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Watches & Wonders 2026 em Genebra: a nova era da relojoaria de luxo

Homem a examinar relógio com lupa em loja de relógios com vários modelos sobre a mesa.

Todos os anos, quando chegam os dias da feira, o frenesim volta a instalar-se. À porta dos pavilhões da Palexpo, em Genebra, juntam-se jornalistas, colecionadores, retalhistas, criadores de conteúdo e executivos - quase sempre com um relógio escolhido ao pormenor para o momento. Elogiam-se mutuamente pelo que trazem no pulso e a conversa estica-se por minúcias técnicas, mas nunca pelo preço. Há, nestas datas, uma regra tácita: se o assunto resvala para valores, a voz desce inevitavelmente para um sussurro. Afinal, ninguém está ali para confirmar as horas: medir o tempo deixou de ser, há décadas, a prioridade de um sector que agora tenta provar quanta imaginação cabe em 30 ou 40 milímetros.

“Há 20 ou 30 anos, o relógio era a única forma de saber as horas. Era um instrumento sério. Se o relógio falhasse, podias chegar atrasado ao trabalho, ser despedido. Era uma questão gravíssima”, nota Nuno Margalha, diretor do Instituto Português de Relojoaria. “Hoje isso ficou em segundo plano, o que é espetacular porque ganhou espaço para ser criativo. Agora é um instrumento de liberdade e criatividade. É essa outra coisa que hoje se procura.”

“O relógio é um instrumento de liberdade e criatividade”

Nuno Margalha

Diretor do Instituto Português de Relojoaria

Na alta relojoaria, a corrida já não é pela precisão. Num mundo em que qualquer telemóvel supera um relógio nesse capítulo, as marcas compreenderam que o verdadeiro valor está na narrativa que conseguem criar à volta do objecto - numa altura em que cresce a procura por peças de época, sobretudo entre clientes mais jovens.

Esse contexto ajuda a perceber a fixação cada vez maior por aniversários, reedições e heranças históricas. A Rolex assinalou os 100 anos da caixa Oyster, a solução impermeável que ajudou a redefinir os relógios desportivos modernos. A Patek Philippe celebrou os 50 anos do Nautilus com várias edições limitadas que, em pouco tempo, passaram a ser alvo de desejo entre colecionadores. A Vacheron Constantin comemorou três décadas da linha Overseas. Hoje, o sector olha mais para trás para conseguir assegurar o que vem a seguir.

“Na Vacheron, quando desenvolvemos algo novo, há sempre uma ligação entre o passado e o futuro, e aquilo que faz sentido para os nossos clientes”, começa por explicar Morgan Maillaird, especialista em estilo e património da Vacheron Constantin, a oitava maior marca suíça, que pertence ao grupo Richemont. “Não se pode inovar, nem olhar para o futuro, sem olhar para trás.”

Edição recorde

A edição de 2026 da Watches & Wonders foi a mais extensa de sempre. Sessenta e cinco marcas preencheram os corredores do salão que, desde 2022, tomou definitivamente o lugar da antiga Baselworld como principal montra da alta relojoaria mundial. O evento atual resulta da evolução do Salon International de la Haute Horlogerie (SIHH), criado em 1991, e ganhou outra escala após o declínio gradual da feira de Basileia, cada vez mais criticada por marcas que apontavam custos excessivos, pouca flexibilidade e uma visão demasiado fechada do sector. A fundação Watches and Wonders Geneva Foundation - impulsionada por gigantes como a Rolex, a Richemont e a Patek Philippe - permitiu recentrar a indústria em Genebra e transformar a feira num acontecimento ao mesmo tempo comercial, mediático e cultural.

Hoje, a Watches & Wonders está menos próxima de uma feira técnica e mais parecida com uma Semana da Moda aplicada à relojoaria. Há instalações artísticas, experiências imersivas, menus pensados ao detalhe e um cuidado quase cinematográfico na forma como cada marca monta o seu universo. Na Hermès, estruturas de madeira de grande escala sugeriam uma maquinaria teatral; na IWC, o Pequeno Príncipe vigiava discretamente os visitantes num espaço dedicado à exploração espacial; na Van Cleef & Arpels, flores suspensas e referências celestes reforçavam a ideia de que os relógios são, cada vez mais, objectos com história.

Nota-se também um esforço evidente de ligação das marcas ao desporto - quase sempre elitista e capaz de mover milhões - como o ténis ou a Fórmula 1. Não surpreendeu, por isso, que o espaço da TAG Heuer exibisse um carro de competição da Red Bull, em tamanho real. Noutro registo, a IWC também se associou a esta modalidade e ganhou destaque no filme “F1 - The Movie”, nomeado aos Óscares, na categoria de melhor filme.

A Tudor voltou a apoiar-se em embaixadores ligados à competição automóvel e à náutica. E, na feira, arriscou ao suspender um avião de acrobacias da Red Bull no segundo piso do seu espaço. A Chanel recuperou o imaginário das corridas através do J12, uma das suas coleções mais reconhecidas, inspiradas nos iates dos anos 30. Até a Grand Seiko foi buscar inspiração às águas turbulentas do arquipélago japonês para conceber novos mostradores.

Do fundo do mar ao espaço

Enquanto algumas casas regressam às décadas douradas da relojoaria suíça para procurar referências, outras parecem empenhadas em abrir território. Nesta edição, o espaço destacou-se como uma das grandes obsessões.

