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LX 90 - A Lisboa em que Tudo É Possível: novo livro de Joana Stichini Vilela

Jovem com fones de ouvido e cachecol lê mapa, com vista de casas e ponte sobre rio ao fundo em Lisboa.

Quantos séculos cabem em Lisboa entre o arranque de 1990 e a primavera de 2026? Não há maneira de acertar na conta. O que não oferece dúvidas é que, ao longo destes 36 anos, a capital se transformou profundamente.

No dia 1 de janeiro de 1990, Joana Stichini Vilela estava prestes a fazer dez anos. Já mais perto do final da década, a futura jornalista entrou na universidade. Nas imediações, existia um prédio ocupado que ficou conhecido como Casa Enkantada. Chegou a ir lá ver? Não chegou - e hoje tenta explicar a razão. “Estudei na Nova, mas os miúdos de que tinha ouvido falar na televisão já não eram bem o mesmo grupo.” Como recorda agora ao Expresso, à estudante de 17 anos terá faltado coragem. Assim, não chegou a acompanhar de perto aquelas iniciativas culturais, políticas e sobretudo musicais, animadas por um núcleo variável de okupas.


“LX 90” e o mapa coletivo de uma cidade em mudança

As recordações pessoais da autora não são o tema do novo livro “LX 90 - A Lisboa em que Tudo É Possível”. Já a Casa Enkantada, que existiu junto à Praça de Espanha, entra, sim, neste retrato - surge por volta da página 190. O volume, com projeto gráfico de Pedro Fernandes, inclui ainda contributos de mais oito autores que Stichini Vilela convidou, entre os quais Rui Miguel Tovar e Tiago Carrasco.

Com perto de 300 páginas dedicadas à Lisboa dos anos 90, este título vem reforçar a coleção que a autora tem construído sobre a capital, depois de já ter publicado volumes sobre as décadas de 60, 70 e 80. Depois deste livro, diz querer virar-se para outros desafios. Ainda assim, se voltar a acrescentar peças a esta coleção de memórias coletivas da cidade, admite recuar até aos anos 50: “Tenho a sensação de que são um grande mistério para a maior parte das pessoas.”

Na série “LX”, o olhar costuma ser distanciado, muitas vezes bem-humorado, e sempre atento ao detalhe - uma atenção que facilmente se confunde com ternura pelo passado ou com nostalgia. Ao Expresso, Joana Stichini Vilela garante que não é particularmente nostálgica, exceto quando, durante o trabalho, regressa às canções da época sobre a qual está a escrever: “música de que na altura não gostava tanto, mas de que agora gosto mais”. Mais do que saudade, diz olhar para os anos 90 com alguma inveja, sobretudo enquanto profissional do jornalismo, “porque os anos 90 foram os anos dos media, havia dinheiro” - e lembra, a propósito, os tempos intensos de “O Independente”, o lançamento da revista “Visão” e a criação do jornal “Público”.

Crime, política e violência em “LX 90”

A diversidade de registos é uma das marcas do livro. Nas páginas centrais, encontra-se o relato de um assassínio racista, cometido a 10 de junho de 1995 por um grupo de extrema-direita. A crónica “O ódio saiu à rua” abre com descrições de grande impacto e prossegue assim: “Alcindo Monteiro, de 27 anos, nascido em Cabo Verde mas com nacionalidade portuguesa, acabará por morrer no Hospital de São José. Outras 10 vítimas da senda de violência dos ultranacionalistas, todas negras, são socorridas no mesmo lugar.”

A violência política está presente em “LX 90”, tal como os crimes atribuídos ao chamado estripador de Lisboa. Surgem também os roubos, sequestros e violações do gangue do Multibanco. E aparece ainda o caso que viria a inspirar “A Cabeça Perdida de Damasceno Monteiro”, de Antonio Tabucchi. Em “LX 90”, a narrativa “De cabeça perdida” arranca com um início que convida a seguir em frente: “O mundo de Carlos Rosa começou a ruir em 1989, quando aos 18 anos partiu uma perna a jogar à bola e foi obrigado a passar algumas semanas no hospital. Quem o dizia era o pai, motorista na Petrogal, na zona oriental de Lisboa. Que fora durante esse internamento que o filho, até então atinado, se viciara. Que calhara estar na cama ao lado ‘um drogado, que lhe meteu o vício no corpo’. Que saiu do hospital agarrado.”

A Lisboa dos anos 90: cultura pop, futebol e protesto

Como este álbum bem preenchido deixa claro, a década de 90 em Lisboa não se resume a episódios de morte violenta. Há também a chegada da cadeia McDonald’s. E os protestos da chamada “Geração Rasca”. O 6-3 com que o Benfica bateu o Sporting. A febre da Expo’98. O aparecimento dos canais privados de televisão. O fenómeno da música pimba. A massificação dos telemóveis. Uma feijoada publicitária inaugural, já na nova Ponte Vasco da Gama. O pico da epidemia de heroína. Os parquímetros, como novas armas contra o estacionamento selvagem. A morte de Amália, vivida em multidão. E, já no virar do milénio, as dúvidas em torno de um possível ‘bug do milénio’, capaz de travar a vida contemporânea através de um colapso generalizado de sistemas informáticos.

