1. Lisboa Vhils
No Palácio de Belém, o Presidente da República deixa um retrato que é, ao mesmo tempo, um recorte de cidade. E não há melhor imagem da política do que a própria cidade. Optar por um muralista itinerante da arte urbana para fixar a figura presidencial é, por si só, um gesto de criação política. Nada de academismos emoldurados a ouro com barroquismos de circunstância. Entrar num museu e encarar os restos do tempo político convertidos em sugestão de personalidade é um exercício de inteligência - e também de subversão.
Confesso: a ideia de um ensaio sobre uma Lisboa política sempre presente, mas descrita como ausência persistente através da sobreposição de camadas, perseguia-me a imaginação. Em política, uma cidade sem passado é uma cidade sem futuro. Isto não é uma apologia do passado nem uma utopia do porvir. E, pela mesma lógica histórica, um político sem passado é um político sem futuro.
O retrato de Vhils acaba por funcionar como narrativa de um historiador urbano que, camada após camada e pela via da destruição criativa, faz emergir dos muros uma história esquecida sob infinitas sobreposições. Em cada traço de um rosto gravado na cidade acumulam-se séculos que só o futuro consegue expor. E quando o futuro revela a espessura do passado, revela igualmente a dimensão de uma identidade política.
Se olharmos com atenção para o retrato, percebemos o método: Vhils parte da técnica dos cartazes de rua. Começa por reunir uma verdadeira biblioteca de memória extraída de notícias e folhas de jornal dos últimos dez anos. Essas películas de jornal vão-se empilhando em estratos, como um registo geológico do tempo político. Sobre essa pele feita de publicidade, factos, notícias e opinião, o artista remove o excesso de papel com linhas suaves, como quem percorre as rugas do tempo inscritas num rosto. A imagem final surge precisamente nos intervalos deixados pelo papel retirado. A cumplicidade dessas linhas nasce da acumulação - e da profundidade - do tempo depositado em cada camada de jornal.
Assim, o rosto do Presidente da República não é apenas o rosto do Presidente da República. É, literalmente, a representação do tempo político de uma década. Integra, de forma material, o mesmo tempo histórico que dá às cidades como Lisboa uma patine política intemporal.
Para lá das placas evocativas de políticos esquecidos, condenadas ao terceiro andar de edifícios devolutos, a arquitectura pública de Lisboa permanece um enigma. A cidade política não tem a inspiração clássica do fórum romano, nem uma estrutura florentina com pormenor gótico manuelino, nem o distanciamento frio da imponência brutalista, nem grandiosidade imperial, nem uma originalidade integrada de condição pós-moderna. Em Lisboa, a unidade essencial da arquitectura política é o Palácio e o Convento.
A política portuguesa habita espaços reciclados pelo tempo e pelas vicissitudes históricas da cidade. A modernidade da Lisboa política é, afinal, a persistência da sua antiguidade. A cidade política parece um vitral pousado sobre uma calçada de tinta e estuque, na sobreposição infinita de camadas nos edifícios da memória. O retrato de Vhils torna-se, por isso, a imagem por excelência de uma Lisboa política que se esconde de si mesma, mudando a máscara do rosto conforme os tempos.
Em Lisbonne la Bonne não há política porque a política não vende souvenirs. Entre o café-jazz e a leitaria de bairro vai a distância entre o passado e o presente
Lisboa é uma cidade saturada de história política, mas a política insiste em empurrá-la para um passado morto. O que hoje se vê é o som industrial dos trolleys dos turistas, o silêncio eléctrico das bicicletas Uber dos imigrantes, o Grand Prix dos expats instalados em enclaves prósperos à procura do paraíso fiscal, as figuras estreitas de portugueses esticados no aquário dos transportes públicos, presos à rotina cansada dos subúrbios - enfim, as notas silenciosas de uma cidade que morre devagar, todos os dias.
Em Lisbonne la Bonne não há política, porque a política não vende souvenirs. Entre o café-jazz e a leitaria de bairro com figuras de convite pintadas nos azulejos da parede mede-se a distância entre passado e presente: a leitaria de bairro transformou-se em café-jazz e perdeu a película dos galões em mesas de pedra, ao som monocrómico de um rádio que debitava fados e notícias. O fado que hoje é Património Imaterial da UNESCO e da Humanidade.
