Saltar para o conteúdo

Museu das Lembranças em Chatila: Ali Al Khatib e a memória palestiniana

Idosa ensina menina a costurar numa máquina antiga, com fotografias antigas sobre a mesa.

Museu das Lembranças de Chatila: resistência e arquivo

No interior do campo de refugiados de Chatila, existe um museu pequeno onde se guardam marcas profundas de um povo que continua a reclamar o direito de existir. É Ali Al Khatib quem conduz esta visita: nasceu em El Jalsa, na Galileia, no norte da Palestina, hoje junto à fronteira com o Líbano. O encontro com o Expresso aconteceu nos corredores estreitos e entrecruzados que acolhem cerca de 25 mil palestinianos nos subúrbios a sul de Beirute.

Para Ali, aquele espaço está longe de ser apenas uma sala cheia de relíquias: funciona como resposta ao desaparecimento forçado da memória. “O meu irmão dizia que não podíamos deixar que as coisas palestinianas se perdessem. Isto faz parte da nossa cultura”, recorda, ao explicar como nasceu o conjunto reunido pelo irmão, Mohammad al-Khatib, em 2004, numa altura em que trabalhava na Organização das Nações Unidas (ONU).

Um acervo feito de perdas e deslocações

A história familiar, tal como a de tantas outras, compõe-se de fugas sucessivas, mortes e recomeços - e de objectos aparentemente simples que passam a carregar a lembrança do que foi arrancado. Entre esses símbolos está uma máquina de costura Singer italiana, pertença da mãe, Fátima.

Em Nabatieh, durante um bombardeamento que matou o pai de Ali a 16 de maio de 1974, Fátima conseguiu resgatar a máquina no meio do caos. “A minha mãe conseguiu salvar a máquina de costura e levou-a para outro campo aqui, chamado Tal al-Zaatar.”

A memória costurada: a Singer de Fátima

A tragédia, porém, regressou pouco tempo depois. Em 1976, no massacre de Tal al-Zaatar levado a cabo por milícias falangistas cristãs maronitas, outro irmão de Ali morreu e a máquina desapareceu. Com a voz a pesar, Ali revive a cena: “A minha mãe ficou muito triste, porque também perdeu a máquina. O meu irmão comprou outra, mas ela dizia: ‘Não é a mesma coisa. A outra era melhor, porque era original’.”

Já em Chatila, a família voltou a ser atingida pela violência em 1982, durante o massacre que ficaria conhecido mundialmente. Nessa altura, um dos irmãos trabalhava no hospital do Crescente Vermelho Palestiniano e, ao ver os soldados a aproximarem-se, teve uma intuição imediata. Quando os viu entrar, avisou quem estava por perto: “Saiam daqui, vai haver um massacre.”

O hospital situava-se na estrada Beirute-Damasco, mesmo à entrada do campo. Alguns profissionais hesitaram, acreditando que o estatuto de médico os pouparia. Ainda assim, esse irmão e mais dois conseguiram fugir pela parte de trás. “Só três sobreviveram. Os outros foram assassinados”, diz Ali, com uma tristeza evidente.

O massacre de Sabra e Chatila refere-se ao assassínio de civis palestinianos e libaneses em 1982, no contexto da invasão israelita do Líbano e com o apoio de milícias maronitas aliadas de Israel. Nos campos de refugiados, calcula-se que o número de mortos tenha ultrapassado os três mil. “Esse meu irmão, que criou o museu, estava em Cuba em 1982. Por causa da guerra, eu também estava fora de Beirute, no Vale do Bekaa, pois queriam impedir que mais gente entrasse na capital.”

Uma catástrofe que se repete

Ali Al Khatib nasceu num dos primeiros campos de refugiados palestinianos criados durante a Nakba - palavra árabe que significa “catástrofe”. Entre 1947 e 1949, esse período ficou marcado pela expulsão de mais de 750 mil palestinianos das suas casas. Cerca de 500 aldeias foram destruídas para dar lugar ao que hoje se conhece como o Estado de Israel.

