No domingo, 3 de maio, dia em que se assinala a mãe, cruzam-se razões e percursos de mulheres que viveram a experiência do parto e receberam um filho nos braços já depois dos 45 anos. Em média, quase duas mulheres por dia tiveram um bebé nessa idade - e quase metade estreou-se então na maternidade.
Histórias de maternidade depois dos 45 anos
Rosário Martins tinha o desejo de ser mãe há muito tempo - e não sentia que isso tivesse de acontecer “muito nova”. A vontade concretizou-se quando tinha 46 anos: em 2024, tornou-se mãe do Joaquim, num contexto de monoparentalidade, depois de um caminho prolongado. "Aos 35 anos comecei "quero ser mãe, quero ser mãe", e foram 11 anos de espera".
Esse período foi feito de expectativa, mas também de combate. Rosário explica que chegou a engravidar antes, já nos 40, com apoio da Procriação Medicamente Assistida (PMA): "Ainda engravidei antes, em outubro de 2019, já nos 40 e com recurso à Procriação Medicamente Assistida (PMA), mas tive de interromper, o Francisco tinha mal formações, fiz um parto dessa criança", recorda.
Nos anos seguintes, tentou ainda a adoção, mas sem sucesso. Continuou à procura de alternativas até conseguir alcançar o que procurava - e foi assim que chegou o Joaquim, que tem atualmente dois anos.
Também Margarida Couto viveu uma maternidade faseada no tempo. A professora foi mãe de uma menina aos 36 anos; já depois dos 40, quis tentar dar-lhe um irmão. O segundo filho surgiria já na fronteira com os 45 anos e, tal como aconteceu com Rosário Martins, isso só aconteceu após uma perda gestacional aos 41. "Já não fui mãe cedo, quando aconteceu pela primeira vez, aos 36 anos, mas fui adiando o segundo até me sentir preparada, o que aconteceu aos 40, mas não chegou", relembra. O segundo filho do casal acabaria por nascer em 2024.
O retrato do INE: 617 mães acima dos 45 anos em 2024
A arquitecta e a professora fazem parte das 617 mulheres que, segundo dados do Instituto Nacional de Estatística (INE) divulgados nas Estatísticas da Saúde, em abril, foram mães com mais de 45 anos. Este número insere-se num fenómeno em crescimento: o da maternidade mais tardia.
De acordo com o INE, em 2024, entre as mais de seis centenas de mulheres que tiveram filhos acima dos 45 anos, 344 foram mães pela primeira vez - o que corresponde a quase um parto por dia nesta faixa etária. E a tendência tem-se acentuado: o próprio INE indica que, ao comparar com os números de há duas décadas, o valor quase triplicou.
Idade média dispara
Apesar de os partos nestas idades serem uma fatia reduzida do total de nascimentos no país - os dados apontam para 0,7% -, a maioria das mães continua a ter filhos entre os 25 aos 39 anos: em 2024, quase oito em cada dez mulheres (79,9%) encontravam-se nesse intervalo.
Ainda assim, a idade média da progenitora tem subido de forma marcada. No caso do primeiro filho, a média situa-se nos 30,3 anos; considerando a chegada de um descendente (não necessariamente o primeiro), o valor sobe para 31,7.
As razões para adiar a maternidade, segundo Paulo Machado
Paulo Machado, demógrafo e membro da Associação Portuguesa de Demografia (APD), admite que se trata de "números inexpressivos" quando comparados com o total, mas sublinha que há "leituras demográficas" relevantes. Para o especialista, verificou-se "uma extensão do calendário da procriação", o que considera interessante de observar num contexto em que, cada vez mais, se associa ter filhos aos mais novos e não aos mais velhos.
Na sua leitura, este adiamento está ligado a várias dimensões: a prioridade atribuída ao percurso profissional, a questão da habitação - que classifica como "muito decisiva" - e também projetos de vida em que ter filhos nessa idade não surge como objetivo, numa "geração mais individual". A estas razões junta outra: "o das relações que devem, hoje em dia, prestar mais garantias como a estabilidade, concordância (dos elementos do casal) face ao modelo de família", o que contribui para atrasar decisões.
Rosário reconhece que esta última componente foi determinante no seu percurso. "A construção de família nunca se realizou e foi sempre a adiar, sempre a ser só tia. Até que fui mãe, mesmo sozinha. Ainda hoje me está a fazer confusão a questão da monoparentalidade, vivo esse input de que são precisos dois maiores de idade". Ainda assim, o dia a dia tem-lhe provado que a realidade é possível - embora não sem enfrentar estigmas.
"Não foi muito bem aceite na família esta minha atitude de ser mãe nesta idade, mesmo sendo sozinha. (...) Tive a minha própria psicóloga de pé atrás e que me dizia "veja lá, veja lá". Foi uma luta contra todos, mas consegui". A perda gestacional que viveu não a fez recuar; pelo contrário, diz que foi decisiva para avançar: "Se não tivesse passado pela perda do Francisco, não tinha avançado para esta tentativa. Mas foi, precisamente, por ter sentido o bebé na minha barriga e ter esse estágio, que para mim foi maravilhoso, que senti um empoderamento como mulher", relata.
Margarida, por sua vez, descreve diferenças claras entre ter sido mãe aos 36 e voltar a sê-lo já a roçar os 45. "Noto mais paciência agora, e talvez se deva ao facto de ser o segundo, mas há uma tranquilidade a vários níveis que não existia aos 36, uma estabilidade profissional e financeira".
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