emissões no cálculo.
Segundo a ACEA (Associação Europeia de Fabricantes Automóveis), antes da alteração do cálculo, estimava-se que as penalizações por incumprimento pudessem atingir os 15 mil milhões de euros.
Agrupamentos de emissões (pools de emissões): como funcionam
Os agrupamentos de emissões, também conhecidos como pools de emissões, são um mecanismo previsto pela UE para apoiar os construtores no cumprimento das metas de emissões e, simultaneamente, reduzir o risco de multas elevadas.
Na prática, um fabricante com maior probabilidade de incumprimento pode associar-se a outro que esteja abaixo dos limites - e, dessa forma, as emissões de ambos passam a ser apuradas em conjunto para efeitos de conformidade.
Importa notar que estes acordos não eliminam a necessidade de transformar a oferta: funcionam, sobretudo, como uma ponte financeira e regulamentar enquanto as gamas se ajustam (com mais eléctricos e híbridos plug-in), evitando penalizações imediatas que poderiam travar investimento em produto e tecnologia.
Nissan junta-se à BYD em 2025
Para o ano de 2025, a Nissan decidiu avançar com um agrupamento fora dos parceiros habituais da Aliança. Em vez de se associar ao Grupo Renault e à Mitsubishi (como em anos anteriores), a Nissan vai agrupar-se com a chinesa BYD, de acordo com um documento divulgado na semana passada.
A opção pela BYD é, em termos de lógica de emissões, fácil de perceber: na Europa, a marca chinesa comercializa exclusivamente eléctricos e híbridos *plug-in, o que lhe permite gerar *créditos de carbono** em excesso e, por conseguinte, disponibilizá-los para acordos deste tipo. Até agosto deste ano, a BYD tinha vendido 95 473 automóveis, dos quais cerca de 60% eram eléctricos e os restantes híbridos *plug-in*.
Um porta-voz da Nissan explicou à Automotive News Europe que, “após uma avaliação cuidadosa de potenciais parceiros, a BYD foi a escolhida devido à sua disponibilidade de créditos e à sua competitividade global”. O mesmo responsável acrescentou que o entendimento “permite-nos avançar de forma sustentável na nossa transição para as emissões zero”. O agrupamento entre a Nissan e a BYD é válido para 2025.
Este tipo de parceria também tende a influenciar decisões comerciais: um construtor que esteja perto do limite pode ajustar o mix de vendas (por exemplo, privilegiando versões electrificadas) e recorrer aos créditos de carbono do parceiro para gerir picos de procura por modelos com maior emissão, mantendo a conformidade no cálculo global.
Outros agrupamentos de emissões já anunciados
Para além do acordo entre Nissan e BYD, já são conhecidos vários outros agrupamentos de emissões no mercado europeu:
- Em janeiro, foi indicado que Stellantis, Toyota, Ford, Subaru e Mazda pretendem juntar-se à Tesla.
- A Mercedes-Benz anunciou que se iria associar à Volvo.
- Mais recentemente, a KG Mobility (antiga SsangYong) comunicou que irá agrupar-se com a chinesa XPeng, fabricante de veículos eléctricos, com o objectivo de cumprir as metas de emissões.
De acordo com a informação disponível, eventuais novos acordos entre outras marcas deverão ficar fechados até 31 de dezembro de 2025.
Não é um fenómeno novo: o precedente de 2020/2021
Este movimento não começou agora. Em 2020/2021, vários construtores também recorreram a pools de emissões para cumprir as metas então em vigor. Um dos casos mais mediáticos foi o da antiga FCA (Fiat Chrysler Automobiles), que associou as suas contas às da Tesla. O montante pago pela primeira à segunda terá contribuído para financiar a construção da fábrica da Tesla na Alemanha.
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