O famoso buzinão contra as portagens acabou por simbolizar o fim anunciado do cavaquismo. Tudo isso aconteceu “numa era em que as pessoas se manifestavam”, diz Joana Stichini Vilela

Entre os rostos e personagens da década, o livro destaca figuras como o Lecas, que marcou e melhorou a televisão da manhã para toda uma geração de crianças. Ou António, um rapaz de Lisboa, que Jorge Silva Melo levou ao teatro. E também o Corvo, que primeiro espalhou o pânico com um passa-montanhas, entre Massamá e Queluz, para depois aparecer de cara destapada. Era, afinal, Felisberto Cabral, líder comunitário. Pela paz, contra a violência policial e o racismo.

O leitor é levado até uma madrugada de dezembro de 1993: o futebolista do Sporting Serguei Cherbakov sobrevive a um acidente de viação na Avenida da Liberdade, mas fica sem poder voltar a andar. “O adorado Cherbakov, o prodígio de 22 anos, o ucraniano sozinho em Lisboa, faz tudo errado. Pega no carro alcoolizado, não põe o cinto de segurança, sobe a Avenida da Liberdade em excesso de velocidade, até que, à passagem do terceiro sinal vermelho, um Renault Clio vindo do Conde de Redondo lhe bate de lado.”

Nesta viagem pela Lisboa dos anos 90, entram igualmente figuras centrais como o primeiro-ministro Aníbal Cavaco Silva e o líder da oposição que viria a chefiar o Governo, António Guterres. E também o publicitário brasileiro Edson Athayde, que chegou a Portugal no início da década. Em 1994, Guterres convidou-o a conduzir a campanha do PS para as legislativas. Numa década em que, como sugere o título, tudo parecia possível, Athayde aceitou o desafio do político afável com quem almoçava com frequência no restaurante Conventual, na Praça das Flores. Em troca, colocou uma condição: não queria receber pelo trabalho. Via Guterres como amigo, como um irmão mais velho, conta no livro. “Na tarde das eleições, fui do aeroporto de Lisboa para o Altis. O meu amigo João Gobern tinha ficado de entrar comigo. Não sabia que não podia, por ser jornalista. Saio do elevador, tinha aparecido a projeção da SIC e estavam batendo palmas. O Guterres vira-se para ver quem estava entrando e diz: ‘palmas para o homem que ganhou as eleições’. Antes de o tirarem dali, o Gobern tomou nota e depois publicou.”

“LX 90” reúne ainda várias entrevistas feitas com os olhos postos nessa década. Uma das conversas mais alinhadas com o gosto pessoal de Joana Stichini Vilela é a entrevista aos criadores do herói de banda desenhada lisboe­ta Filipe Seems, António Jorge Gonçalves e Nuno Artur Silva. E ganha particular relevo a entrevista a Maria de Medeiros, que se estreou no cinema aos 15 anos, em “Silvestre”, de João César Monteiro. A certa altura, a atriz e realizadora é confrontada com a pergunta: “Consegue apontar o que críticos e realizadores viam em si? Falava-se numa figura exótica, na intensidade...” A resposta de Maria de Medeiros, dada hoje mas olhando para a década em causa, é esta: “Com o #metoo dei-me conta de tudo a que escapei por ser exótica, por não corresponder aos padrões de realizadores predadores. Uma das coisas difíceis na carreira de um ator ou de uma atriz é aceitar que somos mais desejados do que desejamos. Fui escolhida pelo que podia trazer artisticamente.”

O tema é uma década inteira, mas sempre dentro das fronteiras da Grande Lisboa - uma limitação que pode complicar escolhas. Não faria sentido, por exemplo, falar dos anos 90 sem mencionar Pedro Abrunhosa, apesar de ser do Porto, defende a autora. Para além de fenómeno musical, era também uma voz de contestação ao cavaquismo. E a questão geográfica tornou-se mais simples: Abrunhosa deu um concerto no Ondaparque, em Almada, precisamente no dia em que entraram em vigor as novas portagens na Ponte 25 de Abril.

O buzinão contra as portagens acabou por funcionar como símbolo do epílogo do domínio político de Cavaco Silva e do fim anunciado do cavaquismo. Tudo isto ocorreu “numa era em que as pessoas se manifestavam”, diz Joana Stichini Vilela. “Acreditavam não só que tinham os seus direitos, mas que podiam lutar por eles. E dar voz às suas convicções.”

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