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O novo léxico da solidão virtual nas redes sociais

Homem sentado numa cafetaria a usar telemóvel, com café e auscultadores sobre a mesa junto à janela.

O léxico digital do desaparecimento

O mundo virtual pôs-nos no dia a dia uma série de novos termos importados que acabamos por encaixar, quase sem dar por isso, no vocabulário. Entre eles, há o “desaparecimento fantasma”, quando alguém some sem qualquer explicação; o “orbitamento”, em que a pessoa continua a marcar presença nas redes sociais, a ver as nossas histórias, mas sem falar connosco; o “dar migalhas”, feito de mensagens vagas ou de emojis - o suficiente para não desaparecer por completo, sem nunca avançar; o “deixar no banco”, mantendo o outro em espera como suplente; e o “regresso zombie”, quando alguém volta de forma casual, sem consistência nem vontade real de retomar, simplesmente porque sim.

Apesar de diferentes, todas estas dinâmicas partilham o mesmo fio condutor: a comunicação fica reduzida ao mínimo indispensável para manter uma hipótese remota em aberto, sem intenção de construir o que quer que seja. É contacto sem compromisso - presença sem responsabilidade. Este é o novo léxico da solidão virtual, e aponta sempre para o mesmo lado. Outrora dizia-se que todos os caminhos iam dar a Roma; hoje, dá a sensação de que quase todos convergem para a guerra ou para a solidão.

A ausência com rótulo e a confusão dos afetos

Há uns anos, quando alguém deixava de fazer parte da nossa vida, limitávamo-nos a dizer que tinha ido embora. Agora, colamos-lhe um rótulo - muitas vezes importado - e transformamos a ausência numa espécie de diagnóstico. Como se os sentimentos passassem por uma consulta: tudo se disseca, debate, processa e trata como se fosse uma doença. Só que não é.

Entusiasmarmo-nos por alguém, criar laços, viver momentos especiais e, a certa altura, sonhar que talvez seja possível construir algo não é sinal de fraqueza, nem muito menos sintoma de patologia. Fraqueza é não saber o que se quer e disparar em várias direções, tornando a sedução num jogo sucessivo de tiro ao alvo. E, neste jogo digital, caótico e errático, quem paga a fatura é o Si-mesmo.

Sinais contraditórios, Ego e Si-mesmo nas redes sociais

O Si-mesmo não é o Ego: é o conjunto total da experiência daquilo que somos, enquanto o Ego é a parte do Si-mesmo que se ocupa do mundo exterior. O Ego pode inflacionar-se ou fragilizar-se com as redes sociais, mas, se o Si-mesmo estiver firme, não há crise. Para isso, precisamos de coerência interna - uma perceção nítida e consistente de quem somos, independentemente dos choques vindos de fora. O problema é que essa firmeza vacila quando somos bombardeados com sinais contraditórios.

Relações saudáveis vivem de dar e receber. Quando aquilo que nos chega é ambíguo e impossível de interpretar, é natural concluirmos que fizemos algo de errado - quando, na maioria das vezes, o comportamento do outro não é resposta ao nosso, mas um assunto dele consigo próprio. Não amamos como queremos; amamos como conseguimos, com as ferramentas e os traumas que cada um transporta.

No caso das redes sociais, muitas vezes nem faz sentido falar de amor ou de sentimentos profundos. Ainda assim, a solidão leva-nos a ver, do outro lado, mosquitos como se fossem sinais: confundimos tédio, isolamento e vontade de andar ao tiro ao alvo com afeto genuíno e interesse verdadeiro. E assim o nosso tempo fica hipotecado: à espera de uma mensagem que não chega, a decifrar reações que não significam nada. É tempo perdido - tempo que podia ser usado para nos cuidarmos com atividades que trazem conforto, alegria e bem-estar, e para construirmos algo real.

Antes do virtual: a realidade sem filtros

Muitas vezes dou por mim a pensar que talvez fôssemos mais felizes antes do mundo virtual, quando só existia a realidade. Podia ser apenas a do nosso bairro, da escola, da família e dos amigos, mas era realidade - não projeções de vidas alheias que confundíamos com a nossa. Íamos ao cinema e suspirávamos por heróis virtuosos ou atormentados; vibrávamos com histórias de amor que pareciam perfeitas; e depois lá tínhamos de apanhar o autocarro para casa e embater, de frente, na vida.

A vida era injusta e muitas vezes cruel, mas tinha uma virtude: obrigava-nos a encará-la, porque a fronteira entre fantasia e realidade era evidente. Filmes e séries eram ficção; leite azedo e um empurrão do idiota do recreio, só para humilhar, eram a vida. A vida como sempre foi - por vezes generosa e bonita, outras vezes feia e triste.

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