A Lisboa sórdida, pobre, miserável, é uma Lisboa política. A Lisboa vintage, internacional, rica, é uma Lisboa política. As duas persistem entre nós e pertencem tanto à Lisboa que morreu como à Lisboa que nasceu.
Numa das portas da Estação do Rossio há um Stolpersteine sujo, quase escondido, a assinalar a presença dos judeus da Europa na Lisboa dos anos 40 do século XX. Refugiado é uma categoria política, e Lisboa foi o último porto livre da Europa. Stolpersteine significa “pedra de tropeço”: pedras colocadas no passeio, cobertas por uma placa de latão com o nome e a circunstância de quem fugia da política.
Em Berlim, as pedras da memória brilham com uma luz septicolor feita de tempo, história e política dos homens. Não são um obstáculo à livre circulação; são antes uma película que, através do olhar, inscreve a existência de um europeu como nós nos dias em que a política tocou os limites da desumanidade. O Stolpersteine é o obstáculo que interrompe a fluidez do presente para nos obrigar a pensar com o coração e a sentir com a inteligência.
A Estação do Rossio não é apenas a placa giratória de uma realidade anónima e suburbana. É também a porta por onde entrou toda a política da Europa. Mas hoje não. Sento-me na esplanada da Starbucks a observar o movimento da civilização.
2. Avenida Benformoso
As manifestações descem a Avenida da Liberdade; a polícia sobe a Rua do Benformoso. Descer é o privilégio de quem decide como cidadão. Subir é o destino de quem vagueia sem pátria. Estas duas ruas, numa Lisboa transformada, compõem um retrato que a política portuguesa não sabe ler - porque não o sabe compreender.
Na Avenida da Liberdade desfila a nova cidade dos turistas, que alimentam os cofres do Estado e da Câmara com impostos e receitas tomadas por riqueza nacional. Na Rua do Benformoso instala-se a nova cidade dos imigrantes, que levam ao espírito do Estado e da Câmara a necessidade e o desespero, vistos como pobreza da nação.
Entre o cosmopolitismo novo-rico da Avenida da Liberdade e o multiculturalismo pós-colonial da Rua do Benformoso está a realidade de uma Europa desconhecida do provincianismo periférico nacional. Repete-se o desencontro clássico de duas nações que não se conhecem, não se cruzam e apenas se vigiam à distância higiénica do preconceito. É nesse intervalo entre dois mundos que a política se perde - e nos faz perder.
Fica o mito de um país orgulhoso, senhor de tanto passado, nação que deu mundos ao mundo, mas que afinal não passa de um país miseravelmente míope. Entre a Lisboa parque temático e a Lisboa gueto pós-colonial, onde cabem os portugueses? Que visão existe para o Portugal do futuro?
A política portuguesa está encostada à parede. E está encostada à parede porque não tem resposta política para o enclave turístico, nem para o gueto imigrante, nem para a vida portuguesa. Colonizados pelos turistas, pressionados pelos imigrantes, acossados pelos portugueses, os discursos refugiam-se no tema da segurança para escapar a uma realidade complexa que lhes foge por entre os dedos.
A segurança torna-se o assunto do momento pela facilidade da cor da pele, pelo desfasamento de costumes, pela urgência de tapar um vazio sem o esforço de pensar politicamente. Portugal muda, Lisboa avança numa progressão revolucionária, enquanto a política se ocupa num teatro de sombras ideológicas, à procura de uma supremacia eleitoral que escapa a todos os partidos.
Para a esquerda, os problemas resolvem-se com a derrota da direita. Para a direita, resolvem-se com a derrota da esquerda. Este maniqueísmo primário reduz a política a um jogo de baixo risco para os políticos e de alto risco para o país. Entre novelas e novelos, há um Portugal desconhecido que se perde, que se afunda, e que não pode esperar nem confiar na inteligência política.
