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Banco Digimais de Edir Macedo sob escrutínio por fundos de investimento e crédito malparado

Jovem a analisar gráficos e escrever anotações numa mesa com documentos e computador portátil.

Um terreno isolado e um fundo com ativos problemáticos

A aquisição de um lote devoluto numa praia remota do Rio de Janeiro - uma zona isolada e parcialmente protegida pela União - passou a representar, de forma particularmente visível, o conjunto de operações financeiras que colocam o Banco Digimais sob forte escrutínio. O terreno, sem qualquer infraestrutura, de acesso difícil e envolvido em conflitos locais, faz parte de um fundo de investimento que agrega ativos classificados como problemáticos, com um património na ordem dos 526 milhões de reais [95 milhões de euros], e que é financiado com recursos do próprio banco.

O Banco Digimais pertence ao universo empresarial de Edir Macedo, 81 anos, fundador da Igreja Universal do Reino de Deus (IURD), proprietário da Record TV e figura central de um grupo que inclui bancos, seguradoras, editoras e fundos de investimento. Ao longo de cerca de quatro décadas, consolidou um império que cruza religião, comunicação social e negócios em grande escala. A dimensão da sua riqueza foi amplamente noticiada: a Forbes Brasil já o apontou como um dos líderes religiosos mais ricos do mundo, e a Gazeta do Povo salientou a sua entrada no ranking da Forbes, destacando o peso económico do conglomerado que construiu.

Como o Banco Digimais retirou perdas do balanço com fundos de investimento

De acordo com a GZH, o Digimais atravessa uma crise e está à venda há mais de um ano, tendo recorrido a uma engenharia com fundos de investimento para “limpar” o balanço de perdas de grande dimensão. A investigação descreve a transferência de carteiras de financiamento com elevado incumprimento para fundos ligados ao próprio grupo, removendo assim do balanço centenas de milhões de reais em créditos incobráveis.

A UOL Economia explica o mecanismo em termos práticos: o banco pega em empréstimos sem perspetiva realista de cobrança - créditos incobráveis - e cede-os a fundos de investimento nos quais o próprio Digimais surge como principal investidor. Com esta passagem, as perdas deixam de aparecer diretamente nas contas do banco, o que melhora a aparência do seu desempenho financeiro. Os fundos tornam-se os «donos» desses créditos sem valor e o banco deixa de reconhecer o prejuízo de forma direta. Segundo documentos analisados pela UOL, esta manobra envolveu centenas de milhões de reais e permitiu ao Digimais reportar lucros de cerca de 31 milhões de reais em 2025 [5,2 milhões de euros] quando, sem essa engenharia, teria apresentado prejuízos relevantes.

A mesma lógica - deslocar crédito problemático para fundos associados ao próprio banco - é também descrita pelo Brasil de Fato, que relata o uso de fundos de investimento para ocultar prejuízos multimilionários e retirar perdas do balanço. O Boletim Nacional reforça a ideia ao referir que a operação terá recorrido a fundos com baixa liquidez e ativos de recuperação difícil, mobilizados para absorver carteiras de crédito malparado geradas pelo próprio Digimais.

No setor financeiro brasileiro, esta prática é conhecida como “Zé com Zé”: quando a mesma entidade surge, na prática, em ambos os lados da operação - cria os créditos problemáticos e, simultaneamente, é investidora dos fundos que os recebem. Auditores independentes indicaram ter encontrado obstáculos no acesso à documentação integral dos fundos, o que impediu uma validação completa das demonstrações financeiras.

Edir Macedo, IURD e Record TV: influência para lá da banca

O bispo mediático que transformou fé em poder

A projeção de Edir Macedo vai muito além da atividade bancária. A IURD e a Record desempenham, há décadas, um papel com peso na política brasileira, incluindo apoio público a vários candidatos - entre os quais Jair Bolsonaro, em 2018. O seu percurso inclui episódios judiciais controversos: em 1992, foi preso preventivamente por suspeitas de burla e fraude, embora tenha acabado absolvido; mais tarde, enfrentou acusações de branqueamento de capitais e evasão fiscal, que viriam a ser arquivadas pela justiça brasileira. Macedo sempre negou irregularidades e afirma ser alvo de perseguição religiosa e mediática.

A IURD opera em mais de 100 países, incluindo Portugal, e o grupo ligado ao bispo controla ainda rádios, editoras, empresas de seguros e participações financeiras. Segundo a imprensa brasileira, o Banco Digimais é apenas uma das peças deste império e terá beneficiado da liquidez do grupo Record para evitar uma queda mais rápida da instituição.

Venda do Digimais, potenciais compradores e investigação

O Digimais - anteriormente Banco Renner - opera sem agências físicas e é pouco conhecido do público em geral. O seu foco está no financiamento automóvel a clientes de maior risco e no crédito consignado. Está à venda há mais de um ano e chegou a existir um entendimento com o BTG Pactual para a compra, processo que continua dependente de autorização das entidades reguladoras. Um outro interessado, o Bluebank, terá desistido antes de submeter formalmente a proposta ao Banco Central.

Segundo o Boletim Nacional, a Polícia Federal e entidades de supervisão financeira estão a avaliar se ocorreu ocultação deliberada de prejuízos através de fundos controlados pelo próprio grupo, algo que pode configurar uma contraordenação e induzir o mercado em erro.

O caso volta a colocar questões essenciais em destaque: a transparência das contas bancárias, a proteção de investidores e depositantes, potenciais conflitos de interesses entre o banco e os fundos que recebem ativos problemáticos, o risco regulatório num banco em processo de venda e a credibilidade da supervisão. As práticas relatadas - transferência de crédito malparado para fundos sob influência do próprio banco, alocação de recursos em ativos de valorização difícil e restrições à auditoria independente - desenham um cenário em que os problemas não são eliminados, apenas deslocados para outro lugar.

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