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Ensino Superior e Emprego Jovem em Portugal: salários, custos e acesso

Jovem vestido formal lê documento no terraço com vista para telhados e rio ao fundo, segurando pasta azul.

Desde 1998, a proporção de jovens adultos entre os 25 e os 34 anos com ensino superior passou por uma transformação profunda: quadruplicou, de 11% para 43% em 2024. Este avanço permitiu reduzir de forma marcada o atraso em relação à média da União Europeia, embora Portugal continue abaixo de países como França e Espanha, onde mais de metade dos jovens adultos concluiu o ensino superior. No topo está a Irlanda, com a percentagem mais elevada - dois em cada três têm este grau. Perante este salto nas qualificações, coloca-se a questão: que ganhos económicos tem, na prática, cada diplomado? Serão iguais em todos os cursos? E que peso tem, para as famílias, suportar mais anos de formação?

O mais recente documento da Fundação Francisco Manuel dos Santos aborda estas perguntas ao analisar a ligação entre formação e mercado de trabalho no estudo “Ensino Superior e Emprego Jovem em Portugal”, coordenado por Luís Catela Nunes, Pedro Reis e Teresa Thomas.

Em termos gerais, os autores concluem que frequentar o ensino superior - com destaque para o mestrado - está associado a elevadas taxas de emprego, a salários superiores no arranque da carreira e a aumentos mais pronunciados à medida que se acumula experiência profissional.

Cinco anos após a conclusão do curso, a taxa de emprego é idêntica para licenciados e mestres: 93%. A diferença surge no período de transição para o mercado de trabalho, já que quem termina na licenciatura tende, em média, a demorar mais tempo a conseguir colocação.

Já entre quem não prossegue para além do ensino secundário, os níveis são inferiores. Ao fim de cinco anos, a taxa de emprego é de 88% para quem concluiu um curso profissional e de 86% para quem seguiu a via científico-humanística.

Mestrado paga mais 49%: TIC e Matemática lideram

Na análise aos rendimentos, os investigadores só conseguiram observar salários no sector empresarial privado e deixaram de fora quem concluiu um curso técnico superior profissional (por serem poucos casos) e quem obteve doutoramento (pela heterogeneidade dos percursos). Com esta limitação, apurou-se que, em 2023, os jovens adultos licenciados ganharam, em média, mais 28% do que os que só concluíram o secundário. Entre os titulares de mestrado, a diferença aumenta para 49%.

De forma geral - e desde cedo - a “vantagem salarial do ensino superior em relação ao ensino secundário é substancial”. No início de carreira, os licenciados auferem salários acima dos jovens com ensino secundário mesmo quando estes já têm três anos de experiência. E quem possui mestrado começa, em média, com remunerações superiores às de licenciados com dois anos de experiência.

Ao longo da última década, estas diferenças por nível de escolaridade mantiveram-se essencialmente estáveis.

Ainda assim, os números agregados escondem disparidades relevantes entre áreas de estudo e também entre instituições: pessoas com o mesmo grau e formação podem ter salários muito distintos.

Os cursos nas áreas de Tecnologias da Informação e Comunicação (TIC), Matemática e Estatística e Engenharia são as que oferecem salários médios mais altos. Fora do bloco de Ciências e Tecnologias, áreas como Saúde, Gestão e Administração e Direito também garantem remunerações elevadas a quem conclui mestrado. Em sentido inverso, Educação e Serviços Sociais surgem como as áreas com pagamentos médios mais baixos - em média, cerca de metade do que recebem mestres em TIC.

O que também se altera de forma mais expressiva é a progressão salarial entre quem tem e não tem ensino superior. Para quem fica pelo secundário, a evolução dos salários com a idade é muito reduzida e quase não se distinguem trajetórias entre cursos gerais e profissionais. Já entre mestres, a progressão é acentuada. O resultado é claro: licenciados e mestres não só ingressam no mercado de trabalho com salários mais altos, como as diferenças para quem só tem o 12º ano aumentam com a experiência profissional.

