Saltar para o conteúdo

Sampaio da Nóvoa pede “metamorfose” da educação em Portugal no Congresso Educar Transforma

Professora com livro na mão observa manifestação de estudantes com cartazes fora da sala de aula.

No Congresso Educar Transforma, realizado este sábado em Matosinhos, o professor catedrático do Instituto de Educação da Universidade de Lisboa sustentou a necessidade de uma “metamorfose” da educação em Portugal, enraizada nos valores históricos da docência e na reafirmação da “autoridade” do corpo docente.

Sampaio da Nóvoa afirmou reconhecer, no contexto atual, um “entendimento irregular do que deve ser a legítima e necessária participação dos pais e dos cidadãos na escola”, sublinhando também que “a escola pertence à sociedade e não aos professores, mas a pedagogia pertence aos professores e não à sociedade”.

Professor jubilado, antigo embaixador de Portugal junto da UNESCO e ex-candidato à Presidência da República, foi um dos principais intervenientes do Congresso Educar Transforma - o primeiro de dois encontros promovidos pela Porto Editora para refletir sobre educação. Esta edição decorreu na Exponor, em Matosinhos; a próxima está marcada para Lisboa, no Centro Cultural de Belém (CCB), a 20 de junho.

Educação em Portugal enfrenta “discursos delirantes”

Logo no início da intervenção, Sampaio da Nóvoa disse estar inquieto perante recentes “ameaças à escola como bem público e comum”. Entre elas, apontou como “a mais violenta” os “discursos delirantes mas muito poderosos que anunciam o fim das escolas, substituídos por centros abertos, flexíveis, com aprendizagens em linha, sem professores, que são substituídos por mentores de aprendizagem e orientadores de oficinas”, numa alusão aos polos da Brave Generation Academy, conduzidos pelo empresário Tim Vieira.

Para o professor e reitor honorário da Universidade de Lisboa, importa reiterar que “a escola não é uma academia, não é um negócio, não é um serviço e não é um produto”. E acrescentou: “A escola é uma instituição, o que nos traz a todos e a todas acrescidas responsabilidades”.

O titular da Cátedra UNESCO Futuros da Educação criticou ainda a forma como se tem ampliado a promoção da Inteligência Artificial (IA) nas escolas, referindo “autores que dizem que os professores são agora co-docentes da IA” - uma narrativa que, no seu entendimento, contribui “para a degradação da escola enquanto instituição e para a diminuição do papel dos professores enquanto profissionais”.

Abundam projetos na escola enquanto as aulas carecem de “projeto pedagógico”

Sampaio da Nóvoa apresentou um retrato das escolas portuguesas a partir de visitas sem marcação prévia a cerca de 60 estabelecimentos de ensino em Portugal continental e nas ilhas. Os testemunhos dessas deslocações foram reunidos no livro “Viagem por Escolas de Portugal”, editado em março pela Porto Editora.

Ao condensar o que classificou como um diagnóstico “duro, mas necessário”, destacou como ponto favorável a “abundância de projetos sociais e culturais” que, em geral, se encontra nas escolas do país. Em contrapartida, assinalou a existência de uma “ausência de projeto pedagógico na sala de aula”.

“Se é verdade que há mudanças de grande significado na escola, na sala de aula mantêm-se formas de trabalho bastante pobres e ilíquidas. Como se a reprodução de um mesmo modelo escolar que prevaleceu nos últimos 200 anos fosse a única possibilidade de sobrevivermos em tempos confusos, em tempos incertos, em tempos turbulentos. Como se não houvesse energia nem condições para ensaiar novos processos de ensino e de trabalho”, refletiu.

Para Sampaio da Nóvoa, a resposta para a educação em Portugal passa por uma metamorfose ancorada na história da profissão e nos princípios de “cooperação, convergência e convivialidade”.

Defendeu igualmente que a docência deve conquistar maior e melhor visibilidade pública, quer para sustentar as condições da carreira, quer para “o reforço da autoridade dos professores”. Neste ponto, criticou “uma certa apatia, talvez indiferença ou insensibilidade de muitos governos em relação aos professores desde o início do século XXI”.

Milhares de professores na rua

Enquanto, em Matosinhos, os mil lugares da Exponor foram ocupados para o congresso Educar Transforma, em Lisboa milhares de professores manifestaram-se na tarde de sábado. O protesto, convocado pela Federação Nacional dos Professores (Fenprof), visou a revisão do Estatuto da Carreira Docente e o pacote laboral.

Em declarações à Lusa antes do início da ação, José Feliciano da Costa, um dos secretários-gerais da Fenprof, anunciou a adesão à greve geral marcada pela CGTP para 3 de junho e duas concentrações: a 15 de junho, contra o calendário do pré-escolar e do 1.º ciclo, e a 26 de junho, sobre a revisão dos estatutos.

Comentários

Ainda não há comentários. Seja o primeiro!

Deixar um comentário