O discurso sobre segurança é um fetiche ideológico e um perigo para a coerência da fábrica social. Tudo soa a sociologia de café, tudo soa a indignação de tabacaria, tudo soa a um coração usado na lapela para impressionar os mais sensíveis. Tudo soa a oportunismo ao serviço da recolha de fundos eleitorais.
A demagogia sobre a segurança, à esquerda e à direita, arrisca transformar-se em profecia autorrealizável. De tanto anunciarem o tema nos palanques, acabam por torná-lo realidade social. E, quando a realidade social rebentar em fumos e chamas nas ruas de Lisboa, teremos escassez de turistas, excesso de imigrantes, e portugueses divididos entre os extremos da esquerda e os extremos da direita.
O colapso será a vitória da sociologia de bolso lida num comboio suburbano. O colapso será a vitória da polícia cercada nas esquadras. O colapso será a invasão do Parlamento por activistas de esquerda e milícias de direita, a destruir o pouco que resta da autoridade da República. Nesse cenário imaginado, a política troca a reverência mística pelo eleitor pela evidência mítica do motim, do tumulto, da revolução.
Quando falta seriedade e bom senso, quando não há inteligência nem visão, quando a política ao centro se converte numa estratégia cínica de manutenção do Governo, a política portuguesa fica encostada à parede. Uma política encostada à parede traduz o predomínio do “marxismo cultural” e do “nacionalismo cultural”. Este maniqueísmo é um risco para a democracia, porque separa os portugueses em dois grupos mutuamente exclusivos.
Basta observar o discurso sobre o passado, onde o frentismo surge como opção ideológica de base natural. Basta observar o discurso sobre o futuro, onde o frentismo volta a impor-se como opção ideológica de base natural. Com esta lógica e este critério, os partidos acabam por escolher os mais sectários, os mais pragmáticos, o expoente da mediocridade. Portugal precisa de revelar o livro secreto do dissidente compilado pela Comissão do Pensamento.
Num tempo em que parece termos acordado a acreditar que a História é um processo irreversível de desmoronamento, o pessimismo desamparado procura explicar-se como o grande mito dos nossos dias. Portugal é atropelado por uma bicicleta infantil. E a bicicleta infantil passa a integrar a história do Portugal contemporâneo.
3. Lisboa Inglória
Viajar para Lisboa e morrer. Para os portugueses, os elevadores servem para subir e nunca para descer. Para os turistas que desciam no elevador da Glória, eram 265 metros de viagem de sonho - de corpo e alma - entre dois tempos de uma cidade desconhecida: o tempo do elevador e a vulgaridade do quotidiano banal.
A travessia pela colina é também o trajecto de uma Lisboa íngreme entre o século XIX e o século XXI. O elevador não liga apenas dois pontos no mapa: cria uma ligação invisível entre passado e presente de uma cidade provinciana vestida de cosmopolita. A maioria dos turistas não percebe que morreu num tempo incerto: uma morte rápida, acontecida no tecido denso de um tempo longo. Começar a morrer no céu do Bairro Alto e acabar de morrer na terra dos Restauradores.
Na discussão pública, o elevador da Glória é tratado como uma máquina. Mas é uma máquina que se colou à identidade de Lisboa: um mecanismo que, com aparência frágil e amarela, transporta um fluido metálico pertencente às fundações da cidade. Na calçada estreita, encontrou lugar na memória como se fosse um monumento natural.
As estátuas estavam vazias de pássaros, porque o colóquio das aves percorria incessantemente a curva da calçada à procura dos dois animais mecânicos que sobem e descem. O silêncio na calçada, o hino das sirenes, as vozes afogadas nos escombros junto à esquina da rua - tudo isso foi visto do ar pelo temperamento das gaivotas, postas como testemunhas mais leves do que o ar.
Na vida da cidade, esses animais mecânicos passaram a integrar o movimento orgânico de Lisboa, como duas criaturas vivas que habitam, tal como qualquer lisboeta, uma rua da cidade. Na lista dos mortos ou dos feridos não aparece a referência às duas cabines do elevador desfeito sem glória.
Uma nuvem leve e morna ocupa a calçada, como se fosse o nevoeiro libertado pelo choque entre dois séculos. Visto da Praça dos Restauradores - com o olhar nivelado pelo chão primitivo da existência banal, reflectido nas montras das lojas de luxo - os portugueses vêem o impensável sem sentir o que pensam.