Vale a pena estudar, mas não é acessível a todos

O estudo avalia ainda o “retorno financeiro líquido do investimento no ensino superior”, comparando os benefícios de rendimento ao longo da vida associados à frequência do ensino superior com os custos da educação - que incluem propinas, material escolar e os rendimentos a que se renuncia por permanecer mais anos a estudar.

Neste indicador, Portugal surge bem posicionado: os custos individuais de tirar um curso superior em Portugal são os segundos mais baixos da OCDE e os ganhos salariais a longo prazo significativos. Daí resulta um rácio benefício-custo muito acima da média: por cada euro investido no ensino superior, o retorno é de 13,7 euros, 68% acima da média dos países da EU (8,2). Segundo o estudo, isto explica-se sobretudo pelo nível baixo dos salários em Portugal - logo, optar por estudar em vez de trabalhar implica abdicar de um montante total de rendimentos relativamente reduzido.

No entanto, custos baixos em valor absoluto não significam que, para as famílias, o esforço não seja pesado. Considerando os rendimentos baixos de muitas famílias e da população em geral, as despesas iniciais podem tornar-se um obstáculo significativo à entrada de muitos estudantes no ensino superior”, sobretudo para quem vem de contextos economicamente mais frágeis. **“Avaliados os custos diretos em percentagem do PIB per capita, o panorama muda bastante”, explica Luís Catela.

“Assim, embora os custos absolutos sejam baixos em Portugal, os custos diretos em percentagem do PIB per capita são elevados quando comparados com a maioria dos países europeus. Isto significa que os custos iniciais - como propinas e outras despesas diretas - podem constituir sérios obstáculos à entrada no ensino superior. Enfrentar estes desafios de liquidez é essencial não só para promover a equidade, mas também para melhorar a eficiência global do sistema educativo. Para tal, é necessário dispor de mecanismos de apoio financeiro sólidos - nomeadamente bolsas de estudo -, de modo a assegurar que estudantes com mérito académico não sejam excluídos do ensino superior”, lê-se no estudo.

“Se quem tem rendimentos mais baixos não consegue financiar os estudos que vão assegurar melhores condições, então estamos a perpetuar as desigualdades de origem”, reforça o investigador da Nova SBE Luís Catela Nunes.

Sistema sob pressão

Num contexto em que “o modelo português de partilha de custos - que combina financiamento público com propinas - está sob pressão, devido à despesa diminuta nas instituições de ensino superior (em 2022, as despesas por estudante eram 35% inferiores à média da UE‑25) e às elevadas contribuições das famílias (30%, ao passo que a média da UE‑25 era de 13%)”, os autores defendem que é necessário colocar em cima da mesa e analisar as várias opções.

Para assegurar “equitativa e financiamento sustentável”, torna-se crucial garantir bolsas que reduzam os custos iniciais suportados por estudantes de baixos rendimentos. E qualquer alteração no valor das propinas - caso venha a ser necessária para financiar um sistema com qualidade - deve manter essa preocupação, acompanhando-se de apoios financeiros dirigidos aos grupos mais vulneráveis.

Os investigadores admitem também que seja ponderada a viabilidade de um sistema de empréstimos indexados aos rendimentos após a conclusão do curso. Uma solução deste tipo permitiria atribuir aos estudantes parte da responsabilidade pelo financiamento de um sistema que beneficia a sociedade e o país, mas que também gera ganhos importantes para cada indivíduo.

No domínio da informação, os autores sublinham a necessidade de reforçar as estatísticas e criar um sistema nacional que ligue bases de dados de educação, emprego e salários. Para este trabalho, nem sequer foi possível obter algo tão elementar como o acesso às remunerações do sector público por percurso formativo, nem dados acessíveis e sistemáticos, curso a curso - licenciatura ou mestrado - sobre emprego e salários dos recém‑diplomados.

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