Saltar para o conteúdo

Cannes: quase um terço dos filmes da Palma de Ouro fora do país do realizador

Homem sentado à mesa com máquina fotográfica, passaporte e prémio de cinema numa esplanada junto ao mar.

Quase um terço dos filmes em competição é realizado fora do país de origem do respetivo cineasta.

Um terço da Palma de Ouro filmado longe de casa

Isto não é, de modo algum, uma censura. Qualquer artista tem plena legitimidade para criar onde entender - também aí se manifesta a diversidade. Ainda assim, há um dado que salta à vista e que pode traduzir uma tendência: em Cannes, praticamente um terço dos filmes que disputam a Palma de Ouro é produzido e rodado fora do país dos seus realizadores.

Coproduções, exílios e convites: porque acontece

As explicações são múltiplas. Vão desde exílios involuntários até aos convites de produtores estrangeiros para que cineastas já consagrados prossigam o seu percurso noutro lugar, ou pelo menos o tentem uma vez.

A isto juntam-se as condicionantes das coproduções multinacionais: a exigência de recorrer a meios locais em cada país participante faz, por vezes, com que a quota de um deles se materialize sobretudo na escolha do local de filmagem.

Na década de 1980, chegou a cunhar-se a expressão “pudim europeu”, num sentido deliberadamente pejorativo, para classificar filmes obrigados a acumular atores e técnicos de diferentes países como forma de assegurar os respetivos financiamentos. Era ainda uma fase inicial das coproduções com mais de dois países, e o processo estava longe de decorrer de forma orgânica.

O “colonialismo” do cinema francês e o financiamento

Em Cannes, percebe-se com nitidez um fenómeno distinto: uma espécie de “colonialismo” do cinema francês, que investe em quase tudo o que se mexe no chamado cinema do mundo. Uma estrutura como a Aide aux Cinémas du Monde distribui, várias vezes por ano, muitas centenas de milhares de euros a projetos sobretudo oriundos de cinematografias mais frágeis - mas também a autores consagrados que, em teoria, talvez não precisassem tanto desse apoio.

Exemplos recentes em Cannes: realizadores a filmar noutros países

É o caso de Ryusuke Hamaguchi. O realizador, que não podia ser mais japonês, recebeu de um produtor francês o convite para filmar em França, deslocando a narrativa de “Soudain” do Japão para território francês e escolhendo Virginie Efira - que, por coincidência, é belga - como uma das principais atrizes.

Fora da competição, repete-se a lógica com o intensamente romeno Radu Jude, chamado por um produtor francês de grande peso para filmar em França; daí resulta a sua versão de “Diário de uma Criada de Quarto”, apresentada na Quinzena de Cineastas.

Também romeno, e com uma obra reconhecida por abordar temas ligados ao seu país, Cristian Mungiu foi até à Noruega para rodar integralmente “Fjord”, ainda que, neste caso, a família que atravessa o drama no país nórdico seja de origem romena.

O percurso de Asghar Farhadi é diferente. Do realizador, já passou - sem deixar grande marca - o drama francês “Histórias Paralelas”. O iraniano, autor no seu país do brilhante “Uma Separação”, optou por exilar-se no Ocidente, onde tem dado continuidade ao seu trabalho.

O húngaro Laszlo Nemes, por seu lado, vive há alguns anos em Paris; por isso, não surpreende que tenha avançado para um herói nacional francês em “Moulin”, centrado no chefe da resistência à ocupação nazi, Jean Moulin.

Entretanto, a alemã Valeska Grisebach cruza-se com o território búlgaro para assinar o desconcertante drama “The Dreamed Adventure”. E, embora seja uma produção polaca, “Fatherland”, de Pawel Pawlikowski - filme que fala precisamente de nacionalidade - acompanha o regresso de Thomas Mann à Alemanha natal, após o fim da guerra e um período de exílio nos Estados Unidos, confrontando-o com um país dividido em dois.

Por fim, aguarda-se ainda o regresso à atividade do russo Andrei Zviagintsev, que hoje vive fora do seu país e, por isso, não pode lá filmar o novo drama, “Minotaur”, precisamente uma digressão sobre a grande burguesia russa. Assim se desenham, por estes dias, os caminhos do cinema.

Comentários

Ainda não há comentários. Seja o primeiro!

Deixar um comentário