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Bairro Alto, em Lisboa: três meses após a proibição de venda de álcool na rua, "nada mudou"

Jovens conversam e bebem em rua típica de Lisboa com prédios azulejados ao entardecer.

O som das conversas, a música e as luzes coloridas preenchem a noite no Bairro Alto, em Lisboa. Nas ruas, continua a ver-se muita gente a circular pela calçada de copo na mão, mesmo depois de ter entrado em vigor a proibição de vender bebidas alcoólicas para consumo fora dos estabelecimentos.

Bairro Alto, Lisboa: movimento noturno apesar da proibição

Entre as ruelas apertadas desta área histórica, ladeadas por edifícios antigos com roupa estendida nas janelas, bares e restaurantes mantêm a animação característica do Bairro Alto. A boémia que marcou os séculos XIX e XX ajustou-se ao presente, num contexto em que o turismo é apontado como um dos grandes motores da atividade económica de Lisboa e do país.

Na noite de quinta para sexta-feira, a partir das 23 horas - o momento em que começa a proibição de venda de bebidas alcoólicas para consumo na rua - a agência Lusa esteve no Bairro Alto, conversou com moradores e comerciantes e encontrou um ponto em comum: dizem que "não se nota grandes diferenças" ou que "nada mudou" ao fim de três meses de aplicação da medida, porque "as pessoas continuam a beber na rua".

Medida municipal e debate entre moradores e comerciantes

Com o objetivo de reduzir o ruído e proteger o direito ao descanso de quem vive na cidade, a Câmara de Lisboa, sob governação de PSD/CDS-PP/IL, avançou com a proibição de venda de álcool para consumo no exterior dos estabelecimentos durante a madrugada, em toda a cidade. A regra aplica-se, concretamente, a partir das 23 horas de domingo a quinta-feira e desde as 24 horas à sexta-feira, sábado e véspera de feriado, ficando de fora o período das Festas de Lisboa, em junho. O desrespeito é uma contraordenação, sujeita a coima entre 150 e três mil euros.

Da Associação de Moradores da Freguesia da Misericórdia - que inclui o Bairro Alto - Luís Paisana descreve um efeito "muito reduzido" e admite que "ainda não se notam grandes diferenças". Para o responsável, restringir apenas a venda não basta para resolver a situação, defendendo que a solução passa por proibir o consumo de bebidas alcoólicas na rua e apelando à "coragem e vontade política" do executivo municipal.

"Quanto mais álcool, mais barulho, mais ruído e, portanto, os moradores não dormem, e esse é o principal problema e que, de facto, tem causado o despovoamento da freguesia", sublinha, apontando também a venda ambulante ilegal e o fenómeno do "botellón".

Ainda assim, Luís Paisana insiste na necessidade de "um equilíbrio" entre a diversão noturna e o descanso. Na sua perspetiva, os estabelecimentos devem funcionar de porta fechada e assegurar, igualmente, "alguma qualidade", para que os residentes "não sintam os problemas deste turismo alcoólico".

Já perto das 23:30, na Rua da Atalaia - uma das artérias mais concorridas do Bairro Alto - promotores de bares tentam captar clientes, mascarados de extraterrestres ou de piratas que rufam tambores. A oferta de bebidas surge exposta de forma evidente, incluindo "shots" e imperiais a um euro.

Junto à entrada de um bar, com um copo na mão e a brindar com uma amiga, o jovem lisboeta João Costa diz concordar com a proibição de venda de álcool para a rua: "Acho que isto vai de certa forma diminuir, não a 100%, obviamente, mas acho que vai diminuir algum ruído."

Numa rua próxima, a Rua do Diário de Notícias, decorada com bandeiras de vários países, há dezenas de pessoas de pé, copo na mão, à porta de bares e restaurantes, apesar dos avisos afixados sobre a venda de álcool.

No meio de turistas, Francisco Gonçalves, de 69 anos, morador do Bairro Alto e dono de um bar onde se ouve "fado vadio", a Tasca do Chico, considera que faz parte da identidade boémia do bairro haver gente na rua: "não gostam de estar presas". Ainda assim, ressalva que é necessário impor limites.