“Daquilo que está em baixo até ao que fica no alto vão dois carris de metal na calçada de basalto. Desde este lugar sem história até ao lugar na História vão dois minutos no elevador da Glória. De uma existência banal até às luzes da ribalta há dois carris de metal desde a baixa à vida alta. Desde o triste anonimato, desde a ralé e a escória, até à fama e ao estrelato há o elevador da Glória.”
Eis o elevador da Glória convertido em “metáfora poética” para figurar o mecanismo de ascensão social inscrito na fábrica política da cidade. Tão forte é a inscrição do funicular na imaginação e na identidade de Lisboa que ele passa a representar, para quem nele viaja, a ideia de um elevador social que simplesmente não existe na realidade.
Na lista das vítimas mortais contam-se cinco portugueses e onze cidadãos com outras nacionalidades. Talvez esteja aí, na estatística da morte, um retrato da vida de Lisboa. A morte fala a língua universal do silêncio; mas nesse silêncio ainda se pode escutar uma espécie de banda sonora da circulação viva de uma cidade.
A proporção dos mortos espelha, por instantes, a proporção dos vivos. Cinco para onze pode ser a razão exacta que se vê e se ouve na turbulência de uma Lisboa que se vende e se expõe como objecto de consumo imediato. Uma cidade convertida em drama estático, partilhando o destino final da morte.
Todas as vítimas mortais eram viajantes no tempo do elevador da Glória - só que uns faziam a viagem de quem está, e outros a viagem de quem está de passagem. A morte, porém, é viajante eterno: disfarçou-se na brisa marítima do Tejo para se espalhar com sangue pelos princípios da Baixa.
Depois, há o mistério do Largo do Município. O trânsito das marés passa por debaixo da Câmara. A Câmara não revela qualquer simpatia superior e desperta. Vista de fora, parece um edifício numa praça agitada por bichos humanos que fixam a tabuleta à porta, onde as letras se assemelham a móveis deitados, incapazes de formar sentido.
Os uivos metálicos do elevador da Glória perdem-se na simetria da Baixa, sem nunca conhecerem os corredores da Câmara. Na mitologia da cidade não há dragões, mas dois corvos à proa e à popa da nave dos tempos. Pela história e pela tradição, a Câmara é o guardião da memória breve e do passado longínquo.
Ao contemplar o edifício, sente-se apenas que não se sente. E o que se sente é o fluido de uma ciência que anuncia o fim do futuro. O olhar projectado da varanda da Câmara é a imagem de uma cidade com a alma cansada. Lisboa não tem diamantes mínimos nem demónios de papel.
A Câmara tem de ser a coragem de uma cidade e a força de uma cultura. Lisboa não precisa de uma Câmara espectadora das tragédias e notário das circunstâncias.
4. Talvez Abril
Sempre imaginei o 25 de Abril visto de uma varanda no segundo andar do Largo do Carmo. Uma casa esquecida: de dia, residência respeitável; de noite, estabelecimento onde se compravam e vendiam serviços sexuais. A revolução observada por clientes habituais de uma distinta casa de passe. A revolução espreitada por senhoras de vida dupla - de dia secretárias no ministério, de noite funcionárias da conveniência pública.
Um regime bem organizado, com escalas de serviço e belles de jour para cada dia da semana. Descanso ao domingo. Nessa varanda anónima mora a metáfora de um Portugal que pregava a virtude e praticava o pecado - mas com a decência dos bons costumes e o respeito pela família. A proximidade da PIDE, a vizinhança da GNR: símbolos da respeitabilidade de um regime de gravata e colarinho branco.
O cheiro a alfazema, os lençóis bem esticados, as almofadas com fitas de cor, as colchas de chita com barras de flor, e à cabeceira da cama um santo sempre alumiado. Impedidos de voltar à vida normal, imagino os hóspedes presos num tempo sem tempo, enquanto no Largo um capitão da Guiné ocupava o futuro para a memória dos nossos dias.
