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Isaac Braga renuncia à Junta de Vila do Conde e Sílvia Ferreira assume

Mulher de fato preto entrega pasta vermelha a homem num escritório com ilustrações e bandeira de Portugal.

Isaac Braga, presidente da Junta de Vila do Conde, apresentou a renúncia ao mandato na sequência de suspeitas de utilização de milhares de euros da junta em despesas de carácter pessoal. A saída tem efeitos imediatos e a liderança passa para a até agora número dois do executivo, a tesoureira Sílvia Ferreira. Do lado da oposição, mantém-se a exigência de que todos os factos sejam totalmente apurados.

"Hoje [terça-feira] de manhã, apresentei a renúncia ao mandato. Entendi que, em consciência, não tinha condições para continuar e devia sair. Em momento oportuno e junto das instâncias competentes, justificarei tudo", disse ao JN, escusando-se a acrescentar mais detalhes.

A renúncia foi formalizada junto do presidente da Assembleia de Freguesia, José Rocha. Desta forma, Isaac Braga deixa o cargo ao fim de apenas sete meses do terceiro mandato, que estava previsto prolongar-se até outubro de 2029.

Como tudo começou

O processo ganhou forma a 29 de abril, quando nove dos 12 eleitos do PS optaram pela abstenção na votação das contas da Junta de 2025, permitindo que PSD/CDS e Chega viabilizassem o chumbo. Entre as razões apontadas pelos socialistas esteve a exigência de acesso a extratos bancários e a outros documentos de suporte. Isaac Braga, eleito em outubro com uma maioria confortável de mais de 54% dos votos, acabou politicamente isolado.

Dez dias depois, a RTP tornou públicos extratos dos movimentos da conta bancária da Junta de Freguesia entre abril de 2024 e outubro de 2025. Nesses registos constavam 9967,83 euros gastos numa loja de cigarros eletrónicos, 8827,58 euros em restaurantes - incluindo 117 euros pagos num restaurante mexicano no exato dia em que Isaac Braga publicou, no Facebook, uma fotografia com as duas filhas e a mulher nesse mesmo restaurante -, 1400 euros transferidos por MB Way para a mulher e, dois dias antes, 1500 para ele próprio, além de levantamentos indiscriminados de 115 770 euros "sem explicação".

Não chegaram às escolas

A informação teve impacto imediato. Ainda antes de ser exibida a reportagem na íntegra, Isaac Braga afirmou ao JN que estava "tranquilo". "Vamos analisar, com rigor e responsabilidade, o teor da peça e estaremos cá para dar todas as explicações", sublinhou.

Entretanto, a Federação Distrital do PS retirou-lhe a confiança política. O PSD passou a exigir uma auditoria às contas. O CDS-PP considerou que a situação ultrapassava uma simples "quebra de confiança política" e o Chega apontou a existência de "uma cultura instalada de falta de transparência e gestão pouco clara dos dinheiros públicos" em Vila do Conde.

Uma semana mais tarde, a Concelhia socialista pronunciou-se publicamente. Vítor Costa, presidente da Câmara e líder do PS de Vila do Conde - que em outubro voltara a escolher Isaac Braga como cabeça de lista à junta - passou a exigir a renúncia imediata, revelou já ter apresentado queixa à Inspeção-Geral de Finanças e anunciou o início do processo de expulsão do partido. Nessa altura, a Procuradoria-Geral da República confirmou a abertura de um inquérito.

No mesmo dia, a RTP divulgou nova informação: mais de 29 mil euros transferidos, em 2025, pela Câmara para a Junta, destinados a distribuição pelos agrupamentos de escolas Afonso Sanches e Frei João, não terão chegado ao destino. Em 2026, o montante referido era de mais 13,7 mil euros. O dinheiro destinava-se a "limpezas e a expediente geral". A autarquia afirmou ter solicitado esclarecimentos, sem obter resposta. Quatro dias depois, Isaac Braga apresentou a demissão.

Socialistas recusam forçar eleições

O PS defende que se deve "investigue rapidamente aquilo que para todos nós são evidências", mas sustenta que existe "uma maioria estável" e que Isaac Braga representa um "caso isolado". Por isso, rejeita a demissão em bloco na junta, cenário que levaria a eleições intercalares.

Na oposição, as posições divergem. Rui Saavedra, do PSD, considera que "O PS e Vítor Costa devem explicações. Os membros do anterior e do atual executivo têm de assumir as suas responsabilidades pela ação ou pela omissão, pela inoperância". Já o CDS-PP entende que manter o restante elenco "pode dificultar a necessária mudança de práticas".

Percurso

Da NAU para o PS
A entrada de Isaac Braga na política aconteceu em 2017, pela mão de Elisa Ferraz, através do movimento independente NAU. Conquistou a junta e foi um dos principais responsáveis pela primeira derrota do PS em Vila do Conde ao fim de 43 anos. Em 2020, desvinculou-se da NAU e, nas Autárquicas de 2021, surgiu como a grande surpresa no PS de Vítor Costa. Venceu em 2021 e voltou a ganhar em 2025, iniciando então o terceiro mandato.

Regresso ao hospital da Póvoa
Natural das Caxinas e enfermeiro de profissão, Isaac Braga sempre contou com o carinho da maior comunidade piscatória do país. Em Vila do Conde, é reconhecido que é ali que se discutem as eleições. No imediato, o seu futuro deverá passar pelo regresso à Unidade Local de Saúde Póvoa de Varzim/Vila do Conde, onde integra os quadros de pessoal.

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