Em desacordo com a restrição à venda de álcool, o alfacinha desafia a Câmara de Lisboa a fixar preços, "tudo ao mesmo preço", e a travar a "oferta de "shots" aos miúdos", defendendo que as pessoas possam continuar a beber na rua. Ao mesmo tempo, alerta para a venda ilegal de cerveja em garrafa e para o que acontece depois do fecho dos bares - até às 2 horas ou até às 3 horas à sexta-feira, sábado e véspera de feriado -, quando, segundo diz, "ficam grupinhos a beber e a fazer barulho até de manhã", além do lixo que deixam.

Francisco Gonçalves admite que, "infelizmente", o Bairro Alto perdeu muitos moradores. "Há ruas que não têm um morador, têm "hostels", têm hotéis e não há mais nada", afirma, acrescentando que isso não resulta do ruído, mas sim da subida das rendas, que passaram de 300/400 euros para dois mil euros.

"Os bares é que dão vida a isto, os bares, os restaurantes e tudo, é que dão vida ao Bairro Alto. [...] Eu vivo aqui desde 1972, e vivi um bairro de prostituição, um bairro um bocado degradado, que era, e agora acho que as pessoas querem voltar ao mesmo, eu não percebo", atira, defendendo que a atividade económica também traz segurança a "um bairro escuro", uma vez que "há luz e há movimento".

Já depois da meia-noite, em travessas mais calmas, onde não há negócios abertos, o presidente da Associação Portuguesa de Bares e Discotecas, Ricardo Tavares, faz um balanço: a limitação à venda de álcool "é negativo, porque nada mudou" no que toca a beber na rua, já que lojas de conveniência, supermercados e grandes superfícies continuam a vender bebidas e as pessoas fazem "botellón".

"A única coisa que mudou foi que os bares reduziram a faturação em cerca de 80% aos fins de semana e durante a semana também [registam] uma descida de faturação muito acentuada", diz, classificando a medida como "inconstitucional". Argumenta que os bares não conseguem impedir que os clientes saiam com bebidas para a rua e que, no máximo, podem alertar; por isso, também discorda da proposta de proibir o consumo na rua.

O representante do setor rejeita a ideia de existir "turismo alcoólico" em Lisboa. Refere que há cidades europeias onde não é permitido beber na rua, mas "estão abertos até às 6 horas", e aponta horários cada vez mais limitativos na capital portuguesa: "Não podemos acabar com a noite, porque a saúde mental dos portugueses e dos jovens também depende da saída à noite para beber um copo e para espairecer."

Ricardo Tavares sustenta ainda que a venda e o consumo de álcool são "é um falso problema" no Bairro Alto, criado para servir a especulação imobiliária, incluindo a construção de três hotéis de cinco estrelas. Justifica essa posição dizendo que existem "muito poucos moradores" e que, em muitos casos, são proprietários de bares e restaurantes e os seus trabalhadores.

"O Bairro Alto sempre teve ruído. Não estamos a falar de um condomínio fechado onde só se ouviam os passarinhos", insiste, lembrando que, no passado, esta zona acolhia redações de jornais, com máquinas "muito ruidosas", e tinha casas de prostituição, tabernas e marinheiros que as frequentavam.

O que se vê nas ruas e a visão dos turistas

De visita a Lisboa, Milagros Zafra, de 62 anos, chegou de Madrid acompanhada por duas amigas e está instalada num apartamento na Rua do Diário de Notícias. Diz que, na quarta-feira à noite, encontrou a zona "abarrotada de jovens a beber copos". Ainda assim, apesar do burburinho, conseguiu descansar, porque o som foi atenuado pelas janelas; e, ao acordar, espreitou para a rua e viu-a "super limpa".

Com um mojito na mão, a turista espanhola descreve Lisboa como uma cidade "preciosa", com "uma vida espetacular" e um ambiente "muito amigável". Destaca também o sentimento de segurança e acrescenta que o preço "é bastante mais barato do que em outras cidades".

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