A farda verde é como o verde da selva: cheira a sangue e suor; cheira ao metal das munições que não atingem espécies exóticas e tropicais, mas que deixaram assinatura na fachada do quartel. Morre-se na selva como o regime veio morrer ao Carmo.
Numa das portas da Estação do Rossio está um Stolpersteine sujo e quase escondido que assinala a presença dos judeus da Europa na Lisboa dos anos 40 do século XX
Alguns soldados bebem galões e comem sandes de queijo. A coluna militar é desordenada, e ao mesmo tempo estrategicamente colocada no caos de uma multidão que veio ver a revolução. O capitão dá ordens pelo megafone. O Presidente do Conselho recolhera-se no Quartel do Carmo para fugir ao destino dos tempos que terminavam.
Talvez, nas horas em que ali esteve, tenha escutado na memória o concerto que Liszt deu no mesmo lugar, em janeiro ou fevereiro de 1845, para glória e aclamação da monarquia. A multidão de Abril de 1974 não quer saber de prelúdios românticos. A multidão, de calças à boca de sino e sapatos compensados, veio assistir ao fim de um filme com 48 anos.
A multidão é o símbolo de um Portugal espantado e surpreendido, movido pela curiosidade de quem quer ver o desastre final entre dois carros num cruzamento da História. O polícia-sinaleiro estava de folga: foi à terra guardar o ouro e confirmar se a mãe ainda estava viva.
As guaritas do Quartel tornam-se púlpitos dos primeiros discursos da revolução. Como se a revolução fosse à beira-mar e os toldos da praia servissem para chamar quem se perdeu no oceano. Da língua portuguesa vê-se o mar, e esta revolução traz as naus de volta, trazendo também aromas de África fechados em helicópteros transformados em insectos mecânicos.
Chega um Mercedes preto; sai um Chaimite sob um fogo de insultos que se transformam em palavras dúcteis como bailarinas, enchendo os céus de Lisboa com a notícia de um novo tempo. Três gotas de um vermelho velho e desmaiado não mancham o chão do Carmo.
Sempre imaginei o 25 de Abril visto através do vidro de uma maternidade. Numa sala branca, com batas brancas móveis, decorada com utensílios metálicos como armas. O 25 de Abril captado pela retina de uma criatura que chega ao mundo na hora exacta da revolução: filhos da madrugada ou filhos da meia-noite.
A revolução fica para sempre reunida, pelos ponteiros do relógio, a um indivíduo único, exclusivo, particular. Pela tirania oculta dos desígnios da natureza, essa criatura passa a estar ligada à história do país, como se os destinos de uma nação pudessem medir-se pelos acidentes de uma vida humana. É como se o nascimento de uma nova vida fosse uma declaração política.
Lá fora, esse novo português era profetizado pela oposição, celebrado em edições de todos os jornais, ratificado pelo discurso de todos os políticos. O olhar dessa pessoa única torna-se o olhar de uma nação inteira: o olhar de multidões que se chocam e se entrelaçam, a convulsão de um tempo revolucionário capturada pelo tempo de uma vida.
Pode uma revolução durar para lá do tempo de uma vida? Claro que sim. E claro que sim porque, a cada vida que passa e se extingue, transita para outra o talismã inicial, fixado no instante da revolução: a minha história é a tua história, certificada pelo pacto de circunstâncias desconhecidas.
Quando escrevo em português, sou prisioneiro desta palavra escrita que compõe a minha identidade. Imaginem, no retrato de um português de meia-idade, o retrato da revolução: a revolução eterna e todo o tempo condensado no rosto de um português.
Com os olhos iluminados por safiras, um português no retrato de Dorian Gray. Com tantas histórias por contar, a revolução na circulação dos oceanos onde o mundo se mantém sempre novo. A talha dourada no tema do tiroliro.
Todos os dias são ocupados por notícias da revolução. Revolução é mudar o conceito do mundo, mudar o conceito do mundo para todos nós. Que acabem as nuvens que pulverizam os dias de Lisboa. Que venham os dias para lá da montra da loja de brinquedos. Que os tuk-tuks se transformem em cápsulas políticas. Que os dias azuis no grande pedestal do Marquês de Pombal possam anunciar para ontem o futuro de Portugal. Até amanhã, camarada.
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