Raízes: Santarém, família e primeiras canções
Ana Deus nasceu em Santarém, no início da década de 60. Cresceu sem irmãos, mas rodeada por muitos animais. Em casa, a mãe era uma leitora voraz e parecia ter resposta para qualquer pergunta. Já o pai gostava de tocar guitarra - e foi a cantar com ele que Ana Deus começou, desde muito nova.
Pouco tempo depois da morte precoce da mãe, causada por doença, saiu de casa. Mudou-se para o Porto e ficou alojada numa instituição chamada “Bom Pastor”. Ainda se inscreveu em dois cursos, mas não terminou nenhum: o chamamento da música falou mais alto.
Ban e a afirmação nos anos 80 e 90
Foi nas décadas de 80 e 90 que se tornou reconhecida como a voz feminina dos Ban, banda que ganhou grande popularidade com canções como “Irreal Social”, “Ritualizar” e “Num Filme sempre Pop”, transformadas em êxitos imediatos e amplamente mediatizados.
Carismática e com uma voz muito própria, Ana Deus tem sabido reconfigurar o seu lugar na música e na arte. Ao longo das bandas por onde passou e dos projectos de índole poética que foi criando, convida-nos a provar a poesia das palavras e a pensar as dores e os paradoxos da sociedade e do mundo, em trabalhos marcados pela qualidade, originalidade e ousadia.
Três Tristes Tigres: discos, regressos e “Arca”
Em 93, Ana Deus juntou-se à escritora Regina Guimarães para dar início ao grupo “Três Tristes Tigres”. Os primeiros temas ficaram registados num “gravador de cassetes rasca”, numa formação que contou, de início, com Paula Sousa nos teclados e, mais tarde, com Alexandre Soares. E quem não se lembra do primeiro hit “O mundo a meus pés”, do álbum “Partes Sensíveis”?
Os Tigres deixaram marca com os seus rugidos em discos como “Guia Espiritual”, “Comum” e “Visita de Estudo”. Muitos anos depois, já quando quase ninguém esperava novo material destas feras, surgiu “Mínima Luz”, em 2020. Mais recentemente, em 2025, chegou “Arca”, com criações tão interessantes e estimulantes quanto as que apresentaram quando apareceram, há mais de 30 anos.
Há temas que entraram de imediato na história da música portuguesa e nas inquietações do presente: “Exodus”, em parceria com “A Garota Não”, onde se ouve a frase urgente - “Todos nascemos migrantes”; e também “Ninguém é uma ilha” e “Guerra”, faixa em que se chega a escutar: “A guerra é tão antiquada, dorme na cova da história.”
Trata-se de um disco lúcido, quase como a anatomia de um tempo: profundo como as melhores obras, crítico e atento às fissuras, feito de letras incisivas, mas nunca panfletárias. Foi um álbum que levou o jornal Expresso a distingui-lo como um dos melhores de 2025 e que rendeu ainda o prémio de melhor banda nos Futuraawards 2026.
Ana Deus afirma que, para si, o essencial é cantar e pensar aquilo que mais lhe dói no mundo, entre guerras novas e injustiças antigas, entre tormentas que regressam. O que pode a arte e a música enquanto resistência e luta subterrânea? Talvez a pergunta mais urgente não seja o que a música pode fazer, mas o que estamos dispostos a escutar e a repensar a partir dela?
Outras bandas e projectos poéticos
Pelo meio destes tempos, em 2011, Ana Deus voltou a surgir com outra banda marcante: os “Osso Vaidoso”, projecto criado a meias com Alexandre Soares, de onde saíram duas pérolas - “Animal”, de 2011, e “Miopia”, de 2016.
Ao longo deste percurso, para lá da parceria mágica com Regina Guimarães, Ana Deus tem cantado e musicado a poesia de muitos outros autores: Alberto Pimenta, Fernando Pessoa, Camilo Pessanha, Bocage, Mário de Sá Carneiro, Natália Correia e Judith Teixeira.
Em paralelo, foi lançando sementes de projectos muito particulares:
- “Bruta”, com Nicolas Tricot, (onde deu um novo palco à poesia de autores internados em hospitais psiquiátricos);
- “Ruído Vário”, com Luca Argel, e canções escritas a partir de poemas de Fernando Pessoa;
- Ou ainda… “Eu fui silêncio” com Marta Abreu, a partir de poemas de autoras que lutaram para que a sua voz saísse da sombra.
“A poesia é a linguagem que melhor a canta? E as canções, as músicas, podem ser uma forma de fazer escutar o que anda esquecido, incompreendido, no silêncio das conversas?”
Estas questões são-lhe lançadas.
Vida, perguntas e o presente
Ana Deus é mãe de 3 filhos, todos do seu companheiro, com quem vive há quase 40 anos. Dois dos filhos estão emigrados, como tantos jovens da sua geração. Este país não é para jovens, não é para velhos, não é para mulheres, não é para artistas, é afinal para quem?
Na conversa, recorda-se também o momento em que Ana Deus participou, há algum tempo, na memorável Carta Branca de “A Garota Não”, no espectáculo “A Vulgar Mulher Extraordinária”, no CCB. Daí nasce a pergunta: que vulgares mulheres extraordinárias tem Ana Deus para contar, nomear ou celebrar? Ana Deus responde.
Neste momento, para além dos vários projectos musicais em curso, Ana Deus está a ensaiar com músicos reclusos na prisão de Custóias e mantém a convicção de que, de alguma forma, a música liberta.
Em suma, Ana Deus - que diz gostar cada vez mais de cantar e de criar - considera-se uma mulher com sorte, porque, na sua opinião, a sua vida “poderia ter descambado muito.”
Nesta nova temporada, o genérico é agora assinado por A Garota Não. Os retratos são da autoria de Matilde Fieschi. E a sonoplastia deste podcast é de Francisco Marujo.
A segunda parte desta conversa fica disponível na manhã deste sábado.
Comentários
Ainda não há comentários. Seja o primeiro!
Deixar um comentário