Às escuras numa sala de cinema, com os olhos bem abertos para a “tela” sem fim da rádio: é assim que o Batalha, no Porto, recebe este domingo, a partir das 15 horas, uma evocação das primeiras horas de 25 de Abril de 1974. O que se vai ouvir são sons de rua, ambiente e vozes - do povo e dos capitães - captados por microfones de três repórteres na manhã em que Portugal acordou para a democracia.
Uma longa-metragem radiofónica do 25 de Abril: o projeto "... e temos o povo.."
O projeto "... e temos o povo.." traz de volta cerca de quatro horas de gravações realizadas por Pedro Laranjeira (falecido em 2015), Paulo Coelho e Adelino Gomes. As reportagens foram emitidas nas horas iniciais de 25 de Abril de 1974, no programa "Limite", da Rádio Renascença - o mesmo que deu início à Revolução dos Cravos com a Grândola.
"Esse património incrível tem uma respiração e uma capacidade de nos levar numa viagem no tempo para o dia mais importante das nossas vidas, mesmo daqueles que ainda não éramos nascidos", explica André Cunha, jornalista e um dos curadores do projeto, a par de Isabel Meira e de Adelino Gomes - uma das três vozes que narraram ao país a transformação de Portugal nessa manhã de abril.
O que esta longa-metragem radiofónica fixou foi o som do Dia da Liberdade: os tiros, o megafone de Salgueiro Maia, o pulsar das ruas de Lisboa e o povo a gritar "abaixo o fascismo" e "viva a liberdade". "Este é o primeiro dos primeiríssimos exercícios de liberdade de expressão, liberdade de imprensa", sublinha André Cunha.
Do Convento do Carmo ao Batalha: ouvir um “filme” sem imagens
A peça foi apresentada pela primeira vez numa sessão especial de escuta coletiva, integrada nas comemorações dos 51 anos do 25 de Abril, em 2025, nas ruínas do Convento do Carmo, em Lisboa. Dessa experiência nasceu a vontade de a levar mais longe: divulgá-la uma vez por mês pelo país, no continente e nas regiões autónomas, em regra ao dia 25. No Porto, porém, por questões de programação do FITEI, a sessão acontece no Batalha a 18 de maio.
"É um documento tão vivo e tão tangível da memória coletiva que tem que ser democratizado pelo território", defende André Cunha, recuperando um excerto da própria reportagem que, para ele, torna o Batalha particularmente adequado: "Isto é um pouco surrealista, à maneira portuguesa. É uma revolução que acontece e as pessoas participam nela, com muita curiosidade, como se isto fosse uma peça de teatro ou um filme", ouve-se na primeira descrição de Adelino Gomes para o microfone, na manhã de 25 de Abril. "Ele vai regressar a esta metáfora fílmica e de espetáculo teatral ao longo do dia, para contar o dia tal era", explica.
"Uma sala de cinema, como a do Batalha, tem uma energia, tem uma força magnética incrível", acrescenta André Cunha, lembrando um dos primeiros reis da rádio. "Orson Welles dizia que na rádio o ecrã é maior que no cinema, não tem moldura, não tem limites." Estar no Batalha "vai permitir viver esta viagem até ao dia 25 com esta largura infinita do horizonte", remata.
"Estaremos a olhar para tudo o que é a nossa memória da revolução, olhando para um ecrã que apenas tem som", diz ainda o curador. Esta sessão vai acontecer na sala 1 e também no bar do Batalha, onde haverá um ecrã a contar os sons em linguagem gestual. "Tem sido uma bandeira nossa para que esta memória seja democratizada o mais possível e chegue a ouvintes com outros recursos". E, sendo a liberdade o que se relembra e celebra, o bar mantém-se aberto a todos - para quem precise ou para quem apenas prefira uma escuta coletiva mais descontraída.
Uma viagem emocional e um retrato mais amplo do que a memória fixou
"Acreditamos que vai ser muito especial, mesmo para as pessoas que viveram o dia, seja em Lisboa ou aqui no Porto. O que temos notado nesta viagem é que há como que um vulcão de emoções maior a partir desta experiência de escuta, porque sentimo-nos transportados para aquele dia mais do que em qualquer outra ocasião ou documento que existe", afirma André Cunha.
Ao mesmo tempo, os sons registados sugerem que a realidade foi mais vasta do que a memória coletiva tende a reter. "Temos a ideia de que se dispararam poucos tiros. Mas não. A quantidade de rajadas que se ouvem nesta versão integral demonstra como houve ali momentos de fogo a sério", observa. "Não se trata de construir uma memória diferente, mas de enquadrar melhor e ritmar melhor a memória que existe do dia inicial", escreveu a poetisa Sophia de Melo Andresen.
Uma digressão para levar "... e temos o povo..." de norte a sul (e às ilhas)
Com o propósito de fazer chegar este registo histórico, central para a memória da Revolução dos Cravos, ao maior número possível de pessoas - do norte ao sul e também nas regiões autónomas - o projeto "... e temos o povo..." iniciou uma digressão no começo do ano.
O ponto de partida foi a Guarda, na Rádio Altitude, a mais antiga rádio local de Portugal. Seguiu-se Peniche, com duas sessões: uma no Museu Nacional da Resistência e outra na Escola Secundária. Depois, rumou aos Açores - Angra do Heroísmo e Ponta Delgada. Já de volta ao continente, passou por Palmela e, novamente, por Lisboa, no 25 de Abril. Agora, chega ao Porto, integrado na programação do decano dos festivais de teatro em Portugal.
"Queremos muito projetar este som para a frente também. Não é apenas a possibilidade de viajarmos no tempo para o dia 25 de Abril. É também uma janela virada para o horizonte de hoje e de daí e por aí fora e de amanhã e por aí fora", argumenta André Cunha, ao justificar a itinerância. E há, diz, um sentido de ciclo que se completa. "É um casamento muito, muito especial recuar àquele colapso e ouvir aquela esperança toda a ser gritada pela primeira vez pelas pessoas, num momento em que voltamos a ter alguns sinais de colapso à nossa volta", acrescenta o jornalista, atento ao pular errático do Mundo atual.
Conversa após a sessão e condições de entrada
No final da sessão, realiza-se uma conversa com Adelino Gomes (jornalista), Cláudia Varejão (cineasta) e Regina Guimarães (poetisa, cineasta, dramaturga e letrista). A entrada é gratuita, mediante levantamento de bilhete no próprio dia, limitada a dois bilhetes por pessoa.
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