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Cannes 2026 na reta final: seleção de luxo e candidatos à Palma de Ouro

Homem de fato com crachá a segurar papéis numa varanda com vista para a costa e mar ao pôr do sol.

Na reta final do festival, o que fica é a sensação de estarmos perante uma escolha de luxo. Ao contrário do que muitos temiam - eventuais desilusões, repetição de autores e a alegada ausência de Hollywood - Cannes 2026 afirma-se e tem tudo para ficar na História. Esta programação tem oferecido vários momentos verdadeiramente sublimes.

Cannes 2026 na reta final: seleção de luxo e candidatos à Palma de Ouro

É quase tentador afirmar, sem grande risco, que “Fatherland”, de Pawel Pawlikowski, “Soudain”, de Ryusuke Hamagushi, “Gentle Monster”, de Marie Kreutzer, e “Paper Tiger”, de James Gray, são material de Palma de Ouro.

A esta lista junta-se ainda o novo filme de Christian Mungiu, “Fjord”, já comprado para o nosso mercado. Trata-se de uma coprodução entre a Roménia e a Noruega que aborda a polarização contemporânea, passando por emigração, religião e minorias. Os nomeados ao Óscar Renate Reinsve e Sebastian Stan lideram esta “orgia” de inquietação: uma família de origem romena é encurralada pelas autoridades norueguesas, que acusam os pais de terem dado bofetadas ou palmadas a alguns dos seus cinco filhos.

Há, claro, a leitura sobre como o politicamente correto de um país tido como progressista falha ao lidar com códigos culturais de outra latitude. Ainda assim, o filme não se esgota numa discussão de consciência “woke”; o que está realmente em causa é outra coisa: a polarização constante que asfixia as ideologias destes dias.

No limite do perturbador, “Fjord” é Mungiu no seu estado puro: implacável, rigoroso, sem concessões, preciso como um bisturi. E, curiosamente, no modo como olha para os serviços de assistência social e proteção de menores, Mungiu parece que terá visto “Listen”, de Ana Rocha - toca exatamente nas mesmas feridas. E vai mais fundo nelas, como tem de ser. É um filme que, muito provavelmente, lhe trará inúmeros inimigos.

Também Arthur Harari apareceu com força: pela primeira vez a disputar a Palma de Ouro com o aguardado “L’Inconnue”, inspirado na novela gráfica que criou com o irmão. Niels Schneider, irreconhecível, tem sexo casual numa festa e, pouco depois, percebe que o seu corpo passou a ser o de uma mulher loura alemã - algo que faz lembrar Ellen Barkin na comédia de Blake Edwards de 1991, “Na Pele de uma Loura”.

A diferença é que aqui não há humor: apenas uma descida ao absurdo mais retorcido, quase a convocar os Lynchs mais estranhos. Harari pede ao público cumplicidade nesta hipótese de fábula existencialista. É um daqueles casos em que o espectador fica sem boia de salvação: não há explicações e a melhor maneira de entrar no filme é não ficar a dar voltas à cabeça à procura de uma lógica narrativa.

Este transtorno estimulante já está garantido para Portugal e o canadiano Niels Schneider surge, desde já, como o favorito óbvio ao prémio de melhor ator.

Portugal em Cannes 2026: “Aquí”, de Tiago Guedes

Esta manhã, o Expresso viu, na belíssima sala Cineum, a única longa-metragem portuguesa presente na seleção oficial: “Aquí”, de Tiago Guedes, incluído na secção Cannes Première. O filme adapta “A Trilogia de Jesus”, do Nobel J.M. Coetzee, e leva-nos para uma distopia: um mundo sem passado, onde todos vivem num sistema de formulários, burocracia e procedimentos, e no qual um menino órfão de seis anos questiona tudo e todos.

É uma criança capaz de lançar a pergunta maior da existência humana: o que estamos aqui a fazer? No fundo, o filme funciona como um vasto ponto de interrogação filosófico, em sintonia com a literatura do autor laureado.

Falado em castelhano e com elenco espanhol - ainda assim, são valiosas as presenças de Albano Jerónimo, Rita Cabaço e João Pedro Vaz -, “Aquí” recusa o aparato da máquina cinematográfica: é de uma frugalidade inabalável, adequada à sua aura de odisseia suave (e são três horas e dez esta viagem…). Consta que na sessão oficial teve uma ovação estrondosa.

De certo modo, Tiago Guedes afasta-se da tensão imponente que construiu em filmes como “A Herdade” ou “Restos do Vento”. Pode ter alcançado algo muito casto, sim - mas deixa saudades desse passado recente.

FRASE DO DIA

“Peço desculpa estar a falar assim: demasiada cafeína”

Adam Driver, em entrevista ao Expresso

ECOS DO MERCADO

Em Cannes, o caso Vincent Bolloré parece dominar quase todas as conversas. A lista negra de artistas decretada pelo homem forte do Canal Plus está a ter um efeito detonador: uma tempestade que agita o meio e coloca em causa o futuro do cinema francês. Os artistas e técnicos envolvidos subscreveram uma petição contra a “tomada de controlo fascista no imaginário coletivo”. E, sobretudo entre os jornalistas franceses, sente-se uma defesa clara dos artistas e uma crítica a esta forma de censura.

Entretanto, no Marché, Hollywood mexe-se. A Millennium, que anda pelas ruas da amargura, parece avançar com uma versão feminina de “The Expendables - Os Mercenários”. O projeto, um filme de ação no feminino, deverá chamar-se “The Expendabelles”. Mas, como uma ideia sombria raramente vem sozinha, está igualmente em pré-produção uma prequela de “Rambo” - com James Franco no papel de vilão. Era tão bom que os executivos americanos aprendessem com o fenómeno coreano “Hope”…

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