Sem grande surpresa, Nigel Farage saiu como o principal vencedor das eleições locais no Reino Unido. Já o Labour foi o grande derrotado: perdeu metade dos eleitos e 38 câmaras, desencadeando uma vaga cada vez maior de apelos à demissão do primeiro-ministro. À hora a que escrevo, já apresentaram a demissão quatro ministros e cerca de cem deputados exigem a saída de Keir Starmer. A extrema-direita alcançou 30% dos votos, os Verdes somaram mais 411 lugares e cinco câmaras, “roubando” zonas que sempre votaram trabalhista. O velho bipartidarismo dissolveu-se num quadro de cinco forças com verdadeiro peso político. E esta fragmentação não parece passageira.
Menos de dois anos depois de ter garantido uma das maiores maiorias parlamentares de sempre - elegendo quase dois terços dos deputados com apenas 34% dos votos -, Starmer é avaliado positivamente por apenas um em cada cinco eleitores britânicos. A falta embaraçosa de carisma e a evidente ausência de rumo ajudam a explicar o nervosismo que se instalou no partido. Mas será mesmo Starmer o problema?
Eleições locais no Reino Unido e a ascensão de Nigel Farage
O castigo aos partidos no poder não é exclusivo de Inglaterra
Punir quem governa tornou-se a norma. E, neste ponto, Inglaterra não é uma ilha. Em 2024, pela primeira vez em cerca de 120 anos, todos os partidos no poder que foram a eleições perderam peso eleitoral. Sem qualquer exceção. Desde a pandemia, três em cada quatro governos nas democracias ocidentais foram “despedidos” nas urnas. E o desgaste não atinge apenas quem está no Governo: está a corroer os próprios partidos que ajudaram a consolidar estas democracias.
Esse descontentamento tem sido canalizado quase totalmente pela extrema-direita. Em seis países da União Europeia já integra governos (Croácia, República Checa, Finlândia, Itália, Países Baixos, Eslováquia). Em Inglaterra e em França lidera sondagens. Na Alemanha, é a força que mais cresce e vai disputar a vitória nas próximas legislativas. Em Portugal, o Chega é o parceiro preferencial do Governo.
Sempre que os partidos tradicionais no poder são esmagados, tende-se a procurar a explicação no imediato: carisma, casos, economia. Mas, se o resultado se repete em tantos países, as causas dificilmente serão apenas locais. É claro que existem factores específicos. No Reino Unido, por exemplo, o Brexit teve o resultado oposto ao anunciado e é visto negativamente por dois terços dos britânicos, sem que qualquer grande partido se atreva a pegar no tema - e sem que alguma das figuras que o promoveram tenha sido politicamente punida. Ainda assim, há uma vaga política mais ampla a desgastar as democracias.
PIOR QUE OS NOSSOS PAIS
Uma das edições mais recentes do principal podcast do New York Times, dedicada ao aumento da violência política nos Estados Unidos, ajuda a enquadrar este fenómeno. Robert Pape, professor na Universidade de Chicago, resume a escalada a dois motores: o ressentimento face à imigração, percepcionada como ameaça identitária e económica, e uma sensação crescente de desigualdade. A promessa fundadora do Estado Social - a ideia de que cada geração viveria um pouco melhor do que a anterior - nunca pareceu tão desacreditada.
No Reino Unido, a extrema-direita concentrou votos nas zonas com menor escolaridade, mais envelhecidas e com rendimentos mais baixos. Já Verdes e Labour dominaram áreas urbanas de maior rendimento e com níveis de escolarização mais elevados. Com pequenas variações, o padrão repete-se em quase todo o mundo industrializado. O ressentimento dos “derrotados da globalização” não foi respondido pelos partidos do centro e, em grande medida, a esquerda abandonou-os à sua sorte.
Os dados são claros. Desde janeiro de 2021, a família americana média passou a desembolsar cerca de mil dólares a mais por mês para comprar o mesmo cabaz. Em Portugal, o cabaz alimentar aumentou 40% nos últimos quatro anos. Em 2024, 45% dos eleitores americanos disseram estar pior do que há quatro anos. Na União Europeia, o preço das casas subiu 53% entre 2015 e 2024. Em Portugal, 124%, e nunca a subida foi tão rápida como agora. Em pouco mais de três décadas, a quota de rendimento do 1% mais rico nos Estados Unidos passou de 14,7% para 20,9%. Em França, passou de 9,3% para 12,7%. O Relatório Mundial sobre a Desigualdade de 2026 acrescenta a fotografia global: as sessenta mil pessoas mais ricas do planeta detêm três vezes mais riqueza do que metade da humanidade somada. Na pandemia, a divergência de rendimentos acelerou a uma velocidade olímpica. Falta em baixo para o essencial, sobra em cima para lá do razoável.
REVOLTA CONTRA O QUE ESTÁ PERTO
O poder foi-se deslocando para mercados financeiros que ninguém elege, para instituições transnacionais em que ninguém vota, para gigantes tecnológicos sem regulação que se aproximaram de Trump porque o caos lhes convém. A confiança nos governos nacionais da União Europeia desceu para 36%. Em simultâneo, a confiança na União Europeia está nos níveis mais altos desde 2007. Para muitos europeus, Bruxelas inspira mais confiança do que Lisboa, Paris ou Berlim. Porque, aos olhos das pessoas, o poder ainda parece estar nas mãos de quem conhecem e em quem votaram. E, por isso mesmo, também a culpa recai aí.
Perante este cenário, políticos de visão curta escolhem o atalho e imitam a mensagem xenófoba para tentar segurar eleitorado. Starmer fez exactamente isso. Falou de pequenos barcos nos mesmos termos em que Farage fala. Prometeu cortes no sistema de apoios sociais com a linguagem dos tabloides. Ao repetir o erro de tantos outros, acabou por legitimar o discurso de quem, nove meses depois, o esmagaria. Ninguém vota na cópia - tal como Montenegro não tardará a perceber.
As classes populares, afastadas dos ganhos da produtividade e da globalização, e a classe média, desesperada com a impossibilidade de comprar casa, pagar renda ou ter filhos, não canalizam a sua revolta para a concentração de riqueza no topo, nem para mais uma “reforma” que lhes retire direitos num mundo cada vez mais rico. A geometria política da derrota aponta quase sempre para baixo: os multimilionários são uma abstracção; o imigrante é quem apanha o autocarro à mesma hora.
Estes eleitores não são, como lhes chamou Hillary Clinton, “deploráveis”. São os mesmos que, durante décadas, deram força a quem construiu o Estado Social. E só haverá resposta se se assumir que a democracia é impossível com estes níveis de desigualdade, com uma crise habitacional que esmaga a juventude e com um custo de vida que torna inviável a vida de quem trabalha.
O desequilíbrio social não se resolve com “controlo das fronteiras” num continente envelhecido. Resolve-se com um novo contrato social redistributivo, capaz de voltar a unir o que se partiu nas nossas democracias. Copiar a agenda da extrema-direita não a derrota: legitima-a. E empurra para a frente o trabalho que a esquerda, há demasiado tempo, se recusa a fazer. As eleições locais no Reino Unido funcionam como o aviso dos espelhos retrovisores: nunca esquecer que “os objetos podem estar mais perto do que aparentam”.
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