A IWC mostrou o Pilot’s Venturer Vertical Drive, um relógio pensado para funcionar em missões espaciais tripuladas e certificado para voar até à Haven-1, a futura estação espacial comercial desenvolvida pela norte-americana Vast. Feito em cerâmica resistente a temperaturas extremas e desenhado para ser operado com luvas espaciais, tornou-se um dos assuntos mais falados pelos corredores do evento.

A Bremont foi ainda mais longe. A marca britânica levou a Genebra uma réplica do veículo de exploração lunar FLIP, onde será integrado, directamente no chassis, o seu novo relógio Supernova Chronograph, integrado na missão Griffin One, da Astrobotic. A ambição é clara: tornar-se a primeira marca britânica de relógios a chegar à Lua.

Há algo de profundamente simbólico nesta corrida espacial aplicada à relojoaria. Durante séculos, o ofício esteve ligado à navegação, à astronomia e à medição do mundo físico. Hoje, o regresso ao cosmos não acontece por necessidade prática, mas porque o espaço continua a ser uma forma sedutora de vender ambição humana.

O que procuram os clientes?

“Há uma coisa que nunca muda”, indica David Kolisnky, administrador do grupo Tempus, dona da Boutique dos Relógios. “As pessoas querem produtos de grande qualidade e muito bonitos. Às vezes focamo-nos demasiado nas tendências e esquecemo-nos disso. Quando uma marca consegue mostrar qualidade, décadas ou séculos de saber-fazer e continua a ouvir o cliente sem perder o ADN, essa é a fórmula para o sucesso. E acredito que isso não vá mudar nos próximos 100 anos.”

As marcas querem projectar intemporalidade, mas precisam - e muito - de se manter relevantes para novas gerações. “Penso que a indústria relojoeira está a ficar cada vez mais jovem”, diz Morgan Maillard, da Vacheron Constantin. “As pessoas estão mais interessadas e têm um conhecimento mais profundo. Hoje, os clientes não vêm apenas comprar um relógio. Querem perceber o que aquele relógio traz à coleção e o que lhes traz a nível pessoal.”

A mudança vê-se com clareza nos corredores do salão. Muitos visitantes já não são retalhistas tradicionais nem jornalistas especializados, mas criadores de conteúdo, influenciadores e jovens colecionadores. “O novo consumidor já não quer apenas herdar um relógio, quer participar na narrativa à volta dele”, prossegue Morgan Maillard. Num sector tão centrado na tradição suíça (onde se concentram 96% das relojoarias de luxo), esta edição ficou marcada pela primeira presença de uma marca indiana na feira. O gesto foi sobretudo simbólico, mas aponta para uma indústria mais aberta a novas geografias e a mercados emergentes que procuram ganhar espaço no segmento do luxo acessível.

Ainda assim, é a Suíça que dita regras. A designação Swiss Made continua a ser um dos selos mais valiosos do sector, embora a própria legislação tenha gerado críticas. Hoje, exige-se que 60% dos custos de produção sejam feitos na Suíça para que um relógio possa usar essa etiqueta, mesmo quando uma parte relevante dos componentes é fabricada noutros países. Para alguns puristas, a alteração tornou o Swiss Made mais uma questão de valor económico do que de verdadeira origem industrial.

O Expresso viajou a convite da Watches and Wonders

As escolhas de Nuno Margalha

O presidente do Instituto Português de Relojoaria é presença habitual na maior feira de relógios do mundo. Ao Expresso, partilha a sua lista de modelos preferidos, apresentados na edição deste ano.

ZENITH

G.F.J. Calibre 135. €73.000

Neste relógio está tudo certo, do tântalo da caixa - difícil de trabalhar e com uma presença que o aço não atinge - ao mostrador muito equilibrado, passando pelo calibre 135 da Zenith, um dos mais premiados da história, com um balanço de grande diâmetro pensado para maximizar a inércia e garantir uma estabilidade de ritmo exemplar.

VAN CLEEF & ARPELS

Midnight Heure d’ici & Heure d’ailleurs. €29.000

A relojoaria mecânica deslocou-se da função prática para uma dimensão sobretudo recreativa e cultural, e a Van Cleef & Arpels compreendeu isso com rara clareza - este relógio é um exemplo directo dessa visão. Além do engenho na apresentação das horas, o mostrador é simplesmente mágico.

VACHERON CONSTANTIN

Overseas Dual Time “Cardinal Points”. €41.600

Nem todas as marcas com grande tradição conseguem integrar-se na atualidade; a Vacheron Constantin mantém-se plenamente contemporânea sem comprometer o seu legado, e este modelo demonstra-o com clareza: comemora os 30 anos da coleção Overseas, que definiu desde 1996 como se usa um relógio desportivo de alta relojoaria.

JAEGER-LECOULTRE

Master Hybris Inventiva Gyrotourbillon à Stratosphère. €760 mil (estimativa)

Um exercício de puro virtuosismo em busca de precisão e estabilidade: o turbilhão de três eixos está concebido para cobrir 98% das posições possíveis, ainda que a própria ideia de turbilhão permaneça, em grande medida, mais romântica do que estritamente científica.

ORIS

Oris Star Edition. €21.800

A Oris percebeu que os relógios são vetores de histórias, e este celebra a vitória de Rolf Portmann sobre o Swiss Watch Statute, que permitiu à marca adotar o escape de âncora e entrar na relojoaria mecânica moderna.

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