Ao abordar as origens do conflito, Khatib não contorna a atribuição de responsabilidades históricas. “Os ingleses são os principais culpados pela Nakba. Quando ocuparam a Palestina, já tinham um plano: não apenas ocupar o território, mas entregá-lo aos sionistas”, afirma, evocando a carta do então ministro dos Negócios Estrangeiros britânico, Arthur James Balfour, datada de novembro de 1917, que, na sua leitura, prova essa intenção.

“Não se trata simplesmente de judeus, mas de sionistas.” Ali sublinha que existiam judeus palestinianos que se colocavam do mesmo lado. “Eles diziam-nos em 1948: ‘Não saiam daqui. Essa gente vem de fora e vai destruir-nos a todos. Vamos permanecer juntos’.” Enquanto aponta para o quadro da “verdadeira Palestina”, colocado no centro do museu, explica o pano de fundo histórico que, na sua perspectiva, é frequentemente deixado de fora.

“A luta começou em 1920, pelo menos na nossa região. Naquela época, os sionistas ainda não eram muito fortes. Os ingleses eram os mais poderosos. Eles davam armas, treino e proteção aos sionistas.” Mais tarde, em 1936, a resistência ganhou força após a morte de Al-Qassam, um líder sírio activo na Palestina, desencadeando a primeira grande revolta palestiniana, que se estendeu até 1939.

Questionado sobre se o Líbano vive, hoje, algo comparável a uma Nakba, Ali identifica semelhanças entre épocas. “Claro que vive, mas agora as pessoas têm mais consciência”, considera, lembrando que, antes dos ingleses, a região esteve sob domínio otomano, com disputas sobretudo entre turcos, ingleses e franceses. “Alguns dos nossos serviam no exército turco por obrigação. A nossa luta direta começou de facto com a ocupação britânica, quando combatíamos simultaneamente ingleses e sionistas.”

“Aqui seguimos com a nossa luta”

Em 1947, com a partilha aprovada pela ONU - que previa dois Estados, um árabe e um judeu -, a guerra tornou-se, para Ali, inevitável. “Muitos judeus também eram árabes. O nosso povo não aceitou essa divisão, pois queríamos uma Palestina para todos.”

À medida que apresenta as peças do museu - entre as quais espadas, grandes facas e outras armas antigas de cobre, produzidas na região do Levante palestiniano (Cisjordânia, Faixa de Gaza e parte da Palestina ocupada por Israel) -, Ali insiste que, em 1948, os israelitas já dispunham de capacidade militar. Na sua versão, os ingleses, prestes a abandonar a zona, entregaram o armamento aos israelitas. “Foi então que começou a grande guerra entre nós e eles.”

“Os exércitos árabes vieram ajudar-nos, mas fracassaram. Perdemos a guerra em 1948. Muitos dos comandantes desses exércitos eram ingleses ou franceses e, por isso, os planos militares acabavam por ser revelados. Depois disso, o nosso povo foi disperso pelo Líbano, Síria, Jordânia e Egito.”

No meio de tragédias colectivas que se misturam com o percurso pessoal de Ali Al Khatib e de Mohammad al-Khatib, o Museu das Lembranças mantém-se como referência para os palestinianos - e como alerta para quem o visita. “Eu lembro-me da Nakba e da morte do meu pai. A catástrofe é recordada no dia 15 de maio, e o meu pai morreu num bombardeamento no dia 16 de maio de 1974.”

Por ter estudado em Cuba, Ali relata a versão palestiniana dos acontecimentos num espanhol irrepreensível. No exterior, crianças atravessam o beco, intrigadas com a movimentação. À entrada, as bandeiras da Palestina e do Líbano continuam lado a lado, presas a paredes secas e gastas. Com marcas de humidade, são testemunhas de um lugar que quase não recebe sol, mas onde não falta acolhimento. Antes da despedida, Ali serviu-nos café árabe, feito numa pequena cozinha improvisada dentro do museu, e deixou a frase como promessa: “E aqui seguimos com a nossa luta.”

Comentários

Ainda não há comentários. Seja o primeiro!

Deixar um comentário