Conversações em Pequim e reforço da aliança China-Rússia
O presidente chinês, Xi Jinping, destacou esta quarta-feira os laços "inabaláveis" entre a China e a Rússia, durante um encontro com o seu homólogo Vladimir Putin, num momento em que ambos procuraram consolidar a sua parceria, poucos dias depois da deslocação de Donald Trump à superpotência económica asiática.
Na semana passada, o presidente dos EUA foi recebido com grande pompa, mas saiu sem progressos de relevo - em particular no dossiê relativo a uma eventual ajuda para a reabertura do Estreito de Ormuz. Por isso, a visita de Putin deverá ser escrutinada à procura de resultados concretos.
Apesar disso, Putin chega a Pequim fragilizado por anos de guerra da Rússia contra a Ucrânia: as sanções aplicadas pelas potências ocidentais comprimiram as receitas energéticas e reforçaram a dependência de Moscovo em relação à China, hoje o principal comprador de petróleo russo.
Ao mesmo tempo, a guerra dos EUA contra o Irão afetou os fluxos de petróleo bruto e gás, oferecendo a Putin a oportunidade de oferecer as fontes de energia russas como alternativa.
Energia e o gasoduto "Power of Siberia 2"
Moscovo e Pequim continuam, porém, sem fechar um entendimento sobre o novo gasoduto "Power of Siberia 2", que ligaria a Rússia à China através da Mongólia - uma alternativa terrestre ao petróleo bruto importado por via marítima do Médio Oriente. O porta-voz do Kremlin, Dmitry Peskov, afirmou aos media russos que, embora exista um "entendimento básico", incluindo sobre "o trajeto e como será construído", não há um "calendário claro" e "ainda há alguns detalhes a serem resolvidos".
O projeto, de resto, não apareceu na extensa lista de acordos divulgada pelo Kremlin no seu site após as conversações entre Putin e Xi.
Se avançar, o gasoduto teria capacidade para 50 mil milhões de metros cúbicos de gás por ano e - aspeto decisivo para a Rússia - seria alimentado por campos que anteriormente abasteciam a Europa, destino cujas exportações caíram abruptamente desde o início da guerra. O corredor previsto teria 2600 quilómetros, partindo da Península de Yamal, no norte da Sibéria, atravessando a Mongólia até chegar à China.
No opulento Grande Salão do Povo, em Pequim, os dois líderes abriram as conversações com elogios mútuos aos laços singulares entre os seus países, ao estenderem o tratado de "cooperação amigável".
Segundo a comunicação social estatal chinesa, Xi disse ao líder russo que Pequim e Moscovo têm "aprofundado continuamente a confiança mútua política e coordenação estratégica com uma resiliência que permanece inabalável".
Do lado russo, Putin afirmou a Xi - de acordo com um vídeo divulgado pela comunicação social russa - que a relação atingiu um "nível sem precedentes", apesar de "fatores externos desfavoráveis", sem identificar qualquer terceiro país.
Xi deixou ainda um aviso sobre as "correntes contrárias unilaterais e hegemónicas que se alastram", numa referência velada aos Estados Unidos.
"Velho amigo"
Xi tem recebido sucessivos líderes internacionais numa fase em que os Estados Unidos, cada vez mais imprevisíveis sob a liderança de Trump, levaram muitos a reforçar as alianças com Pequim - tendência que ganhou novo impulso com a guerra no Irão.
Desde que Moscovo lançou a invasão da Ucrânia em 2022, a relação sino-russa intensificou-se, com Putin a deslocar-se a Pequim todos os anos desde então, à medida que o seu país vai sendo afastado pelas potências ocidentais.
Ainda assim, a deslocação de Putin deverá ter um tom menos exuberante do que a de Trump, o que evidencia que "a relação Xi-Putin não requer esse tipo de demonstração de segurança", disse Patricia Kim, especialista da Brookings Institution, em Washington.
Na sua última visita a Pequim, em setembro de 2025, Xi recebeu Putin de braços abertos como um "velho amigo" - expressão que o líder chinês não usou com Trump na semana passada.
Para Patricia Kim, em declarações à AFP, tanto Putin como Xi entendem que as relações entre os dois países são "estruturalmente mais fortes e estáveis" do que as existentes entre a China e os Estados Unidos.
Pequim tem repetidamente apelado a negociações para terminar a guerra na Ucrânia, mas nunca condenou a Rússia pelo envio de tropas, preferindo apresentar-se como um ator neutro.
No entanto, com Moscovo a depender das vendas à China para manter o esforço de guerra, "Putin não quer perder esse apoio", reforçou Lyle Morris, especialista da Asia Society, à AFP.
Prioridades do Médio Oriente
No que toca à guerra dos EUA e de Israel contra o Irão, a China e a Rússia podem, ainda assim, não estar totalmente alinhadas quanto às prioridades.
A Rússia tem procurado tirar partido da crise energética e da escalada acentuada dos preços do petróleo desencadeada pelo encerramento do Estreito de Ormuz.
Em abril, após se ter reunido com Xi, o ministro dos Negócios Estrangeiros russo, Sergei Lavrov, afirmou que a Rússia poderia "compensar" a escassez energética da China, numa altura em que a guerra no Médio Oriente pressiona o abastecimento global.
A China, no entanto, quer que o conflito no Médio Oriente termine o mais depressa possível.
Xi salientou nas conversações com Putin que uma nova escalada de hostilidades na região é "desaconselháveis", defendendo que "um cessar-fogo abrangente é da máxima urgência".
A China, concluiu à AFP James Char, especialista da Universidade Tecnológica de Nanyang, em Singapura, "depende da liberdade de navegação nas principais vias navegáveis mundiais para sustentar as suas atividades económicas e preferiria que o impasse no Estreito de Ormuz terminasse o mais rapidamente possível".
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