O meu reencontro com os fenómenos anómalos não identificados
Há alguns meses, dei por mim a descobrir que o meu filho mantinha uma folha de cálculo em Excel onde registava todos os avistamentos conhecidos de fenómenos anómalos não identificados (FANI), cruzando-os com uma fórmula matemática de probabilidades. No mesmo dia, em sentido inverso, ele ficou a saber que, quando eu tinha a idade dele, cheguei a ser sócio da Associação Portuguesa de Pesquisa OVNI.
Aproveitei para lhe mostrar o único texto que publiquei sobre o assunto na imprensa: um artigo de 2015, na revista Visão, com o título “Estamos Preparados para a Vida Extraterrestre?”. Escrevi-o poucos dias depois de ter participado num encontro nocturno na Universidade de Harvard. Todos os anos, normalmente numa noite de Fevereiro, um pequeno grupo de docentes e investigadores é convidado a apresentar aos colegas “grandes ideias” com capacidade para mudar a História.
Na altura, marcou-me particularmente a intervenção de David Charbonneau, professor catedrático do Departamento de Astronomia, intitulada “A Última Geração de Terráqueos Solitários”. Depois de sublinhar que a astrofísica avançava a um ritmo inesperado, alimentada por anúncios e descobertas sucessivas, concluiu que, em cinco anos, deveríamos conseguir confirmar a existência de vida biológica extraterrestre.
Do ridículo ao escrutínio institucional
Durante muito tempo, porém, a discussão pública em torno dos FANI ficou sequestrada pelo ridículo. O tema escorregou para o território da ficção científica, das teorias da conspiração, das revistas sensacionalistas, de relatos oculares pouco verosímeis, de imagens de luzes intermitentes e de histórias que misturam medo com fascínio. Foi-se formando um ambiente próprio, feito de imaginação, boato, insinuação e mistério.
Portugal não fugiu a esse padrão, como se pode ver numa reportagem da RTP de 1990 ou na transmissão em directo da alegada autópsia de um extraterrestre de Roswell, em 1995.
Vale a pena perguntarmo-nos se a ridicularização deliberada destes fenómenos não terá servido, também, como forma de travar o escrutínio. Quanto mais ruído, menos ciência. Quanto mais caricatura, menor espaço para uma análise pública, científica e académica séria.
Ainda assim, nos últimos anos, a sensação é a de que, pouco a pouco, estamos a ser habituados à possibilidade de um grande anúncio. Em 2017, um artigo do jornal Tempos de Nova Iorque revelou que o Pentágono financiou o Programa Avançado de Identificação de Ameaças Aeroespaciais, dedicado ao estudo de fenómenos aéreos não identificados. Foi um texto simbólico, porque empurrou o tema para uma zona de respeitabilidade pública.
Em 2022 e 2023, o Congresso norte-americano organizou as primeiras audiências públicas em mais de meio século sobre FANI. Alexandria Ocasio-Cortez, Marco Rubio e muitos outros congressistas assumiram posturas abertas ao debate e ao escrutínio. Pela primeira vez em décadas, o assunto entrou, de forma formal, no espaço institucional do Estado. E ouvimos militares afirmar, sob juramento, que os Estados Unidos, a Rússia e a China terão na sua posse material biológico e tecnológico de alegada origem não terrestre.
Relatórios oficiais e o regresso do espectáculo
Nos anos mais recentes, relatórios do Gabinete do Director de Inteligência Nacional (2021), da NASA (2023) e do Gabinete de Resolução de Anomalias em Todos os Domínios (2024) consolidaram a ideia de que existem ocorrências genuínas para as quais ainda não há uma explicação técnica conclusiva.
Em paralelo, começa também a crescer - ainda que com prudência - o número de académicos que se dedica ao tema, como o patologista Garry Nolan (Universidade de Stanford) ou a astrofísica Beatriz Villarroel (Universidade de Estocolmo).
Em 2025, o documentário A Era da Divulgação voltou a intensificar a conversa pública, ao reunir depoimentos de antigos e actuais responsáveis militares, dirigentes políticos e membros dos serviços de informações dos EUA. E, há poucos dias, o Pentágono divulgou 161 documentos governamentais relacionados com o universo extraterrestre. O sítio já recebeu mais de quatrocentos milhões de visitas.
O resultado, contudo, fica muito aquém do extraordinário. A maior parte das imagens e dos vídeos é disponibilizada em bruto, sem classificação nem contexto. Para a comunidade científica, isto equivale a uma mão cheia de nada. Regressámos ao terreno do entretenimento - isto é, ao mesmo campo do espectáculo que, desde o início, tem contaminado a investigação sobre FANI.
E se a confirmação chegar?
Se algum dia vier a ser revelado - caso venha mesmo a acontecer - que não estamos sós, a humanidade perderá a última grande ilusão de centralidade. Depois de Copérnico nos ter retirado do centro do cosmos, Darwin do centro da criação e Freud do centro transparente da consciência, restará abdicar da ideia de que a inteligência humana é uma excepção absoluta no universo.
A confirmação de outra inteligência, biológica ou não, próxima ou distante, benevolente, indiferente ou incompreensível, obrigaria a uma revisão não apenas da ciência, mas também da teologia, da filosofia, da política e da imaginação moral. Haveria fascínio, medo, negação, oportunismo, fervor religioso, ansiedade política, exploração mediática e, inevitavelmente, novas formas de poder construídas em torno da interpretação desse acontecimento.
O problema é que não parece que estejamos preparados para um momento de transição desta natureza. Faltam instituições capazes de gerar confiança, lideranças com autoridade moral e inteligência histórica, e posturas políticas que não transformem tudo em espectáculo, conspiração ou tribalismo. O mundo atravessa uma fase de enorme confusão, marcado por guerras, polarização, degradação informativa, ansiedade tecnológica e descrédito das elites. Uma revelação desta magnitude exigiria prudência.
O antigo sócio da Associação Portuguesa de Pesquisa OVNI deseja esse dia desde a juventude. Mas o adulto, que há décadas deixou de pagar quotas, considera que ainda não estamos preparados.
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